1 Thewinter is coming

Regressemos ao historiador Dominic Sandbrook e à sua entrevista a Francis Foster e Konstantin Kisin. A perspetiva de Sandbrook fundamenta-se no seu conhecimento da história: a violência, a guerra e o conflito estiveram sempre presentes na história da humanidade, apesar de aqueles que nasceram após a segunda guerra mundial e cresceram em tempos de afluência e conforto material terem a tendência para o esquecer.

É contra a ilusão da paz perpétua que Sandbrook se coloca e, por isso, quando Francis Foster o confronta com o atual clima de conflito e insegurança, marcado por diferenças económicas e insatisfação política, e lhe pergunta se o futuro o preocupa, Sandbrook responde de uma forma pouco convencional. O historiador reconhece que, com muita probabilidade, os próximos tempos serão piores e muito mais conflituosos do que as últimas décadas, mas isso não o preocupa: a vida é assim, é isto que sempre acontece – e, por isso, ensina ao filho a lição mais importante que retira da história: “é provável que os teus vizinhos te tentem matar, por isso tem a certeza de que os matas primeiro”.

A resposta é surpreendente, e até divertida, mas Sandbrook explica: não vale a pena preocuparmo-nos com o que sabemos que vai acontecer; sabemos que o verão vai acabar e o inverno vem aí – logo, é um desperdício de energia preocuparmo-nos com isso. E a razão reside no facto de a natureza humana não se alterar. Tivemos muita sorte em viver tempos tão pacíficos e afluentes como os nossos – mas eles são a exceção.

É provável que Maquiavel, entrevistado hoje para um podcast do género, expressasse uma ideia semelhante. Um aspeto central do seu pensamento – e que encontramos tanto n’O Príncipe como nos Discursos – é o de que o passado é uma fonte segura de conhecimento: para compreendermos a política, para sermos príncipes eficazes ou bons governantes, devemos aprender com as lições e os erros dos grandes homens do passado. Afinal, a natureza humana não muda e as ambições pessoais, as dinâmicas sociais e os conflitos políticos repetem-se, tornando a reflexão política, acima de tudo, numa reflexão sobre a natureza humana.

2 A tentação do passado

A ideia de que podemos aprender com a história e a natureza humana não se confunde, como se percebe, com o historicismo que Karl Popper critica em A sociedade aberta e os seus inimigos. Popper refere-se aí a um certo determinismo histórico que marca o pensamento de muitos autores, especialmente popularizado pelo pensamento marxista com as consequências catastróficas que conhecemos, e que circunscreve fortemente a liberdade individual e a possibilidade de agência. Os indivíduos poderiam ser parteiras da história, e acelerar as suas dinâmicas, mas estariam sujeitos a leis sociais irrefreáveis.

A meio caminho entre Maquiavel e Marx, encontramos Platão, um dos autores que Popper apresenta como inimigo da liberdade e que explica, n’A República, de que modo os regimes políticos se sucedem: a democracia formar-se-ia a partir da oligarquia da mesma forma que a tirania se formaria a partir da cidade democrática. E quando lemos a sua descrição do regime democrático sentimo-nos a um passo do abismo:

“o pai habitua-se a ser tanto como o filho e a temer os filhos, e o filho a ser tanto como o pai, e a não ter respeito nem receio dos pais, a fim de ser livre; o meteco equipara-se ao cidadão, e o cidadão ao meteco, e do mesmo modo o estrangeiro.”

E mais:

“num Estado assim, o professor teme e lisonjeia os discípulos, e estes têm os mestres em pouca conta; outro tanto se passa com os preceptores. No conjunto, os jovens imitam os mais velhos, e competem com eles em palavras e em ações; ao passo que os anciãos condescendem com os novos, enchem-se de vivacidade e espírito, a imitar os jovens, a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários.”

Perante uma condição de excesso de liberdade, o povo clama por um protetor e é esse protetor que acabará por se tornar um tirano. A democracia parece, assim, estar condenada ao caos social, o que nos impele ao messianismo político.

É contra este determinismo que Popper se coloca. O espírito liberal afirma-se contra a inevitabilidade: o futuro está em aberto e é resultado das ações individuais que tomamos, pelo que devemos criar e fortalecer as instituições e assumir responsabilidade pelas decisões tomadas. Apesar de a natureza humana ser o que é e de o mundo não ser perfeito, ainda assim podemos assumir a responsabilidade pelo nosso futuro.

3 A tentação do inevitável

No livro Entre o passado e o futuro, Hannah Arendt debruça-se sobre a crise que se instala com a modernidade quando o homem se abre ao futuro, e o passado e a tradição perdem importância. E em nenhuma outra dimensão isto se revela de forma tão premente como na escola, enquanto instituição que tradicionalmente tem como missão ligar os mais novos ao passado, integrá-los numa tradição que os prepara para o futuro.

A modernidade desafia a escola porque destrói o sentido de autoridade que fundava a sua existência. Como poderia o professor manter a autoridade se as sociedades se democratizavam e a lógica de igualdade se espalhava por todos os setores, pergunta Alain Renaut? Mas com a perda de autoridade vem a perda da responsabilização: é que a autoridade era a contrapartida para a responsabilidade, aquilo que os mais velhos ganhavam por se responsabilizarem. Mas se já não têm autoridade, para quê assumir a responsabilidade?

Em certo sentido, esta é uma parte essencial da crise social que vivemos hoje no Ocidente: não se sabe como, ou se se quer, recuperar a autoridade e, como tal, ninguém quer assumir a responsabilidade. Mas os desafios com que somos confrontados hoje – sobretudo os tecnológicos – devem fazer-nos largar este marasmo.

Abandonamos as crianças aos smartphones e redes sociais, que as sexualizam desde tenra idade, com as meninas estimuladas a comportamentos e vestuário que só deveriam caber (talvez) a mulheres já feitas e os rapazes atirados para jogos de computador, pornografia, violência e solidão. Prejudicamos os mais novos com uma educação “centrada na criança e no aluno” que os torna mais individualistas, mais autocentrados e com maiores dificuldades em lidar com as adversidades que necessariamente vão encontrar ao longo da vida. E habituamo-los a satisfazerem todos os desejos e vontades, em vez de ensinarmos o mais importante: que não é por desejarmos alguma coisa que a devemos ter, que não é por desejarmos alguma coisa que ela se torna correta e que há coisas erradas e prejudicais por muito que as desejemos.

E seria bom que este princípio fosse recordado, em particular, à ciência e às “grandes inovações tecnológicas”, com todo o fascínio que convocam: não é porque se consegue fazer algo que esse algo se torna correto – era o que devia ser dito aos investigadores da OHSU que anunciaram, no final de setembro, o desenvolvimento de óvulos funcionais a partir de células da pele humana. Que admirável mundo novo será este em que as mulheres são dispensáveis e a noção de família se torna obsoleta?

Tudo isto é errado, mas nada disto é inevitável.