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Retomando o tema optimista da minha última crónica, gostaria de voltar a citar várias boas notícias — que contrariam o clima tribal e revolucionário crescentemente  dominante no debate politico entre nós.

1 Primeira grande boa (excelente) noticia: a publicação do livro de Aníbal Cavaco Silva, Uma experiência de social-democracia moderna (Porto Editora). Além de uma tocante homenagem a Sá Carneiro, a obra fornece um impressionante registo daquilo que foi efectivamente alcançado durante os governos liderados por Cavaco Silva entre 1985 e 1995.

Para resumir uma longa história, durante esse período, “Portugal passou de 55,7% da média europeia do PIB per capita em 1985 para 68,3% em 1995, uma convergência real que, então, só foi ultrapassada pela Irlanda e que não voltou a repetir-se” (p. 9).

O livro de Cavaco Silva recorda este distinto e distintivo registo da sua governação — que contou, aliás, com a civilizada magistratura de influência do então Presidente Mário Soares, sobretudo no primeiro mandato presidencial (1986-1991). E é seguramente importante recordar este impressionante registo. Mas o que eu gostaria de enfatizar é que este impressionante registo foi alcançado por Cavaco Silva, em ‘co-habitação’ com Mário Soares, no âmbito do mesmo “regime político” que é hoje frequentemente posto em causa, por vozes alegadamente à direita, como tendo deixado, ou estando a deixar, de ser democrático.

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Convém, a este respeito, recordar o seguinte: Cavaco Silva obteve duas maiorias absolutas como primeiro ministro e duas maiorias absolutas como Presidente da República precisamente no mesmo regime constitucional que temos hoje (que incluiu as civilizadas revisões constitucionais de 1989 e 1992). Nunca lhe ocorreu advogar a mudança de ‘regime’: simplesmente apelou ao voto popular no âmbito do nosso regime constitucional pluralista.

E acontece que alcançou as quatro maiorias absolutas, sem nunca insultar os adversários e sem nunca pôr em causa o que alguns (sobretudo no terceiro mundo e nas chamadas ‘repúblicas das bananas’) chamam ‘regime’. [Uma expressão, a propósito, totalmente ausente na ancestral democracia britânica, que tem o mesmo ‘regime’ demo-liberal desde 1688, e que por isso fez entretanto profundíssimas reformas sem nunca recorrer à Revolução ou à Contra-Revolução].

2 A disposição civilizada e liberal-democrática de Cavaco Silva esteve presente no recente muito civilizado debate entre os candidatos à vice-presidência nos EUA. Foi um marcante e muito agradável contraste com o debate tribal entre Donald Trump e Joe Biden. [Permito-me recordar que o conservador Telegraph de Londres reportou que Biden mandou calar Trump e chamou-lhe ‘palhaço’ e que, ainda assim, foi o menos mal-criado no debate).

No muito civilizado debate entre Mike Pence e Kamala Harris, é difícil dizer quem ganhou. Mas os comentadores foram unânimes em considerar que seguramente ganhou a democracia americana — e o seu ancestral sentido de reverência por regras gerais imparciais de boa conduta e boas maneiras. Foi esta reverência que ancestralmente salvou a democracia americana do eterno conflito revolucionário do continente europeu entre a servidão e o abuso (parafraseando Tocqueville). É também essa reverência por regras gerais imparciais que explica que os EUA, apesar da guerra civil de 1861-1865, mantenham a mesma Constituição fundadora de 1787, à qual foram moderadamente acrescentando relevantes ‘Emendas’.

3 Registo apenas que o conservador Telegraph de Londres atribuiu à candidata democrata Kamala Harris a distinção de mulher mais bem vestida da última semana. Posso admitir que a distinção seja desconfortável para uma (pequena e activista) parte do potencial eleitorado de Kamala — sobretudo para as patrulhas militantes que querem abolir a ideia de elegância feminina.

Receio ter de reportar que eu ainda acredito na ideia de elegância feminina (bem como, ainda que apenas subsidiariamente, masculina) e que continuo a ler diariamente o conservador The Telegraph — onde Churchill era frequente cronista. Devo aliás reportar com prazer que The Telegraph em papel voltou a chegar ao Estoril esta semana, depois de ausência desde Março. Mas a qualidade do papel é agora mais grosseira — e já enviei carta de gentil alerta aos editores em Londres.

4 Outra excelente notícia (que acabo de ler no Telegraph em papel) é que o activista de 18 anos que pintou a estátua de Churchill com a expressão “racista” foi aliviado da potencial pena de prisão de três meses e da multa de 2.300 libras. O tribunal impôs-lhe apenas a multa de 1.642 libras, basicamente o preço de limpar a estátua de Churchill. O julgamento decorreu ordeiramente, com a presença do pai do jovem activista, um pastor baptista, que acompanhou o filho sem necessariamente subscrever os seus actos. Very decent indeed.

5 Finalmente, cabe-me agradecer uma muito amável referência crítica do meu bom amigo José Pacheco Pereira na revista Sábado de 7 de Outubro. Distingue-me ele com a classificação de “único conservador genuíno que há em Portugal”. Agradeço enfaticamente o elogio, que atribuo à nossa muito antiga amizade. E gostaria de aproveitar a ocasião para ilustrar o meu orgulhoso conservadorismo liberal, que julgo ser ecumenicamente compatível com diferentes programas políticos demo-liberais, ao centro-esquerda e ao centro-direita. Termino por isso com uma passagem do poeta John Betjeman à BBC, em 1943, em plena II Guerra:

“Não acredito que estejamos a combater pelo privilégio de vivermos numa comunidade de formigas altamente desenvolvida. Isso é que os nazis querem. […] Para mim, em qualquer caso, a Inglaterra é pela excentricidade, pelas igrejas iluminadas a candeeiros de petróleo, Institutos de Mulheres, modestas estalagens de aldeia, o ruído de cortadores de relva nas tardes de sábado, jornais locais, leilões locais, a poesia de Tennyson, Hardy e Mathew Arnold, talentos locais, concertos locais, uma visita ao cinema, caminhos de ferro, debruçarmo-nos sobre cercas de madeira a olhar para os relvados; e qualquer um pode ser a favor de qualquer outra coisa, qualquer coisa que tenha a ver com Wolverhampton ou a querida velha Swindow, ou qualquer outro sítio em que a pessoa viva.”

6 Em suma, os conservadores liberais Churchillianos não gostam de revoluções nem de contra-revoluções, nem de conversas terceiro-mundistas sobre ‘regimes’. Gostam de governos parlamentares limitados pela lei que deixam os cidadãos usufruir em paz os seus modos de vidas espontâneos, não centralmente desenhados por ‘especialistas’ nem por ‘camaradas’.

Post Scriptum: A propósito de Churchillianos, os próximos dias vão ter intensos programas online. Começa hoje mesmo, em Praga, a conferência anual do Forum 2000, fundada pelo saudoso Vaclav Havel. Na próxima segunda-feira, 19, e até quinta, 22, decorre a 28ª edição do anual Estoril Political Forum, fundado em 1993. Logo a seguir, a 23 e 24 de Outubro, tem lugar a 37ª edição da International Churchill Conference.