Tenho de começar por confessar que, abandonado aos meus piores instintos, acho graça a ver gente que interrompe o trânsito a apanhar do povo. Na semana que passou, por exemplo, há um momento que me pareceu hilariante em que uma jovem leva um pontapé no rabo logo após ser posta a correr do chão da faixa de rodagem da Segunda Circular que tinha ocupado. São segundos de uma pequena humilhação que me geraram uma grande gargalhada. Não estou seguro, admito, que esse riso tenha a melhor origem espiritual. Na Bíblia, a pessoa colher as consequências do que semeia tanto suscita a velha pedagogia do “eu avisei-te”, como, por outro lado, suscita misericórdia. E nestes momentos eu fico dividido entre ver esta miudagem a levar na ripa e descobrir nela os meus filhos, diante dos quais a pancada eventualmente merecida não seria o meu desejo final.

Quando via a reportagem na SIC chamou-me a atenção um momento inesperado, quando amigos destes jovens que depois tinham sido presos, então na Esquadra de Benfica, esperavam pelo momento da libertação. Um deles, encostado a uma parede, lia “A Sociedade da Transparência” do Byung-Chul Han. Ora, eu converti-me este ano ao filósofo germano-sul-coreano. Foi uma descoberta surpreendente e arrebatadora. Não sei onde andava para só em 2023 ler o Han mas agora que comecei a lê-lo não quero outra coisa. Pensem por isso na dinâmica única que é, ao ver a reportagem em que o povo enfardou nos jovens manifestantes pró-causas climáticas, sentir num deles um momento de comunhão literária. Naquele momento sobrepôs-se à minha censura prévia daquele comportamento político-juvenil a semente de uma possível solidariedade filosófica. Afinal, desprezo mesmo multidões e as suas causas mas aquele jovem, lendo Han encostado à parede, podia ser eu.

Como lidar com o momento em que as pessoas que instintivamente desejamos ver sofrer as consequências dos seus actos nos mostram, contra todas as expectativas, um reflexo de nós mesmos? Como fico eu quando o castigo merecido do outro serve de espelho para mim, que me tenho como inocente? Será que qualquer erro alheio pode converter-se, afinal, num dedo apontado para mim? Qual a minha responsabilidade diante de pecados que não foram da minha responsabilidade? Provavelmente todas estas perguntas denunciam um espírito oprimido por demasiada religião e punk rock mas como não acredito em espíritos livres, insisto: escolho enfatizar a justa retribuição ou a graça injustificada? Passadas décadas de púlpito, ainda não sei equilibrar isto como deve ser. Sinto que uma stickada no traseiro do empenhado jovem burguês mexe comigo, mas sinto que lermos os mesmos livros deve mexer ainda mais.

Não acredito num mundo sem porrada. Desde o Génesis 3 que ela ficou profetizada até ao regresso de Cristo. Vamos todos levar porrada à custa do nosso pecado. A porrada não é para mim uma causa mas uma triste consequência. Mas também sei que lá, nesse Génesis 3 em que estragámos tudo, uma promessa de solução foi feita. A solução não foi a porrada. A porrada foi uma consequência e nunca uma causa. A solução foi a palavra, a garantia de que tudo ficaria resolvido quando a origem do mundo se fizesse pessoa. A palavra feita pessoa em Cristo foi a solução. É verdade que para a palavra ser a solução, porrada teve que apanhar. A palavra feita pessoa apanhou porrada para que um dia mais ninguém tivesse que apanhar. Cristo levou o que nenhum alguma vez terá de levar para que a porrada deixasse de ser a condição mais fundamental da vida. Entre a porrada e a palavra, escolho a segunda, claro.

Talvez isso signifique que não deva preferir o momento burlesco em que a manifestação se frustrou à custa da ira legítima do povo na via rápida. Devo preferir, na tragicómica reportagem dos eventos, o momento em que um dos manifestantes, esperando pelos supostamente mais heróicos dos seus pares, se dedica às palavras do filósofo. Com ou sem consciência, o jovem interrompe o calor das emoções revolucionárias para procurar no texto algum sentido. Nesse momento, sou eu que sou apanhado também. A palavra apanha-nos mais do que nos apanha a porrada. Por cada motim frustrado, há uma verdadeira restauração do mundo em forma escrita.

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