O AVC continua a ser a principal causa de morte e incapacidade em Portugal. A cada hora, três portugueses sofrem um AVC. Só em 2023, registaram-se mais de 31.000 internamentos por AVC, com uma taxa de mortalidade hospitalar de cerca de 15%. Entre os sobreviventes, muitos ficam com limitações significativas — físicas, cognitivas ou ambas. Estas consequências não afetam apenas os doentes, mas também as suas famílias, os sistemas de saúde e os cuidadores, traduzindo-se em custos sociais e económicos elevados, que incluem perda de produtividade, reformas antecipadas e necessidade prolongada de cuidados formais e informais.

À medida que a população envelhece e a carga do AVC aumenta, torna-se cada vez mais urgente investir em intervenções, médicas e organizacionais, que comprovadamente possam reduzir este impacto. Nas últimas décadas, registaram-se avanços significativos que permitiram tratar o AVC de forma cada vez mais eficaz, tanto no que se refere ao AVC isquémico (resultante da obstrução de uma artéria), como ao hemorrágico (provocado pela rutura de um vaso sanguíneo cerebral). Entre estas intervenções, destacam-se o internamento em unidades de AVC, os tratamentos agudos que visam restaurar rapidamente o fluxo sanguíneo cerebral, como a trombólise endovenosa, que dissolve o trombo com recurso a medicação, e a trombectomia mecânica, que o remove por via endovascular, bem como programas de reabilitação, essenciais para minimizar as sequelas que possam persistir apesar do tratamento inicial.

Ao reduzirem a mortalidade e a incapacidade associada ao AVC, estas intervenções revelam-se altamente custo-efetivas, mesmo em contextos com recursos limitados. A trombectomia mecânica é um exemplo paradigmático deste benefício, apesar de ser uma intervenção complexa, que requer a articulação de diversos recursos e equipas especializadas. Diversos estudos confirmam que este tratamento é custo-efetivo em todos os países da Europa, independentemente das diferenças nos sistemas de saúde. Isto significa que, mesmo considerando os custos do procedimento, existe benefício na realização deste tratamento, de acordo com os critérios convencionais utilizados em economia da saúde.

Um estudo recente estimou que, ao longo de cinco anos, a aplicação da trombectomia mecânica a nível Europeu gera mais de cem mil anos de vida com qualidade (QALYs) e permite uma poupança de 868 milhões de euros em custos de saúde e 1,5 mil milhões de euros em custos sociais e societais. Trata-se de um dos investimentos mais racionalmente justificados na medicina atual.

No entanto, persistem diferenças significativas no acesso às terapêuticas para o AVC, mesmo entre países europeus. Em Portugal, apenas cerca de metade dos doentes com AVC são internados em unidades de AVC. Relativamente ao AVC isquémico, cerca de 10% recebe trombólise endovenosa e 13% trombectomia mecânica. O Plano de Ação Europeu para o AVC recomenda que pelo menos 90% dos doentes sejam internados em unidades especializadas. Em alguns países europeus, mais de 30% dos doentes recebe trombólise. No nosso país, o número limitado de camas em Unidade de AVC e os atrasos na chegada ao hospital continuam a ser entraves relevantes.

A eficácia dos tratamentos agudos é muito dependente do tempo. Quanto mais cedo forem iniciados, maior a probabilidade de recuperação. Em fases mais avançadas, estas intervenções deixam de estar indicadas. Por exemplo, a trombólise endovenosa é geralmente apenas possível nas primeiras 4,5 horas após o início dos sintomas.

Importa, contudo, também lembrar que a forma mais eficaz de responder ao AVC é mesmo evitar que aconteça. Medidas como o controlo da hipertensão arterial, a deteção precoce da fibrilhação auricular ou a cessação tabágica são simples, eficazes e amplamente comprovadas. No entanto, continuam a existir oportunidades perdidas, seja por atraso no diagnóstico ou baixa adesão ao tratamento e ao seguimento clínico.

A pandemia de Covid-19 provou que, quando existe vontade política e se mobilizam os recursos certos, é possível transformar de forma rápida e eficaz a literacia em saúde sobre temas essenciais. Diversos estudos internacionais demonstram que campanhas de sensibilização para os sinais de AVC (Face, Fala, Força) e para a necessidade de avaliação médica imediata são eficazes na redução do tempo entre o início dos sintomas e o tratamento. Sabemos também que cerca de 90% dos casos de AVC podem ser atribuídos a fatores de risco modificáveis. Que impacto poderíamos alcançar se mobilizássemos o mesmo esforço coletivo para prevenir e tratar as doenças que mais afetam os portugueses?

Investir na prevenção, diagnóstico e tratamento do AVC não é apenas uma prioridade clínica: é uma decisão estratégica, sustentada na evidência, com impacto direto na saúde dos portugueses, na sustentabilidade do sistema e no bem-estar coletivo. Para isso, é essencial intensificar campanhas de sensibilização, aumentar a capacidade de internamento em unidades de AVC, garantir acesso atempado aos tratamentos agudos e reforçar a disponibilidade de programas de reabilitação estruturada. Ignorar este desafio terá custos elevados – para os doentes, para as famílias e para o país.

Diana Aguiar de Sousa é médica neurologista na Unidade Cerebrovascular do Hospital Universitário Lisboa Central – ULS São José e doutorada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde é também professora auxiliar convidada. Integra a direção da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral e co-presidente da comissão de coordenação das recomendações clínicas da Organização Europeia do AVC (European Stroke Organisation). É uma das cronistas convidadas do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares.

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