Impressiona-me sempre, nesta altura do ano, como os brinquedos continuam a acentuar diferenças sociais entre rapazes e raparigas. Não falo de diferenças naturais e biológicas, que obviamente existem, gerando interesses e promovendo escolhas de entretenimento diferentes nos meninos e nas meninas. E não falo também de haver brinquedos para uns ou para outras, porque o considero normal face às suas diferenças naturais — não alinho na tese (fundamentalista) de que os brinquedos devem forçosamente ser “neutros”, da mesma forma que não vejo qualquer problema quando uma menina gosta de um brinquedo geralmente destinado a meninos (e vice-versa). O que me impressiona, repito-me, são os brinquedos que artificialmente acentuam diferenças sociais — isto é, brinquedos que sugerem papéis sociais e profissionais diferenciados para meninos e para meninas, quase sempre as menorizando a elas.

O contraste mais recorrente é este: enquanto todo um tipo de engenhocas se associa visualmente aos rapazes nas embalagens (carros, robôs, naves espaciais, jogos de construção/ mecânica), às raparigas associa-se (entre bonecas e outras coisas) brinquedos que reproduzem tarefas domésticas — vassouras, cozinhas, aventais, kits de passar-a-ferro —, cuja apresentação aponta para um público-alvo feminino (por exemplo, nas opções cromáticas, com insistência nos tons cor-de-rosa). E, quem achar que é só uma questão de apresentação, faça a experiência. Oferecer um kit doméstico a uma menina pode eventualmente ser de mau gosto. Mas oferecer algo semelhante a um rapaz seria certamente recebido como uma provocação descabida: há uma percepção generalizada de que esse é um brinquedo de menina, portanto desadequado para meninos.

Acredito que muitos destes brinquedos estejam (devagarinho) a cair em desuso e que esta diferenciação seja hoje menos frequente do que era há 20 anos. E, tal como referi, não vejo problema que uns e outros brinquem com o que lhes apetece, independentemente das “normas sociais” dos contextos onde habitem — se um miúdo quiser ter a sua cozinha cor-de-rosa, não há razão para que não a tenha. Mas, o padrão imposto sobre as raparigas existe e não deve ser menosprezado. Porquê? Porque estes brinquedos reflectem expectativas (dos pais ou da sociedade) face ao papel que cada criança desempenhará na comunidade. E tanto as expectativas como os contextos sociais moldam as preferências das crianças, (auto)limitando-as nas suas escolhas e nas suas aspirações.

Há muitas evidências empíricas de que isto sucede e que as diferenças entre rapazes e raparigas continuam a ser acentuadas de forma artificial, em desfavor das raparigas. No PISA 2018, da OCDE, isso aparece explicitamente nos dados. Avaliando alunos de 15 anos com desempenhos elevados em Matemática e em Ciências, verificou-se que, em Portugal, as expectativas de persecução de uma carreira científica (nomeadamente nas engenharias) são fortemente definidas pelo género. Entre os rapazes portugueses, essa opção de carreira é apontada a 48% dos alunos inquiridos. Entre as raparigas portuguesas nas mesmas condições de desempenho académico, apenas 15% tem igual ambição profissional. Os 33% que separam rapazes e raparigas são uma brutalidade e nada têm de “natural”. Basta confirmá-lo na comparação internacional (analisada neste ensaio): nenhum outro país europeu tem tamanha diferenciação de género. Aliás, pior ainda: não só Portugal é o campeão da desigualdade de género neste indicador, com os seus 33% de fosso entre rapazes e raparigas, como está longíssimo dos outros países — a Suécia, o país que surge logo a seguir a Portugal neste indicador de desigualdade, tem metade: 16%. Veja-se os outros: Espanha (15%), Itália (14%), Reino Unido (8%), Polónia (2%) ou Estónia (2%). O retrato português é digno de alarme.

Mas mesmo que alarmante, não se pode dizer que isto seja uma surpresa. Os avisos soaram há muito tempo, quando as análises às bases de dados do PISA constataram uma diferenciação de género nas próprias expectativas dos pais — sobre este assunto, confira-se este relatório da OCDE (2015) ou este ensaio aqui publicado. Exemplo prático: entre rapazes e raparigas com desempenhos académicos elevados e equivalentes, os pais têm (inconscientemente) maiores expectativas de prossecução de uma carreira nas áreas científicas para os seus filhos (e menores expectativas para as suas filhas). No caso português, 27% dos pais inquiridos fizeram essa diferenciação, a favor dos seus filhos rapazes, embora disso não se apercebam. Sabendo-se que as expectativas têm uma forte associação com o sucesso e o percurso escolar de um aluno, é evidente o impacto significativo que isto tem nas escolhas das jovens raparigas, nomeadamente na hora de escolher um curso no ensino superior.

Não é deliberado, mas está enraizado. E é muito mais acentuado em Portugal do que no resto da Europa: nos brinquedos, nas expectativas e nas carreiras, as raparigas crescem rodeadas de incentivos para ficarem aquém do seu potencial. E, em casos demais, realmente ficam. Tudo porque, em vez de projectarem o seu futuro pelo que conseguem alcançar, permitem que as suas ambições fiquem reféns de ideias-feitas que as menorizam. Ora, se é certo que a realidade não se altera de um ano para o outro, esta é uma boa luta: que 2020 seja um ano em que todos façamos um esforço consciente para não limitar o futuro das raparigas.