A tendência é achar que no Verão os assuntos perdem importância. A lógica aplicada é, ao estarmos na época do descanso, não valer a pena fazer muito caso do que se diz ou do que acontece. E então, com o mesmo nível de preguiça que temos no corpo, dizemos com a cabeça: “é a silly season, é a silly season”.

Não podíamos estar mais enganados. É quando tudo pára que vemos a qualidade de alguma coisa. É preciso as obras chegarem ao fim para testarmos a qualidade delas. Sem interrupção do trabalho, qualquer trabalho parece óptimo. É quando o trabalho pára que dá para ver se ele deve continuar.

Logo, a qualidade do que Portugal faz só dá para ver quando ele pára. Só sabemos quem Portugal é quando ele relaxa ao ponto de poder ser silly. Enquanto Portugal se acha serious vive numa presunção que só enganará os desatentos. Aliás, o excesso da suposta seriedade que nós portugueses usamos com tanta solenidade nunca foi uma qualidade mas uma auto-denúncia. Na maior parte das vezes que os portugueses se armam em sérios disfarçam de um modo saloio o facto de andarem a brincar.

A Bíblia ensina isto logo nas linhas do seu primeiro capítulo no Génesis. Depois de criar o Universo em seis dias, Deus descansa ao sétimo. E Deus descansa não porque precisa de descansar mas porque quer usufruir do que trabalhou. O descanso não é uma interrupção do trabalho para cortar com ele, mas para se ligar ainda mais ao trabalho extraindo dele prazer. Descansar é sagrado porque sem descansar não entendemos nada da qualidade que o trabalho tem. Quem só sabe trabalhar não percebe nada de trabalho. E quem só sabe descansar também não percebe nada de descanso.

A qualidade de trabalho de um povo está no valor atribuído ao descanso. Enquanto os portugueses sentirem culpa por descansar serão péssimos trabalhadores. E esta dificuldade faz mais parte da nossa história do que geralmente admitimos. Podemos apontar o dedo ao que nos parece esquisito no exagero ritual que os judeus dão ao Sábado ou podemos zurzir na suposta frieza da ética de trabalho protestante. Mas talvez um espelho nos faça falta.

A silly season não é o intervalo do tempo importante. Talvez seja o tempo mais importante de todos. O que falamos quando descansamos mostra o que é mais sagrado para nós. Se o que falarmos for parvo, parvos sem dúvida poderemos ser. Mas há esperança para gente parva que, descansando, aprende que trabalhar não é um castigo. Eu, que sou tentado pelo pecado da preguiça desde pequenino, tento levar muito a sério a silly season.