A sondagem do CESOP – Universidade Católica Portuguesa para a RTP, Antena 1 e Público divulgada esta segunda-feira reforça a ideia de que estamos efectivamente perante as eleições presidenciais mais abertas de sempre em Portugal. Este facto torna-se ainda mais evidente se observarmos os dados relativos à intenção directa de voto (ou seja, os resultados directos da sondagem, sem exercício de redistribuição de indecisos que permite chegar a uma estima do que seriam os resultados eleitorais correspondentes). Considerando a intenção directa de voto, André Ventura lidera com 16%, seguido por Luís Marques Mendes com 15%, Henrique Gouveia e Melo com 13%, António José Seguro com 12% e João Cotrim Figueiredo com 11%. Ou seja: apenas cinco pontos percentuais separam nesta sondagem o quinto classificado (Cotrim) do primeiro (Ventura). Mas talvez mais significativo ainda – e merecedor de reflexão – seja este dado: bastaria uma transferência de apoio de Marques Mendes para Cotrim de apenas dois pontos percentuais para que o ex-líder da IL igualasse o ex-líder do PSD.
Os dados da sondagem da Católica relativos à distribuição da intenção de voto nas eleições presidenciais em função do voto nas últimas eleições legislativas reforçam a incerteza. André Ventura recolhe, sem surpresa e provavelmente com possibilidade de ir ainda além desse valor – já cerca de dois terços do eleitorado que votou Chega nas últimas legislativas – mas tanto o eleitorado AD como o eleitorado PS se encontram profundamente divididos entre vários candidatos. Talvez o dado mais sintomático dessa divisão seja este: apenas uma em cada três votantes AD nas últimas legislativas declara intenção de votar em Marques Mendes. Seguro está ligeiramente melhor na capacidade de persuasão ao seu eleitorado partidário de base, mas não muito: 39% dos votantes PS nas últimas legislativas declara intenção de votar no candidato apoiado pelo partido nestas presidenciais. A sondagem mostra também que Cotrim recolhe o apoio de uns significativos 17% do eleitorado que votou AD nas legislativas, enquanto Gouveia de Melo capta a preferência de 20% do eleitorado que votou PS.
Os contrastes na intenção de voto entre diferentes segmentos etários são ainda mais impressionantes: João Cotrim Figueiredo lidera por larga margem entre os eleitores com menos de 35 anos, recolhendo 20% das preferências contra apenas 12% de Ventura, 10% de Seguro, 8% de Marques Mendes e 5% de Gouveia e Melo. Já entre os mais velhos, com mais de 65 anos, é Gouveia e Melo quem lidera, com 23%, seguido por Marques Mendes com 17%, Seguro com 16%, Ventura com 10% e Cotrim com apenas 3%.
Com Gouveia e Melo aparentemente a continuar em trajetória descendente, Seguro pode ter boas possibilidades de passar à segunda volta se conseguir apelar ao voto feminino, uma vez que há 23% de mulheres indecisas (contra apenas 11% de homens na mesma situação) e que esse voto tende a pender mais à esquerda. Adicionalmente, as diferenças são tão pequenas que o cenário de uma desistência do candidato do Livre a favor de Seguro poderia ser um contributo decisivo para colocar o candidato apoiado pelo PS na segunda volta. Já Cotrim precisa de apostar todas as fichas em ser o candidato do passismo, apelando em especial aos eleitores com mais idade e vincando diferenças com Marques Mendes.
Sem prejuízo destes cenários – todos plausíveis com os dados que temos neste momento – a verdade é que os favoritos para passar à segunda volta são para já Ventura e Marques Mendes. Para um candidato pouco estimulante como Marques Mendes esse será, compreensivelmente, um cenário apelativo. Uma segunda volta disputada contra Ventura praticamente garantirá a eleição do seu opositor dada a elevada taxa de rejeição que o líder do Chega continua a ter. Mas, caso aconteça, essa deverá ser a mais doce (e promissora) das derrotas para André Ventura. Primeiro, porque o líder do Chega terá todo o regime unido contra si, o que será o panorama ideal para afirmar que só o Chega constitui uma real alternativa ao actual estado de coisas. Segundo, porque a trajectória e o perfil de Marques Mendes o tornarão num alvo fácil para as acusações de André Ventura, potenciando ao máximo os temas fortes do Chega. Terceiro, porque mesmo perdendo, como será de esperar, a segunda volta, Ventura terá provavelmente a sua maior votação de sempre, alargando ainda mais a base eleitoral do partido que lidera. Quarto, porque nenhum outro dos principais candidatos fragilizará tanto o regime caso venha a ser eleito como Marques Mendes.
Como bem alertou Rodrigo Adão da Fonseca: “A verdade inconveniente e que Marques Mendes e os seus apoiantes não querem ouvir é que o Regime não aguentará os problemas e os conflitos de interesse decorrentes de tê-lo na Presidência da República.” Ainda que muitos dos seus apoiantes pensem – legitimamente e de boa fé – que Marques Mendes pode ser uma espécie de mal menor para tentar preservar um regime em notória degradação, a verdade pode vir a revelar-se bem distinta. Potenciado pelo resultado expressivo que certamente obterá na segunda volta mesmo perdendo e com Marques Mendes na Presidência, André Ventura ficará bem mais perto de se tornar Primeiro-Ministro.