Esta é a história da primeira volta das eleições presidenciais. Os três candidatos do espaço do centro-direita e da direita somaram cerca de 51% dos votos. Ou seja, a direita continua maioritária em Portugal. Mas foi António José Seguro que ficou em primeiro na primeira volta. Por uma razão muito simples: anulou as candidaturas do PCP, do Bloco e do Livre, e uniu o espaço da esquerda. Teve mérito porque fez uma campanha com esse objectivo. E merece as minhas felicitações. Ganhou e, em democracia, quem vence merece os parabéns.
A melhor notícia da primeira volta das eleições foi a redução das extremas esquerdas a menos de 5%. Mas não desapareceram. O PCP e o Bloco foram muito rápidos a apoiar Seguro na segunda volta. Há aqui uma questão fundamental. O PCP irá apresentar uma factura pelo apoio a Seguro. Irá Seguro ajudar o PCP pelo apoio que recebeu? Dou um exemplo. O governo faz reformas impopulares, mas necessárias para o país. O PCP coloca imediatamente os sindicatos nas ruas. Onde estará Seguro? A apoiar as reformas do governo ou os protestos das extremas esquerdas? Não sei, mas temo que Seguro esteja ao lado do impasse contra a mudança.
Ao contrário da esquerda, as direitas estiveram divididas com três candidatos. Ventura ganhou porque fez uma boa campanha e alcançou o seu objectivo: manter os eleitores do Chega, que, todos sabiam, seriam suficientes para ir à segunda volta. Cotrim, o segundo candidato da direita, também fez uma boa campanha. Vale muito mais do que a IL. Fica uma questão: o que fará Cotrim com 17% de votos? Limita-se a regressar a Bruxelas?
O terceiro candidato das direitas foi Marques Mendes, um desastre absoluto. Não me lembro de ver um candidato do PSD ou da AD com um resultado tão mau. A escolha do PSD foi inexplicável. Não se entende como escolheu Marques Mendes como candidato presidencial. O resultado da primeira volta é um pesadelo para o PM. E será Montenegro a lidar com as consequências da derrota de Marques Mendes, que hoje já faz parte do passado.
Bem sei que muitos dizem que a divisão entre direita e esquerda é secundária nas eleições presidenciais. E esse será o argumento de Seguro porque quer ir buscar votos ao centro-direita (e será o argumento daqueles das direitas que apoiam Seguro). Mas vamos ser sérios. De onde vem a maioria dos votos de Seguro? De onde vêm os votos de Cotrim e de Ventura? Nem sequer preciso de responder. Mais, o PCP, o Bloco e o Livre na noite das eleições apressaram-se a apoiar Seguro. Porquê? Porque a divisão entre a esquerda e a direita não interessa?
Isso leva a um segundo ponto. Os que rejeitam a divisão entre a direita e a esquerda dizem que a segunda volta será entre moderação e o radicalismo. Mais uma vez, não brinquem. O PCP, o Bloco e o Livre são partidos moderados? Seguro não tem radicais a apoiá-lo? Aliás, a candidatura de Seguro já parece uma geringonça 2.0