Caro Menino Jesus,

Começo por esclarecer que és, efetivamente, o destinatário desta missiva. Bem sei que, aqui em Portugal, quando se fala de Belém o destinatário é outro, o Presidente da República.

Porém, não é com Marcelo que quero falar. Aliás, sei que não está no Palácio de Belém. Foi passar o Dia de Natal numa das terras vítimas dos incêndios. Uma atitude solidária. Tal como seria se consoasse com outros dos sem-abrigo que pernoitam nas ruas deste país. É verdade que já passou a noite com alguns. Só que eles são muitos. Só em Lisboa, de acordo com o Núcleo de Planeamento, Intervenção e Acompanhamento a Sem-Abrigo (NPISA), estão identificados 2 051. Um número que pode pecar por defeito.

Fica descansado que também não é ao Pai Natal que me quero dirigir. Nesta sociedade consumista o velhote não deve ter mãos – nem cartões de crédito – a medir. Verdade que simpatizo com ele. Não pelas prendas que nem sempre me trouxe. Não por estar a caminho apressado da geração grisalha. Sim porque aprendi a respeitar os mais velhos. Em África chamam-lhe bibliotecas. Mesmo quando só aprenderam na escola da vida. No mundo da minha infância chamávamos-lhes «tios». Mesmo quando não existia qualquer laço familiar. Só respeito.

Como vês, esta carta é mesmo para ti. Por três motivos que estou certo que irás compreender e aceitar.

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O primeiro é para te dar os parabéns. Afinal, o Dia de Natal é o dia em que o Pai resolveu que virias ao mundo. Numa manjedoura. Uma versão que, ao tempo, não andaria longe da realidade dos sem-abrigo de hoje. Só tiveste direito a uma cabana emprestada. Eles dormem nas arcadas e portadas dos prédios. Tu ficaste em palhinhas deitado. Eles tapam a miséria com cartões dos supermercados da abundância.

O segundo motivo prende-se com algo que atrás ficou escrito. Quero pedir-te desculpa pelo mundo em que vivemos. Não soubemos seguir o teu exemplo. Vieste para nos libertar e, nos dias de hoje, segundo o Global Slavery Index 2016, ainda existem 45 800 000 escravos modernos. É muita gente! Gente é como quem diz. Quem é vendido por 400 dólares não é gente.

Sei que Aristóteles admitia a existência da escravatura e que até a considerava útil para alguns homens. Aqueles que não conseguiam autogovernar-se. Porém, não me esqueço que a doutrina pregada pelos teus Apóstolos dizia que todos os homens eram irmãos. É nisso que quero acreditar. Daí a minha revolta.

O terceiro motivo desta missiva decerto que já o adivinhaste. Decorre da natureza humana, apesar de o homem ter sido feito à imagem de Deus. É um pedido. O nome nobre para aquilo que o povo chama «cunha». Algo com um longo historial.

Assim, queria pedir-te mais atenção ao mundo. Com São Tomás de Aquino aprendi que havia quatro leis – lei eterna, lei natural, lei humana e lei divina – e que Deus governava o mundo por causas segundas. Ou seja, Deus estabelecia as leis gerais e depois deixava que os acontecimentos se verificassem de acordo com essas leis e a vontade dos homens.

Ora, é aí que reside a causa do verdadeiro problema. O Pai colocou nas mãos dos homens e do direito positivo, mais do que do consuetudinário, a condução do destino da Humanidade. Foi uma transferência demasiado exigente e brusca. A condição humana não estava à altura.

Podia apresentar-te muitos exemplos, mas, devido à tua omnisciência, já os conheces. Por isso, não vale a pena recordar-te dos 766 milhões de pobres no mundo, mesmo descontando que nesse número não está compatibilizada a África do Norte e Central. Esse pobres não vivem. Sobrevivem com menos de 2 dólares por dia. Foi o que li no relatório do Banco Mundial – “Poverty and Shared Prosperity 2016: Taking on Inequality”. Um dado que me preocupou. Tal como fiquei revoltado com o facto de em Portugal, segundo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento feito pelo Instituto Nacional de Estatística, haver 2 595 000 pessoas em risco de pobreza. Com a agravante de haver pessoas que são pobres, apesar de trabalharem. Uma prova inequívoca da magreza injusta do salário.

Já deves estar cansado de ouvir tantos números. Por isso, não te incomodo mais. Já não te falarei do crescente perigo populista nem da ameaça terrorista ou das alterações climáticas. Sim, sei que a culpa não é tua. É dos homens. Só que quando bato no peito a admitir a minha culpa – que bem podia estar no plural – digo que também pequei por omissão.

É isso que me autoriza o atrevimento de pedir que estejas mais atento ao mundo terreno. Segue o exemplo daquele membro da tua Igreja – julgo que um arcebispo de Braga – que, certa noite, depois de um seu servidor não o ter respeitado, fez questão de pegar no candeeiro para lhe mostrar o caminho. Afinal, a sua missão era iluminar os que erram.

Olha que a Humanidade bem precisa de luz. Não lhe envies pretensos líderes iluminados. Como aquele que reina em terras do Tio Sam. Ilumina-a. Para que todo o homem possa ser pessoa. E o Natal aconteça quase todos os dias.