No próximo dia 8 celebra-se, segundo o calendário litúrgico, a festa da natividade de Maria, ou seja, o aniversário de Nossa Senhora.
Dada a especialíssima relação de Maria com Cristo, que nela foi gerado por obra e graça do Espírito Santo, seria de esperar de Jesus uma especial delicadeza filial, mas foram inúmeras as desfeitas do filho de Deus para com a sua santíssima Mãe.
A primeira inconveniência filial ocorreu quando Jesus, já com doze anos de idade, acompanhou Maria e José na sua peregrinação anual a Jerusalém. Os habitantes da mesma povoação peregrinavam conjuntamente para a cidade santa e, por isso, Maria e José só deram pelo desaparecimento de Jesus ao fim do primeiro dia da viagem de regresso a Nazaré, tendo então voltado a Jerusalém, à sua procura.
O reencontro aconteceu ao terceiro dia: Jesus estava no templo, conversando despreocupadamente com os doutores da Lei! Qualquer mãe, naquelas circunstâncias, teria ficado simultaneamente alegre e furiosa: a satisfação por encontrá-lo bem de saúde não anularia a irritação por ele ter agido de forma tão irresponsável, causando um enorme sofrimento a seus pais. Contudo, Maria não só não se zangou, como delicadamente lhe perguntou porque tinha procedido daquele modo. A desagradável resposta de Jesus – “Para que me buscáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me nas coisas de meu Pai” (Lc 2, 49) – foi, de facto, muito inconveniente, porque, afirmando-se apenas e só filho de Deus, desconsiderou por completo São José, que Maria tinha referido como sendo seu pai.
A segunda ocasião em que Jesus desconsidera publicamente a sua Mãe aconteceu quando ambos foram convidados para um casamento em Caná da Galileia. Maria apercebeu-se da falta de vinho e disse-o discretamente a Jesus, que lhe respondeu indelicadamente: “Mulher, que nos importa a mim e a ti isso? Ainda não chegou a minha hora!” (Jo 2, 4). A ocasião, muito mundana, podia não ser a mais oportuna para Jesus fazer o seu primeiro milagre, mas uma tal razão não justificava uma reacção que era, pelo menos, indelicada, até porque proferida em público.
Também não foi simpática a forma como Jesus reagiu aos que lhe foram dizer que sua Mãe tinha chegado e o queria ver: “Minha Mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam” (Lc 8, 19-21).
No entanto, o pior percalço estava ainda por acontecer. É João quem menciona a presença de Nossa Senhora no Calvário: “Estavam de pé, junto à cruz de Jesus, sua Mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena” (Jo 19, 25).
É chamativa a ausência dos apóstolos, que eram doze, bem como dos discípulos, que eram muitos mais, pois numa ocasião Jesus enviou setenta e dois deles em missão (Lc 10, 1). Também surpreende a ausência daqueles milhares de homens e mulheres que tinham sido beneficiários dos milagres de Cristo: os paralíticos, cegos, coxos, surdos e mudos que curara, os endemoninhados que exorcizara, para não falar também dos milhares que alimentara com os pães e peixes multiplicados milagrosamente!
A presença de Maria de pé, “junto à cruz de Jesus” (Jo 19, 25), unindo-se ao seu sacrifício pela salvação do mundo, foi particularmente dolorosa, não só porque era terrível assistir à paixão e morte do seu filho, mas também porque os que o insultavam (Mt 27, 39-44) não terão poupado a sua santíssima Mãe.
Que seria de esperar de Jesus naquele momento? Pelo menos, uma palavra de agradecimento a Maria, um gesto de carinho filial, um gesto que fosse de gratidão. Mas não, Jesus, o mesmo que ao bom ladrão prometeu, naquele momento, a glória do Céu, não só não agradeceu a inquebrantável fidelidade da sua Mãe, como até, de certo modo, a humilhou. Com efeito, foi então que “disse a sua Mãe: ‘Mulher, eis o teu filho.’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’.” (Jo 19, 26-27).
Para quem já era Mãe de Deus, ser mãe dos seus discípulos não era nenhuma honra, mas uma desconsideração, senão mesmo uma terrível humilhação, a que Maria se poderia ter escusado. Não só foi ofensivo para a santíssima e imaculada Mãe de Deus essa desonrosa maternidade, como foi particularmente injusta por ter sido imposta no momento em que Jesus prometeu ao bom ladrão a glória do Céu: “Hoje estarás comigo no paraíso!” (Lc 23, 43)!
Era a Nossa Senhora, e nunca ao ladrão, que reconheceu merecer aquele castigo (Lc 23, 41), que devia ter sido prometido, naquele momento, o Céu, até porque já lá se encontravam o seu marido, São José; os seus pais, São Joaquim e Santa Ana; a sua prima, Santa Isabel, e o seu cônjuge, Zacarias, e o filho de ambos, São João Baptista; etc. Sobretudo, era também para lá que estava prestes a partir o seu queridíssimo filho, Jesus Cristo! Já nada, portanto, retinha Nossa Senhora neste mundo e, se alguém merecia a bem-aventurança celestial, era, sem dúvida, ela, a mais fiel seguidora de Jesus, também na amarga hora da sua paixão e morte! Até porque, depois das gloriosas ressurreição e ascensão do Senhor ao Céu, aos primeiros cristãos aguardavam trezentos anos de impiedosas perseguições, a que Constantino poria termo com o édito de Milão, em 313! Porque não lhe foi concedido logo o prémio da bem-aventurança celestial que, mais do que ninguém, merecia?! Porque não foi poupada aos tempos de martírio e cruel perseguição a que forma submetidos os primeiros cristãos?!
Estes sucessivos incidentes não são expressão de uma menor delicadeza de Jesus para com a sua Mãe, como são revelação da heróica humildade de Maria, que o seu filho quis pôr em evidência, através destes seus comportamentos aparentemente rudes. As respostas de Maria, na humilde aceitação de tantas humilhações, expressa a sublimidade da sua maternidade, pois não foi por acaso que Nossa Senhora não esteve presente nos grandes milagres de Jesus, mas permaneceu a seu lado na sua paixão e morte na cruz.
Por graça de Deus que muito prezo, no mesmo dia em que faz anos a minha Mãe do Céu, também os festeja, aqui na Terra, a minha outra Mãe, que é muito mais nova, pois só cumpre 94! Embora tenha sido o primeiro de três gémeos prematuros, não precisei, ao contrário das minhas gémeas, de ir para a incubadora, mas fui o último a deixar o hospital onde os três nascemos, em Haia, nos Países Baixos. Apesar de o meu estado não ser preocupante, e a minha Mãe ter em casa, para além das duas recém-nascidas, os meus irmãos mais velhos, então com 4, 3 e 2 anos, ia todos os dias à maternidade para me ver, o que – desculpem-me a sinceridade! – sempre me pareceu muito pouco lógico, senão mesmo irracional.
O amor das mães dignas deste nome é como o amor de Deus: não é lógico, nem compreensível, também não se explica, porque apenas se reconhece e agradece! Por isso, a todas as mães do mundo, neste aniversário das minhas Mães do Céu e da Terra, só lhes posso dizer, do fundo do coração: Obrigado!