Se pesquisarmos, ou perguntarmos aos nossos mais antigos na linha da vida, facilmente verificamos como o Algarve mudou nas últimas décadas e como as nossas estradas o tornaram mais acessível, de lés a lés.

Sendo eu apaixonada pela beleza natural da nossa Costa Vicentina e pelas suas vilas e aldeias, fiquei com as antenas ligadas quando me falaram de uma praia no sotavento algarvio cuja extensão de areal ultrapassa as nossas retinas e a água permite fazer chá devido à sua temperatura mediterrânica, sendo que este areal é fortificado por uma típica aldeia algarvia.

Falo da aldeia de Cacela Velha, em Vila Real de Santo António, que está situada numa elevação arenítica em frente à Ria Formosa e ao mar, fazendo parte integrante do parque natural da ria.

Pela história de Cacela Velha passaram várias civilizações como os fenícios, os romanos e os muçulmanos.

A história conta-nos que Cacela viveu uma época esplendorosa, durante a ocupação muçulmana no século X, que foi a época Califado de Córdova. Naquele tempo, era conhecida por Hisn-Qastallah, nome do qual aliás deriva, actualmente, Cacela.

Chegados à aldeia ficámos com o apetite em aberto para um maravilhoso dia de praia, vislumbrando uma das panorâmicas mais bonitas do sotavento algarvio, através do forte da aldeia.

Portanto, se és um “insta-tudo” e não perdes uma oportunidade para tirar uma fotografia impactante, eu diria que este é o ponto Instagram da aldeia ou o ponto de foto de capa do teu Facebook, gravando o extenso areal, a ria e os seus barcos à deriva entre os bancos de areia e a água da ria, que pinta várias lagoas no horizonte, ocupado pelo profundo mar azul.

O forte da aldeia será a moldura da tua fotografia esculpida pela cal branca do muro e pelas folhas da palmeira cujo ângulo talvez te pareça imperdível.

Já se fores “dos da minha fibra”, ou seja, parte integrante de todos aqueles que preferem viver os momentos ao invés de os registar, prepara-te e inspira porque estão todas as condições reunidas para amares profundamente durante largos minutos da memória da tua vida esta paisagem de verão, capaz de tirar o fôlego ao coração do teu hipocampo, sobretudo sobre a luz do nascer e do pôr do sol.

Inspirado o ar do forte de Cacela e da sua paisagem, pisamos as ruas empedradas ao redor da Igreja, que lhe valeu o nome de sítio da Igreja antes do nome Cacela. As portas das casas da aldeia cujo número praticamente se pode contar pelos nossos dedos, pintam-se em tons de azul magrebino sendo que a última casa faz descer uma laje que termina no areal da praia.

As parcas ruas têm o nome de alguns dos nossos melhores poetas tais como Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner.

Existem também três restaurantes que, em época estival, contrastam as enchentes de turistas com a família de peixes e mariscos que fazem da nossa gastronomia uma das melhores do mundo (senão a melhor…).

Cacela guarda duas praias, a praia de Vila Nova de Cacela e a Praia da Fábrica, separadas por alguns metros.

O acesso à praia faz-se de barco, consoante a maré. No meu caso a travessia fez-se sempre a pé, ora pela areia ora pela água sendo que, no regresso, vemos a ria encher-se de uma maré de gente com os seus guarda-sóis em punho, as geleiras e as bóias que navegam de regresso a terra desenhando o ritual pitoresco que se repete, dia após dia, na praia de Cacela e da Fábrica.

A praia da Arrifana, talvez porque sou de amores fixos, continua a ser a “minha praia”. No entanto, a praia de Cacela Velha ficou-me no coração, seguramente como paragem obrigatória em todos os próximos dias de Verão algarvios.