Daqui a uns anos, quando se escreverem artigos de jornal, livros ou séries de televisão sobre as eleições presidenciais de 2026, tenho a certeza de que a sondagem que a CNN apresenta diariamente figurará em lugar de destaque. A capacidade de um grupo de comunicação social impor uma narrativa diária – vencedores e derrotados, subidas e quedas – transformou a campanha num exercício permanente de reacção à última curva do gráfico.

Este fenómeno não é novo – nas eleições de 2022, a mesma sondagem dava António Costa e Rui Rio virtualmente empatados nos dias finais da campanha, culminando depois numa vitória retumbante de Costa. No entanto, em 2026, a importância da sondagem diária atingiu um paroxismo inédito. A sondagem deixou de ser um instrumento de leitura da campanha para passar a ser um dos seus principais motores, sugerindo um movimento constante com uma tendência clara e uma direcção inequívoca. Na prática, oferece ruído apresentado como sinal.  Os agentes políticos afinam as suas declarações, agendas, assim como os silêncios em função de variações estatisticamente marginais, muitas vezes dentro da própria margem de erro, o que significa que não podemos rejeitar que, na verdade, todos os candidatos estejam empatados. A centralidade do exercício que a CNN oferece diariamente tem duas lições possíveis para as campanhas eleitorais.

Em primeiro lugar, durante a maioria da campanha, ao contrário do que era habitual, os órgãos de comunicação social publicaram muito poucas sondagens. Como mostra o Radar das Sondagens, o agregador do Observador coordenado por Luís Aguiar-Conraria, entre a primeira quinzena de Dezembro e o dia em que escrevo, quando o CESOP divulgará a sondagem para a RTP, apenas o grupo CNN lançou sondagens, em colaboração com a Pitagórica. Todas as casas de sondagens têm enviesamentos, os chamados house effects, que resultam de opções metodológicas – modo de recolha, ponderações, formulação de perguntas, modelos de estimativa – que são absolutamente legítimas e até naturais.

Quando apenas uma casa de sondagens está presente no espaço público durante semanas, esses house effects deixam de se compensar mutuamente, como acontece quando existem várias sondagens concorrentes. O que o público passa a observar não é uma média imperfeita de diferentes medições, mas a variação interna de um único instrumento. Pequenas oscilações podem reflectir ajustes técnicos ou ruído amostral, mas são interpretadas como mudanças reais no eleitorado.

Em segundo lugar, a centralidade que os próprios candidatos atribuem à sondagem diária sugere que, ao contrário do que seria expectável, muitas estruturas de campanha não dispõem de sondagens internas regulares nem de focus groups, o que é, no mínimo, supreendente. Numa campanha profissionalizada, mensagens, cartazes e argumentários são testados de forma exaustiva junto de diferentes segmentos do eleitorado, precisamente para ajustar a estratégia. Se um candidato detecta perda de apoio entre eleitoras, por exemplo, a resposta passa por afinar discurso, prioridades e temas a abordar.

A reacção de Marques Mendes e da sua campanha à sondagem da CNN é, nesse sentido, reveladora. A surpresa pública, a atrapalhação e a estupefacção transmitidas sugerem que os resultados não estavam antecipados internamente. Quando isso não acontece, a tracking poll deixa de ser apenas um termómetro e passa a funcionar como profecia auto-realizável. A leitura pública da sondagem influencia decisões estratégicas, essas decisões moldam a campanha, e a campanha acaba por confirmar, nos dias seguintes, a trajectória sugerida pelo gráfico.

Obviamente que, qualquer que seja o resultado final, Marques Mendes não o poderá imputar à dinâmica da sondagem da CNN. É claro que a sua campanha teve dois momentos de viragem. O primeiro foi o debate com Gouveia e Melo, no qual este conseguiu, de forma eficaz, lançar dúvidas éticas e políticas sobre a carreira privada de Marques Mendes. O segundo prende-se com a própria mensagem da campanha, que se revelou manifestamente insuficiente para cativar o eleitorado. A isto soma-se uma presença muito tímida nas redes sociais, que são hoje, goste-se ou não, um dos principais palcos da campanha eleitoral. Ignorá-las equivale a abdicar de contacto com segmentos relevantes do eleitorado, em particular os mais jovens.

Marques Mendes apresentou-se como um político dos anos 80, fez uma campanha dos anos 80 e comunicou com uma mensagem dos anos 80. Posso estar enganado — a política tem-me surpreendido repetidamente —, mas tudo indica que pagará um preço elevado pela incompetência e pelo desleixo estratégico da sua campanha. As ondas choques chegarão rapidamente a Montenegro que perceberá o quão curta é a sua maioria.