Por agora estamos a viver os dias da grande mobilização virtuosa. Declarar apoio a António José Seguro é a nova versão do atestado de bom comportamento civil, quiçá um substituto do registo criminal. Cantores, actores, políticos, gente de quem já não se lembrava o nome e muito menos a actividade, jornalistas, moralistas… correm a declarar o seu apoio a António José Seguro com o sentimento de urgência de quem está a salvar a pátria. Nas sondagens, Seguro ora esmaga, ora arrasa Ventura. O candidato sente-se confortável para aceitar fazer apenas um debate. O exemplo recente da passagem de céu para inferno de Marques Mendes e os riscos de confundir o apoio dos notáveis com o apoio popular não são certamente ignorados por quem está na campanha de Seguro mas, para o que por agora me parece incontornável, tanto dá que ganhe Ventura ou Seguro. E o que me parece incontornável é que estas são últimas eleições do tempo de antigamente.

Nas próximas legislativas Ventura pode ultrapassar Montenegro, o homem que teve medo da sua própria maioria. Não interessa se o Chega terá muitos ou apenas mais um deputado que o PSD, ou até os mesmos. Interessa sim que nesse dia o país político como o conhecemos desde 1976 acabou. E isso acontecerá porque em 2025 Montenegro não foi capaz ou não quis assumir a liderança da maioria de direita que existia no país. Optou por governar como se estivesse nos anos 80 do século passado (repetiria o mesmo erro ao apoiar Marques Mendes) quando à direita do PSD existia apenas o CDS, que aspirava a influenciar o poder mas não a ser poder.

Quando escolheu governar sem fazer um acordo com o Chega, Montenegro poupou-se às críticas da esquerda, aos chiliques dos comentadores e ao trabalho certamente difícil de lidar com Ventura, mas deixou o líder do Chega livre para dizer uma coisa e o seu contrário, votar consoante as suas conveniências e, não menos importante, assumir-se como líder da direita após o desastre eleitoral da candidatura de Marques Mendes.

Pior, Montenegro deixou escapar o momento em que o PSD podia ter uma solução de governo com o Chega estando ainda numa posição dominante. E em política perder o momento é mais grave que perder os eleitores, porque os eleitores recuperam-se mas os momentos não se repetem. Pode dizer-se que o Chega não conseguirá ir muito mais longe que os actuais 22 por cento que conseguiu nas últimas legislativas e que não se assistirá no PSD a nada parecido com o que está a acontecer aos Conservadores ingleses, que vêem sair semana a semana quadros e dirigentes para o Reform de Farage. Não só não tenho a certeza que isso não venha a acontecer como até pode acontecer noutro sentido. E há já quem esteja no terreno a trabalhar para isso: o que pretende João Cotrim Figueiredo com o seu “movimento cívico-político apartidário” senão fixar os quase 600 mil votos de eleitores laranjas que votaram em si? O “movimento cívico-político apartidário” só é apartidário no sentido em que visa reorganizar o presente equilíbrio entre partidos. (A propósito ou despropósito, em que ponto estão as acusações, denúncias, queixas… do caso de assédio que envolveu João Cotrim de Figueiredo?)

Nas eleições do tempo de antigamente PS e PSD rodavam no poder. Esse tempo acabou. Temos agora três partidos médios e uma maioria política de direita que valeu 59 por cento do eleitorado nas últimas legislativas mas cujo peso político é uma espécie de tara perdida. António José Seguro, que muito provavelmente vai ser eleito Presidente, vai começar por ser o grande beneficiário desta direita em luta pela liderança e dos erros de Montenegro. Mas a médio prazo arrisca tornar-se também uma vítima dessas mesmas circunstâncias, pois a direita que agora se agarra a ele para derrotar Ventura será a primeira a deixá-lo cair quando achar que tem a casa arrumada. E isso terá de acontecer antes de 2031. Depois será tarde demais.