Uma das mais fabulosas histórias da política internacional conta que, quando Nixon visitou a China em 1972 e perguntou ao primeiro-ministro Zhou Enlai o que pensava da Revolução Francesa, este terá respondido: “Ainda é muito cedo para dizer”. O Presidente americano não poderia ter regressado mais impressionado. Quanta prudência! Que resposta mais sintomática da famigerada paciência dos chineses e da sua capacidade para olhar a imagem completa! Que sinal mais eloquente das diferenças que separavam Oriente e Ocidente e que, decerto, um dia não muito longe, dariam, enfim, vantagem ao primeiro…
Foi a mesma maneira de ser que nos pareceu reconhecer na semana passada, na conversa entre Xi Jinping e Putin, alegadamente captada por acidente: “Antes, era raro alguém viver para lá dos 70 anos”, disse o Presidente chinês para o russo. “Hoje, aos 70, ainda se é uma criança.”
Bom, pensa o cronista do alto dos seus 44, enquanto descruza e volta a cruzar as pernas para evitar um pé já meio dormente e um joelho que anda a chiar há três dias, comecemos pelo contexto. A conversa deu-se no outro dia em Pequim, quando Xi (72) e os seus convidados Vladimir Putin (73 dentro de poucas semanas) e Kim Jong-un (41) subiam para a tribuna donde iriam observar a grande parada comemorativa dos 80 anos do fim da Segunda Guerra. A CCTV – isto é, a Televisão Central da China que, feliz coincidência, tem a mesma sigla com que por cá nos referimos aos circuitos internos de câmaras de videovigilância – estava a transmitir em directo quando, por acaso, terá apanhado aquela troca de palavras informal entre estadistas e respectivos tradutores. Ao todo, são pouco mais de 30 segundos antes que o realizador corte para um plano geral da Praça da Paz Celestial e deixemos de acompanhar o diálogo. Antes, ainda ouvimos a réplica de Putin, sugerindo que, através de transplantes contínuos de órgãos, talvez possamos mesmo viver para sempre, seguindo-se uma gargalhada de filme e o comentário sereno, final, de Xi: “Há previsões de que, ainda neste século, as pessoas possam viver até aos 150 anos.” Enquanto isto, ao lado, Kim acompanha tudo olhando e sorrindo muito, com aquele ar de amigo menos popular que também quer participar na conversa, mas ninguém se dá ao trabalho de lhe traduzir para coreano.
Provoca um calafrio? Provoca. Até porque, no Ocidente, quando os políticos são “apanhados” pelos microfones em apartes pessoais, estão, geralmente, a falar mal doutro político, a comentar uma marosca qualquer ou a apreciar o rabo da secretária – temas de outra elevação. Mas, enfim, a imortalidade também não está mal.
Porque é que esta conversa nos deve importar? Por três razões. Em primeiro lugar, para perceber a diferença entre Xi Jinping e Putin: Xi fala serenamente, sem desviar o olhar do caminho, sobre a evolução da biotecnologia. Está a referir-se ao progresso da medicina e, muito importante, à experiência da humanidade como um todo, antes de concluir reportando-se a prognósticos científicos. Putin, parecendo estar a dizer o mesmo, na verdade dificilmente poderia contribuir com um aporte mais sinistro: transplantes de órgãos contínuos. A imortalidade de uns à custa da destruição de outros.
A segunda razão é que a conversa, parecendo porventura muito exótica, se refere, na realidade, a uma questão que, há anos, deixou de ser meramente religiosa ou filosófica, para se tornar muito concreta: os investimentos de biliões de dólares que alguns dos homens mais ricos do mundo têm feito na investigação de uma “cura” para a morte, incluindo equipas de dezenas de médicos pessoais, prémios Nobel e muita inteligência artificial para descobrir mais acerca da possibilidade do rejuvenescimento celular, reverter as doenças relacionadas com o envelhecimento ou descarregarem os seus cérebros para computadores que, depois, os possam transplantar para novos corpos, humanos ou não.
A terceira e última razão é que, perante tudo isto, e sabendo que, em volta, o contexto era o de uma reunião de líderes da possível “nova ordem mundial” e o de uma amostra do seu actual poderio militar e tecnológico, tudo o que ocorreu fazer ao homem que ocupa o lugar anteriormente conhecido como “líder do mundo livre” foi amuar por não ter sido convidado e queixar-se na sua rede social de que estavam a “conspirar contra os EUA.”
O mundo, está dito e redito, encontra-se em profunda e acelerada mudança. Política, tecnológica, económica, climatérica, demográfica, social. Mas nenhuma das transformações em curso se compara à possibilidade de, um dia, estar ao alcance de alguém deixar de morrer. A morte, por mais desagradável que seja (e pior, como sabemos, só o fisco), é o máximo nivelador da História; a certeza de que ninguém aqui fica para sempre a única garantia de que um mínimo de justiça e equilíbrio prevalece no Universo. A possibilidade da perda é o motor último das nossas acções, da nossa demanda. A morte, enfim, é boa parte de Deus – exista um ou não. Para este escriba de 44 anos e um joelho a chiar, a vida eterna seria, na pior das hipóteses, a certeza da loucura; na melhor, o tédio infinito. Mas se, ainda assim, a ideia o seduz, pense num mundo em que Putin nunca morre. Xi Jinping governa para sempre. Trump continua a voltar, uma e outra e outra vez. E Kim Jong-um ainda e sempre à espera da tradução.
Pode ser que não. Às vezes, a superioridade do nosso adversário é apenas uma ilusão de óptica exacerbada pelo medo; isto quando não passa de mero mal-entendido. Sabe o mais engraçado na história da conversa de Nixon com o primeiro-ministro chinês? É que Zhou Enlai pensou que ele estava a falar do Maio de 68.