“Acudam ao fogo!” foi o grito que ouvi numa bela manhã de verão da minha infância. À tarde a aldeia estava rodeada de chamas. E foi uma infância feliz mesmo com incêndios, sem água canalizada e com a eletricidade a faltar frequentemente. Os famosos meios aéreos eram escassos e não havia bombeiros profissionais. Havia era mais gente a roçar mato. Sem saber estava a assistir ao fim de um período de milhares de anos em que, depois da Revolução Agrícola de há 12.000 anos atrás, a vida da maior parte das pessoas no Mundo era ocupada em trabalhos agrícolas complementados por recursos florestais. Vivemos nestas últimas décadas uma aceleração extraordinária do êxodo rural que se iniciou com a Revolução Industrial. Hoje a aldeia da minha infância está cheia de casas confortáveis e vazia de pessoas que saíram para procurar uma vida melhor. Entretanto o minifúndio que mal permitia uma agricultura de subsistência transformou-se no minimatagal em mãos de múltiplos proprietários ausentes. Os que conhecem os “seus” terrenos não os conseguem gerir de forma economicamente viável. Os que assumem a responsabilidade de os limpar perdem dinheiro e têm dificuldade em encontrar quem o faça. É impossível encontrar compradores para pequenos terrenos dispersos em encostas perdidas. Não devemos ter ilusões.

Também não devemos desistir. Quem ainda vive no campo tem mostrado iniciativa investindo em culturas de elevado valor como o vinho, azeite, fruta. E também no turismo, mesmo que isso implique, por vezes, alimentar irritantes ilusões rústicas de citadinos que nunca souberam como é dura a vida no campo. Devemos deixá-los trabalhar e ajudar dentro do razoável. Mas mesmo que haja espaço para se expandirem alguns desses investimentos, não são viáveis em muitas zonas. No Ribatejo o setor taurino é importante, mas aparentemente é para acabar em nome do progresso. Em vez de toiros teremos provavelmente eucaliptos nas lezírias, onde pelo menos há água para depois apagar o fogo.

Os meios de combate ao fogo são insuficientes? É provável. O país tem recursos limitados e a ameaça tem crescido. Mas os meios de combate têm-se revelado insuficientes face aos mega-incêndios desta era de êxodo rural massivo e aquecimento global, mesmo em países tão ricos como os EUA, Canadá ou Austrália. O planeamento, a prevenção e a coordenação são deficientes? É possível, estamos em Portugal. Dito isto não é verdade que nada se tenha feito. O problema é que precisamos de uma mudança radical de paradigma, de políticas muito mais difíceis e ambiciosas. Sem isso a situação vai continuar a piorar. Sem isso o populismo incendiário vai crescer e não é exclusivo de nenhum partido. (Admito que André Ventura seja tão urbano que acredite que naquele vídeo pateta estava mesmo a combater um incêndio, a fazer um rescaldozinho).

Deixo três sugestões concretas.

Primeiro precisamos de lidar com o problema do minimatagal disperso por privados. Isto não se resolve com cadastro, por útil que ele seja para deixar claro que há cada vez mais terrenos sem verdadeiro dono. O Estado tem de assumir um papel maior. Tem de ter a coragem de tomar posse de terrenos efetivamente sem dono. Talvez com um sistema de manifestação de interesse e posse, com prazos generosos, mas em que, entretanto, o Estado vai gerindo.

Também se devia ponderar uma rede nacional de empresas municipais ou inter-municipais de gestão florestal, com capitais mistos, articulada com uma eficaz agência de gestão florestal. Seria melhor serem os privados? Por mim sim, ou cooperativas de proprietários, mas não se vê jeito sem um forte impulso do Estado. E em nenhum país europeu temos tanta floresta em tantas mãos privadas. Estas empresas poderiam também oferecer a alternativa para terrenos que ficassem em mãos privadas, por exemplo, de em troca da limpeza fazer a gestão do corte e plantio de árvores, partilhando eventuais lucros. Não vejo outra forma de criar escala para os investimentos necessários.

Em segundo lugar, precisamos de mais deteção avançada de incêndios usando novas tecnologias combinando drones, sensores de calor e outros sistemas de vigilância. O combate precoce é crucial. O almirante Silva Ribeiro detalha bem essa questão numa coluna recente, sublinhando que isso só será útil se estiver integrado num sistema nacional de vigilância e comando da resposta.

O que nos leva ao terceiro ponto. Defendo há anos que precisamos de um Conselho de Segurança Nacional. Este tipo de organismo generalizou-se em países tão diferentes como a Espanha ou a China nas últimas décadas. Portugal era, com a Alemanha, dos últimos países europeus a resistir, agora até Berlim se adaptou. Este tipo de estrutura é crucial para lidar com um Mundo em mudança acelerada, em que as ameaças e riscos se multiplicam e são cada vez mais transversais a divisões estanques entre ministérios. Este tipo de organismo tem três funções cruciais que poderiam reduzir deficiências crónicas na nossa cultura organizacional: previsão e planeamento, coordenação e acompanhamento de prioridades estratégias, gestão de crises incorporando sistematicamente lições aprendidas.

Em Portugal não faltam documentos estratégicos para os próximos 50 anos. Também não faltam organismos de coordenação. O problema é que ninguém liga aos papéis e depois é preciso coordenar todos os organismos de coordenação. Surge uma crise, cria-se mais um, como na Covid-19, e depois ficam a hibernar. Ora, este tipo de organização, que assentaria sobretudo em peritos que o Estado já paga, só funciona efetivamente se for permanente e estiver bem junto do chefe do governo, porque só ele tem a autoridade para a fazer funcionar.

A prevenção e combate aos incêndios deve ser uma prioridade estratégica permanente. No papel há muito que o é. Na prática deixa de o ser passado o aperto. Os principais obstáculos virão de ministérios com medo de perder poder, mas essas lógicas corporativas não devem prevalecer, e mesmo quando têm poderes de coordenação no papel não os conseguem exercer na prática sobre outros ministérios. Imagino que também haja táticos da politiquice que desaconselhem o chefe do governo de concentrar em si poder, mas também responsabilidade política. No modelo que sugiro até haveria um Conselheiro de Segurança que poderia servir de para-raios. Duvido que se avance, mas é pena. A inércia nacional é grande mesmo com o fogo à porta.