Esta semana assisti a dois debates, um do João Ferreira com um deputado do Chega, e o outro da Joana Mortágua com um deputado da IL. Foi impressionante ver a arrogância política com que falam depois dos seus partidos terem sofridos derrotas eleitorais humilhantes em Maio (há dois meses). João Ferreira e Joana Mortágua falam como se estivessem absolutamente certos e representassem a maioria dos portugueses. Falam ainda como se a “direita” tivesse ocupado o poder ilegalmente. Não entendo por que razão os seus interlocutores não lhes disseram simplesmente o seguinte: “Se acham que estão certos, por que razão a maioria dos eleitores portugueses nunca confia em vocês, e por que razão sofreram as piores derrotas eleitorais há dois meses? Será que a maioria dos portugueses está errada e vocês é que estão certos?”
Mas não foi necessário colocar essas questões para perceber o profundo autismo político em que vivem o PCP e o Bloco. João Ferreira e Joana Mortágua não mostraram o mínimo de humildade democrática. É o que se espera quando se sofre uma enorme derrota eleitoral. Mas não, o PCP e o Bloco é que sabem o que é melhor para os portugueses nas políticas de imigração, de habitação e de saúde. Eles sabem tudo, os portugueses é que não entendem nada do que eles dizem.
A ausência de humildade democrática, e uma manifesta incapacidade para aprender com as derrotas, são acompanhadas por um desconhecimento absoluto da realidade. O PCP e o Bloco deixaram de falar para a maioria dos portugueses. Falam apenas para os seus camaradas e procuram “ganhar” o debate na televisão. Mas desistiram de tentar compreender os portugueses.
Como projecto político, o marxismo radical acabou. Transformou-se numa ideologia de lamentações de algumas universidades e das redações do Público e do Expresso. A sociedade mudou, e os marxistas ficaram perdidos algures no século XX. O estudo da Universidade Católica sobre as últimas eleições é impressionante e terrível para as esquerdas. Entre os 18 aos 65 anos, as direitas ganharam em todos os escalões etários. O PS só está à frente nos reformados (maiores de 65 anos), e mesmo aí apenas com mais 3% do que a AD. Mas a AD e o Chega tiveram mais votos nos mais de 65 anos do que o PS e o PCP (47% contra 45%).
O Bloco e o PCP não têm estratégias nem discursos políticos para voltar a crescer. Estão apenas a lutar para sobreviver, mas desconfio que nem isso conseguirão. Ao PCP, só resta uma estratégia de poder: os sindicatos dos transportes e dos professores. Se o governo fizesse concessões dos transportes a operadores privados e passasse a competência sobre a educação para as autarquias, o PCP acabava.
Quanto ao Bloco, a última estratégia de poder é aliar-se ao PS (como agora em Lisboa) e tentar influenciá-lo por dentro. Essa estratégia de poder do Bloco é o maior risco para o futuro do PS, como também se viu nas últimas eleições. Os bloquistas primeiro destruíram o Bloco e, se os deixarem, destroem o PS. E sempre convencidos que estão certos e os portugueses é que estão errados.