A saída de Catarina Martins da liderança do Bloco de Esquerda é um desenlace lógico depois da maioria absoluta e da forte penalização eleitoral sofrida pelos bloquistas nas últimas legislativas. Depois de anos sucessivos a suportar parlamentarmente em momentos decisivos o mesmo governo PS cujas políticas depois criticava, a imagem de Catarina Martins estava naturalmente muito desgastada. É certo que a decisão de ser muleta parlamentar do PS não foi unipessoal mas Catarina Martins foi o seu principal rosto pelo que o seu défice de credibilidade era claro e manifesto. É aliás significativo que nem Jerónimo de Sousa nem Catarina Martins tenham resistido à geringonça.

Já se percebeu pela formatação do discurso dos dirigentes bloquistas que tudo está encaminhado para uma sucessão sem discussão nem contraditório públicos. Ao contrário do que salutarmente ocorreu na IL, e mesmo num momento de crise que deveria suscitar uma discussão franca e aberta sobre os caminhos do BE, não deverá haver nem discussão interna substantiva nem concorrência entre propostas alternativas relevantes. Tal como aconteceu no PCP com Paulo Raimundo, a entronização de Mariana Mortágua será mais um exemplo ilustrativo de como a esquerda radical e a extrema-esquerda habitualmente concebem a democracia interna e o pluralismo.

Mas mais relevante do que o processo interno de substituição da líder é reflectir sobre as cinco frentes partidárias nas quais o BE actualmente luta. A primeira – e porventura mais óbvia – é a de contrariar a tendência para o voto útil à esquerda no PS, num contexto pós-geringonça. Para que serve votar num partido de protesto que se presta a ser muleta do PS é uma das questões para as quais Mariana Mortágua precisará de encontrar uma resposta mais convincente do que as tentadas por Catarina Martins.

A segunda frente é a concorrência do Livre. Além de ter excelente imprensa e ser um bom comunicador, Rui Tavares apela particularmente à ala mais civilizada e democrática do fenómeno bloquista, que se revê em algumas ideias de esquerda radical mas não se sente confortável com o bafio anti-UE e proto totalitário que caracteriza vários dos movimentos fundadores do BE. Acresce que Rui Tavares conta também com o empenhado apoio do PS, que vê no Livre um aliado preferível ao BE e que por isso puxa, sempre que pode, por ele (o único partido que conta para já com mais empenhado estímulo ao seu crescimento por parte dos socialistas é o Chega, ainda que por razões bem distintas).

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Uma terceira ameaça ao espaço bloquista vem do PAN. Uma parte não residual do capital político do BE foi acumulado graças à sua colagem a causas ambientalistas e, ocasionalmente, animalistas. Essa foi sempre no entanto uma colagem oportunista e, por isso, um partido genuinamente motivado por esses temas constitui também ele uma ameaça ao BE.

A quarta frente do BE é menos óbvia mas cada vez mais importante: a concorrência directa dos bloquistas com a IL pelo voto jovem e urbano, em especial nos segmentos de maior escolarização. Com a sua mistura de liberalismo económico com progressismo social, a IL concorre directamente com o BE em alguns segmentos e a colagem do BE ao PS por via da geringonça só veio reforçar essa concorrência.

Por último, mas não necessariamente com menos importância, a frente menos óbvia: a concorrência do Chega. Ao contrário do que acontece com a IL, não haverá provavelmente muita concorrência directa entre CH e BE mas a aposta de André Ventura na luta nas ruas e em vários movimentos sindicais gera concorrência para o BE (e para o PCP) em domínios nos quais a direita portuguesa tradicionalmente estava ausente. Acresce que, pelo menos enquanto não tiver de se co-responsabilizar por soluções governativas, o radicalismo anti-sistema do CH terá mais credibilidade para muitos insatisfeitos e descontentes do que o bloquismo pós-geringonça.

A sobrevivência do BE e a expressão e peso futuros do partido dependerão da capacidade da sua nova liderança para combater com sucesso nestas cinco frentes.