Confirma-se que o primeiro-ministro tinha razão quando no início da legislatura referiu a existência de uma vaca voadora. Os últimos dias provaram não só que ela existe, mas que o bovino alado é afinal a TAP. Só assim se explica que continue a haver tanta gente a mamar na teta da companhia aérea portuguesa, como ficou claro nos últimos dias com a distribuição de prémios por alguns dos seus gestores. Mas esta é uma vaca que arrelia mesmo as pessoas. Em vez de buscar alimento em campo aberto e pastos verdejantes, sem maçar ninguém, insiste em vir pastar aos bolsos já bem ressequidos dos contribuintes. E, finda a ruminação, ainda nos presenteia com a clássica brisa de metano que emana deste tipo de trapaça.

Mas pronto, o que interessa é que o Estado recomprou a TAP aos privados, garantindo a todo o custo que Portugal tem uma companhia de bandeira. E é obviamente irrelevante que a equipa de gestão da companhia de bandeira dê bandeira quando se trata de repartir estupendos bónus em ano de formidáveis prejuízos. Mas atenção, ainda assim também preconizo que a TAP continue a ser uma companhia de bandeira. Acho é que a bandeira devia ser aquela totalmente branca, sinal de que ao fim de tantos anos a arrastar a asa ao erário público a empresa nos daria uma merecida trégua.

Agora, esta situação do Governo ter na TAP, entre doze administradores, seis representantes que não mandam rigorosamente nada é má publicidade para o serviço da transportadora. Em que companhia aérea já se viu gente que ocupa lugares de classe executiva não ter direito a absolutamente nada? É que tenho a impressão que nem um copo de água dão a estes desgraçados. Ainda por cima aquilo são indivíduos cujas passagens pela TAP não nos saem propriamente baratas. Mais valia estarem todos em turística, lá para trás, no “piolho”.

Mas não, parece que é suposto ser mesmo assim. Pelo menos segundo o chairman da TAP, Miguel Frasquilho, que afirmou há tempos que “o Estado não se mete na gestão da TAP”. Claro que não. Então o Estado ia colocar gestores na TAP para participarem mesmo na gestão da empresa, ali a gerirem e tudo? Isso não faria qualquer sentido em termos de gestão. O Estado colocou estes gestores na TAP para que a TAP faça a gestão que bem entender borrifando-se para esse gestores que não gerem coisa nenhuma. Como é óbvio. Isto é a segunda lição de qualquer Manual de Gestão para Totós. Sendo que a primeira é “garantir que o maior número possível de contribuintes, durante o maior espaço de tempo possível, não percebe que está a ser tomado por totó”.

Felizmente, para desenjoar deste episódio de inoperância do Estado na gestão de empresas, tivemos nos últimos dias mais uma demonstração da inoperância do Estado na supervisão bancária. Desta vez foi o ex-líder do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, a garantir que não sabia nada acerca dos ruinosos empréstimos da CGD a Joe Berardo. Em sua defesa Constâncio lá conseguiu provar que não esteve presente na reunião em que estes créditos foram aprovados. A linha de defesa foi mais ou menos esta: “Eu baldei-me ao trabalho, sem qualquer justificação, no exacto dia da reunião importantíssima para o futuro do sistema bancário português em que se decidiu não objetar à participação superior a 5% da Fundação Berardo no capital do Banco Comercial Português. Não tive portanto qualquer responsabilidade neste assunto, e considero por isso que o meu profissionalismo é absolutamente inatacável”. O que exaspera não é tanto desta vez termos ouvido desculpas esfarrapadas da parte de Vítor Constâncio, mas a constância com que ouvimos este tipo de desculpas esfarrapadas em Portugal.