As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, responsáveis por um elevado número de hospitalizações, incapacidade e anos de vida perdidos. O que é paradoxal é que grande parte destas doenças poderia ser evitada ou atenuada com uma estratégia preventiva mais precoce e integrada. A hipertensão, a diabetes, o colesterol elevado, o tabagismo, o excesso de peso, o sedentarismo, que se combinam com fatores sociais e psicológicos de forma, muitas vezes, silenciosa, são fatores de risco conhecidos e modificáveis, frequentemente tratados de forma fragmentada e tardia, quando já ocorreram enfartes, AVC ou insuficiência cardíaca.
O sistema de saúde tem funcionado, em geral, de forma reativa: tratar as complicações quando a doença já se instalou. Este modelo, embora necessário, é, certamente, incompleto. O futuro passa por inverter esta lógica – agir antes da catástrofe clínica. Um modelo proativo exige identificar precocemente quem está em risco, intervir de forma coordenada nos fatores modificáveis e acompanhar de perto os doentes, numa visão que integre diferentes especialidades e promova a adesão a estilos de vida saudáveis e terapêuticas protetoras.
É neste contexto que surgem iniciativas inovadoras, como a Consulta de Prevenção e Risco Vascular do Hospital de Sintra. Inserida num percurso assistencial integrado reúne medicina interna, cardiologia, unidade de AVC, nutrição, medicina desportiva, enfermagem e cuidados de saúde primários [centros de saúde], oferecendo um acompanhamento multidisciplinar [que integra profissionais de várias especialidades] e centrado no doente. O foco da consulta é duplo: atuar na prevenção primária, identificando precocemente fatores de risco em pessoas sem doença vascular conhecida, e apoiar a prevenção secundária, reduzindo recorrências e complicações em doentes com doença já estabelecida. Esta abordagem procura capacitar os doentes, promovendo escolhas conscientes e hábitos de vida saudáveis. Os seus objetivos são claros: reduzir a mortalidade e morbilidade cardiovascular, melhorar o controlo dos fatores de risco e promover uma maior adesão à terapêutica.
Este exemplo simboliza uma mudança maior: a transição de uma medicina centrada na doença para uma medicina centrada na prevenção. Porque prevenir continua a ser a forma mais eficaz, humana e sustentável de cuidar da saúde vascular dos portugueses.
Teresa Branco é internista na Unidade Local de Saúde Amadora Sintra, na consulta de prevenção e risco vascular. Assistente graduada sénior de medicina interna, foi diretora do Serviço de Medicina 3 do Hospital Amadora Sintra, de 2022 a 2025 e diretora do Serviço de Urgência, entre 2014 e 2015. É uma das cronistas convidadas do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.
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Arterial é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com doenças cérebro-cardiovasculares. Resulta de uma parceria com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. É um conteúdo editorial completamente independente.
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