Em cinco décadas de eleições presidenciais democráticas e livres em Portugal, curiosamente só por uma vez – em 1986 – foi necessário recorrer a uma segunda volta. E, mais curiosamente ainda, nessas eleições o candidato vencedor na segunda volta – Mário Soares – ficou em segundo lugar na primeira volta com pouco mais de 25% dos votos (face aos 46% de Freitas do Amaral). As razões para esta realidade são várias, mas na linha da frente estarão a regular reeleição dos incumbentes (também curiosamente, Mário Soares, o único que não foi eleito para o seu primeiro mandato na primeira volta, foi quem conseguiu uma reeleição para o segundo mandato por uma margem maior) assim como o facto de, mesmo quando o Presidente da República em funções não concorre, haver habitualmente um forte candidato à vitória logo à primeira volta.

Durante algum tempo, e sem candidatos fortes na área do PSD e do PS, pareceu que o Almirante Gouveia e Melo poderia ocupar essa posição neste ciclo eleitoral, mas o enorme potencial da sua candidatura (que à partida o poderia conduzir a uma vitória fácil logo na primeira volta) parece estar a sofrer alguma erosão. Seja por aparecer rodeado de algumas figuras pouco recomendáveis do regime (desbaratando pelo menos em parte o seu potencial de diferenciação face ao sistema), seja pela forma pouco hábil como foi gerida a relação com o Chega, o cenário de uma vitória esmagadora de Gouveia e Melo logo à primeira volta parece hoje francamente difícil de concretizar.

Perante um país que claramente virou à direita, essa mesma direita tem contra si nestas presidenciais a fragmentação entre quatro candidaturas com algum peso: desde logo, naturalmente, o recém anunciado André Ventura, Marques Mendes, João Cotrim Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo (cujo potencial vai além desse espaço mas que terá claramente no centro-.direita e direita uma área de maior acolhimento, pelo menos numa primeira volta). Um cenário de fragmentação à direita que abriria excelentes perspectivas para a esquerda voltar a ocupar o Palácio de Belém, caso fosse capaz de se unir. Paradoxalmente para um país que virou à direita, a fragmentação à direita do PS abriria excelentes perspectivas para que António José Seguro pudesse passar à segunda volta e – uma vez aí chegado – disputar a eleição (quem sabe se com André Ventura o que praticamente garantiria a eleição de Seguro como Presidente da República). Sucede no entanto que a prioridade política da extrema-esquerda e da esquerda radical (uma parte dentro do próprio PS) parece ser garantir a não eleição de Seguro – mesmo que isso signifique favorecer a direita e até facilitar a passagem de André Ventura à segunda volta.

Perante este cenário, a entrada de Ventura na corrida presidencial vem abrir ainda mais o campo e tornar mais incerto o resultado daquelas que poderão muito bem ser as presidenciais mais abertas de sempre em Portugal. A difícil decisão do líder do Chega – que reforça a marca de um partido centrado num homem só – terá sido motivada pela ausência de um candidato alternativo forte que o partido pudesse apoiar, assim como no distanciamento público de Gouveia e Melo – sem esquecer a candidatura de João Cotrim Figueiredo, que teria uma forte possibilidade de ficar à frente de qualquer outro candidato que o Chega apresentasse (a memória do quase empate entre IL e Chega nas eleições europeias estará certamente ainda bem presente…).

Com base nas candidaturas anunciadas até agora teremos umas presidenciais fragmentadas com cinco candidatos que podem (e devem) razoavelmente aspirar passar à segunda volta: Gouveia e Melo, Ventura, Seguro, Marques Mendes e Cotrim – sem esquecer um conjunto de outras candidaturas com menor expressão e menores possibilidades, mas que ainda assim certamente aumentarão ainda mais a fragmentação. Assim sendo, é perfeitamente concebível que um resultado em torno dos 20% – talvez até abaixo do conseguido por Soares em 1986 – seja suficiente para passar à segunda volta. Uma segunda volta na qual o grande bónus será passar conjuntamente com Ventura e dessa forma garantir (praticamente) a eleição (sendo que uma eventual passagem à segunda volta já será por si só uma importante vitória para o Chega).

Perante este elevado grau de fragmentação, muito vai depender de como correr a campanha – e importa recordar que tanto Ventura como Cotrim já deram no passado amplas provas de funcionarem muito bem nesse contexto. Estamos por isso perante as presidenciais mais abertas e de resultado mais incerto das últimas décadas.