A ministra da Saúde, Marta Temido, referiu que “a maior parte das agressões são verbais, e a enfermeiros”. Estamos totalmente de acordo com esta questão, os números é que são certamente um pouco diferentes.

A ministra da Saúde utilizou a plataforma disponível pela DGS – Notific@ para realizar esta afirmação. Esta mesma plataforma colhe dados e apresenta-os de forma estatística, sendo que a última apresentação dos dados referidos nesta plataforma foi realizada em Outubro de 2019 (sendo os registos presentes no relatório do último trimestre de 2019 referentes até 30/09/2019). Esta informação é a mais recente e pode ser consultada aqui.

Assim, de acordo com este último relatório, constata-se que na secção dos “Incidentes de violência contra profissionais de saúde no local de trabalho” que foram registadas 5251 notificações desde o início do sistema (2013) até ao final do 3º trimestre de 2019, uma amostra bastante pequena, a meu ver, para tantas classes profissionais que têm acesso a este sistema.

Além disso, sabemos posteriormente valores percentuais, não sabendo objetivamente e numericamente o número de denúncias realizadas por cada classe profissional. De qualquer forma, o que se apresenta neste relatório é efetivamente que o grupo profissional dos enfermeiros é o mais agredido de todas as classes profissionais (50%), sendo que fica identificado o agressor mais comum como o utente / doente / cliente com um valor total de 56%.

A ministra da Saúde afirma que a maior parte das agressões são verbais, mas não é isso que fica demonstrado neste relatório. Este relatório apresenta as agressões por Assédio Moral/Mobbing (Assédio moral: exposição de alguém as situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções. São mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e antiéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima, em grande parte mulheres, com o ambiente de trabalho e a organização) como a maior agressão realizada a Profissionais de Saúde, com um valor de 55%. As agressões verbais apresentam-se de forma genérica, para todas as classes, com um valor de 22% sem estar especificada nos enfermeiros.

Assim, e tendo por base a premissa de tentar especificar ao máximo como estava a violência na nossa classe profissional, optei por realizar um estudo que conseguisse confirmar ou contrariar estes dados. Desenvolvi desta forma o estudo “Agressões no Local de Trabalho: Uma realidade no Mundo dos Enfermeiros – 2019” de forma a aprofundar estas mesmas questões algo genéricas e abstratas existentes na Plataforma Notific@.

Concluí que 60,2% dos enfermeiros já foram agredidos fisicamente no seu local de trabalho, um valor bastante contraditório em comparação com os 13% relatados na plataforma da DGS para todos os Profissionais de Saúde.

Compreendi que de facto quase a totalidade dos enfermeiros já foram agredidos verbalmente no seu local de trabalho – 95,6% – em comparação com os 22% descritos no ralatório da DGS.

Percebi ainda que o valor de 56% apresentado para o agressor mais comum (Utente/doente/Cliente), na nossa classe profissional era um pouco diferente. Senti necessidade de identificar mais concretamente o agressor. Assim, depressa se compreendeu que nos Enfermeiros, os agressores identificados são maioritariamente os seguintes:

  • Utente – 31,6%
  • Familiar do utente – 9,4%
  • Ambos 53,4%

Finalmente, e como estava a fazer este estudo no ano 2019, tive necessidade de compreender a evolução das agressões ao longo dos anos.

Assim, depressa pude concluir que nos últimos cinco anos as agressões têm vindo a aumentar na nossa classe profissional.

Finalmente, e como é algo que sempre questionei na plataforma Notific@ – Se as pessoas não notificarem quando são agredidas, estatisticamente a amostra é insuficiente – tentei compreender de entre os Enfermeiros que relataram estas agressões neste estudo, quantos tinham notificado as mesmas. Depressa compreendi que cerca de 60% dos enfermeiros que responderam afirmativamente sobre as agressões a que tinham sido sujeitos não notificaram a situação.

Assim, pode-se compreender com facilidade que ainda há muito para fazer na questão da notificação das agressões. A ministra da Saúde Marta Temido pode afirmar valores estatísticos, mas há muito trabalho a fazer para que esses valores sejam registados e os casos devidamente identificados. Não adianta de nada sermos agredidos se não damos conhecimento sobre essas agressões à entidade patronal e ao Estado. Não adianta de nada dizermos que somos uma classe profissional sujeita a riscos diariamente (sendo a violência um deles), se depois não notificamos as situações.

Além disso, esta plataforma Notific@ é a única transversal a todo o país no SNS, que permite identificar dados nacionais. Esta plataforma é útil e tem muito potencial… tem é que ser utilizada. Existem atualmente alguns Hospitais (e o Hospital Garcia de Orta, onde desempenho funções, é um deles) que têm o seu próprio sistema de notificação de incidentes, intimamente associada a uma comissão de gestão de risco, interligada com as chefias e direções de enfermagem, de forma a todos terem conhecimento da situação e poderem agir no futuro de modo a prevenir ou atuar, caso necessário. Talvez seja altura de promover uma cultura definitiva de notificação destes incidentes. É estranho não se ouvir falar sobre este sistema da DGS que já tem alguns anos. Trabalho desde 2006 e descobri essa plataforma Notific@ por pesquisas na internet… nunca nos locais de trabalho por onde passei me foi informada a possibilidade de o fazer. É tempo de fazer mais do que afirmar que a maior parte das agressões são verbais – e a enfermeiros! – antes que possa ser tarde demais.

As evidências estão construídas. É tempo de agir e prevenir.