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Capitalismo

As grandes empresas estão a destruir o capitalismo /premium

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O tamanho das empresas tem de ser contido. Os reguladores reforçados e tornados mais eficientes (em Portugal são risíveis). As empresas pequenas e médias e recém-nascidas obrigatoriamente facilitadas.

As notícias são recorrentes. Aqui temos o Deutsche Bank subornando anos a fio – oficiais dos regimes russo e chinês – em forma de empregos com salários milionários aos seus imprestáveis familiares. Não foi o único banco multado por tal boa prática empresarial, e também não se tratou de primeira multa do DB por atos, digamos, desviantes.

Por cá, vários bancos acabam de ser multados pela Autoridade da Concorrência por cartelização e troca de informação sobre preços que iriam praticar para emprestarem dinheiro. Trocado por miúdos, concertaram o spread que cobraram aos clientes, incluindo no crédito à habitação, o que levou a um aumento sustentado desses spreads refletindo-se no aumento dos juros pagos pelas famílias aos bancos. Isso: em vez de concorrência entre si, os bancos acordaram elevarem as prestações dos empréstimos a famílias e empresas.

Até a CGD – o banco público alegadamente existente para permitir o acesso ao crédito e aos produtos bancários de candidatos mais problemáticos – entrou nestes esquemas de extorquir os clientes com juros artificialmente insuflados. Mas já sabíamos que a CGD é um bas fond moral do regime.

As seguradoras Zurich e Lusitânia, numa vez, e Fidelidade e Multicare, noutra, também já foram multadas pela AdC. Por segmentação de mercado combinada e fixação de preços entre os concorrentes (é como quem diz).

Grandes empresas com lucros brutais têm na base da pirâmide trabalhadores num nível de exploração atroz. Seja a Amazon nos seus centros de logística seja a Nutella usando refugiados sírios quase como trabalho escravo nas plantações de avelãs na Turquia.

Os gigantes tecnológicos, que nos revolucionaram as vidas, e até as relações pessoais, estão a apropriar-se das receitas publicitárias, desviando-as dos meios de comunicação social – com consequências para a qualidade do escrutínio do poder a cargo dos media – e usando informações que recolhem sobre nós, utilizadores, à solta para que abusem como lhes aprouver. Note-se que nada aqui é coercivo nem ilegal – é somente um mercado construído de forma a apenas recompensar determinados fornecedores de serviços excluindo outros. Evidentemente que terá de existir forma de recompensar os serviços (financeiramente) gratuitos de redes sociais, motores de busca e primos tecnológicos. Sucede que é excessiva a recompensa atual, lucrando com os dados individuais que acumulam (muitas vezes sem que os utilizadores deem por isso ou efetivamente consintam) e predando outros negócios que ficam privados de receitas.

E é certo que há casos de empresas que têm preocupações de sustentabilidade ambiental. Porém, numerosas grandes empresas cometem atrocidades ambientais – sobretudo em países mais pobres e sem instituições (e populações) capazes de lhes pedirem satisfações e reparações.

Os casos são intermináveis e qualquer pessoa que aprecia o capitalismo – os mercados livres, a livre iniciativa, a inovação, a concorrência – não pode deixar de ficar desconfortável por estes abusos. Atenção que não se trata de desconversa do jaez de ‘isto não é capitalismo, é crony capitalismo’. O capitalismo tem em si própria a perversão do suborno, do abuso de uma rede de conhecimentos que mantém todas as decisões no seu interior, o fácil acesso ao poder político e a grande capacidade de o influenciar (quando não de o comprar, de formas mais explícitas ou mais subtis).

Atualmente o nível de concentração das grandes empresas está a provocar distorções significativas nos mercados. Até instituições insuspeitas como a Goldman Sachs revelam desconforto. Além de um nível de desigualdade que começa a fazer lembrar tempos de Antigo Regime, as grandes empresas têm mantido os rendimentos do trabalho aos mesmo níveis, ou até mais baixos, enquanto explodiram os rendimentos do capital. Provocam atropelos à concorrência, dissuadindo novas empresas de nascerem. Os preços aos consumidores não ficaram mais apelativos, apesar das margens e dos lucros crescerem (lá está, falta de concorrência). Trabalhadores com menores rendimentos, ou estagnados, levam a decrescimento da procura o que cria engulhos ao crescimento económico. Em suma, há uma transferência significativa de recursos dos trabalhadores e consumidores para as grandes empresas (enquanto empresas mais pequenas de facto estão impedidas de concorrer ou entrar nos mercados).

Perante isto, as gerações mais novas escandalizam-se, compreensivelmente, com as hipocrisias dos mercados e com a flagrante injustiça do ‘winner takes it all’ instalado. Os partidos de esquerda aproveitam para diabolizar o capitalismo. O capitalismo, esse sistema que tendo, como qualquer construção humana, falibilidade e perversão, é, ainda assim, quando contido na sua face negra, a melhor forma de organização económica e a forma mais eficaz de tirar populações da pobreza.

Quando há crescente contestação ao capitalismo, muito por culpa da excessiva concentração, do poder exorbitante das grandes empresas e das distorções de rendimentos geradas, os lados políticos que costumam defendê-lo faziam bem em encarar os sobressaltos. Para os minorar, esboroar e, desta maneira, permitir que a livre concorrência e a iniciativa privada continuem virtuosos. O tamanho das empresas tem de ser contido. Os reguladores reforçados e tornados mais eficientes (em Portugal são risíveis). As empresas pequenas e médias e recém-nascidas obrigatoriamente facilitadas. Quando necessário, há que produzir legislação que garanta que umas empresas, maiores, não sejam predadoras de outras.

As soluções económicas adequadas nos anos 1970 para sair da crise do petróleo não são úteis em 2019. O mundo muda e as políticas económicas devem transformar-se igualmente. Se a direita continuar a preferir gritar que é socialismo qualquer crítica aos mercados e ao capitalismo protetor das grandes empresas, bom, não se queixem quando a esquerda desferir os golpes. Os eleitores costumam preferir quem, pelo menos, entenda que os problemas existem.

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