Estás bonzinho? Imagino que não. Andas preocupadíssimo com o que se passa nos Açores, as cedências do que designas por “direita civilizada” aos extremistas do Chega. É aborrecido. Mas gostaria de te lembrar, porque pelos vistos esqueceste, que o país inteiro, e não apenas um arquipélago, é governado há cinco anos mediante uma aliança parlamentar com extremistas, fora os extremistas que moram no PS e nem carecem de alianças para legitimar extremismos. E, corrige-me se estiver enganado, nunca te vi demasiadamente aflito com isso. Ou, para ser justo contigo, tão aflito quanto agora.

Vais responder-me que o Chega não é comparável a PCP e BE. Concordo em absoluto: PCP e BE são piores. O Chega é um projecto oportunista que congrega indignações dispersas. Às vezes acerta, às vezes emite umas cretinices de meter medo. Não sei se as cretinices são convicções do Ventura, se são bojardas aleatórias que o façam parecer rijo. Sei que tenho pena de que a esperança de tantos portugueses (coitados) seja depositada num comentador da bola com bastante habilidade e escasso critério, além disso assaz “patriótico” e venerador da “ordem” para o meu gosto – e julgo que para o teu. Mas os partidos comunistas são realmente incomparáveis com isto. Sabes que o PCP e o BE não são meros escapes “populistas” do “descontentamento”: são seitas, coesas e disciplinadas e com uma visão totalitária do mundo. Se o Ventura aprecia o caudilho húngaro, o PCP e o BE apreciam boa parte dos principais déspotas sanguinários do último século (a divergência em volta de Estaline é um pechisbeque justificativo). Se o Ventura mandasse, obrigava-nos ao respeitinho cego pela polícia, a exacta polícia que por acaso ajuda a cumprir as ordens do dr. Costa para fechar os cidadãos e a economia. Se PCP e BE mandassem, ainda mais do que mandam, estaríamos desgraçados, ainda mais do que estamos.

Como tu, não gosto do Chega. Se calhar ao contrário de ti, não o digo para exibir uma “civilidade” e uma “decência” definidas pela esquerda selvática e indecente. É que gosto menos da esquerda, actual PS incluído, que do Chega. Mesmo descontando os juízos de valor, ou os valores sem grande juízo, a verdade é que o Chega não merece a tua inquietação, a qual, não leves a mal, acho excessiva. Em Portugal, o poder da extrema-direita, se quiseres despejar o Chega aí, é ínfimo e não ameaça crescer indefinidamente. O poder da extrema-esquerda, assumida ou mal disfarçada, é imenso, e ameaça crescer a ponto de se tornar intolerável. A sala enche-se de jibóias e tu incomodas-te com o aranhiço no canto.

Na medida do possível, ignora o aranhiço. Se aceitares outro conselho, ignora as regras de “convivialidade” que a esquerda decreta. O Ventura é “fascista”? Duvido, embora não tenha a certeza. Tenho a certeza de que, para a esquerda, Passos Coelho, Cavaco e Sá Carneiro eram “fascistas”, e tenho – temos – a certeza que não eram. Repara que não estou a valorizar o pobre Ventura à custa dos nomes citados, inúmeros degraus acima dele: estou a desvalorizar as sentenças da esquerda, exímia a estabelecer as fronteiras do “admissível”. Para a esquerda, que não fosse criminosa teria piada, só não é “fascista” quem não se lhe opõe. Por inúmeras demonstrações de “virtude” que pratiques, ao primeiro deslize tu próprio serás “fascista”. E eu, teu amigo, ficarei orgulhoso. Política e eticamente falando, há avaria garantida se a esquerda não nos chama “fascistas”. Eis a nossa vantagem: a esquerda precisa de difamar os democratas. Nós não precisamos de difamar a esquerda. A esquerda trata do assunto: comunistas, dizem-se. Ou socialistas, dizem os comunistas tímidos.

Por ser desnecessário, suponho, não vou ao ponto de te recomendar distância da esquerda, ou especificamente de gente cuja ambição inclui exterminar aquilo que te é caro. Sabendo não possuir esse direito, recomendo-te desconfiança da “direita”, ou especificamente da “direita” que, por interesse ou estupidez, não se resguarda dessa esquerda. Em qualquer dos casos, se o ecumenismo te é sedutor, recordo-te um romancista que talvez admires: a ideia de que podemos viver em harmonia é muito perigosa, e os que a partilham são os primeiros a perder a alma e a liberdade.

Desculpa a citação. Detesto citações. E tu continua a detestar o Ventura com zelo e razão. Mas – segura-te que lá vem pompa – não percas a alma, nem a liberdade, nem a noção do inimigo. E o inimigo, plausível e imediato, não é o Ventura, entretido com subsidiados, pedófilos e, no fundo, a carreira dele. O inimigo é o que, a juntar à vontade, possui os meios para nos oprimir. E oprime de facto. Sem força, o inimigo é uma cisma, um cisco, uma irritação, um engodo: não é o inimigo. Dado respeitar a tua inteligência, que é notória, escuso de nomear o inimigo, que está em movimento, a ganhar pela coacção e pela desistência uma guerra que, ou me engano, ou preferes desdenhar. Espero enganar-me.

Dito isto, tu é que sabes. Permanecerei teu amigo apesar das diferenças, afinal superáveis. As insuperáveis reservo-as para os que conseguem saquear-nos, enclausurar-nos, falir-nos, enxovalhar-nos. E para os que tentam calar-nos. E para os que sonham eliminar-nos. E para os que, caladinhos e patetas, assistem de gravata a estes edificantes desígnios. É a minha “linha vermelha” e, tudo somado, aposto que estás do lado de cá. Do lado de cá, para elevar o nível da conversa, está também uma canção linda que o Bill Callahan e o Bonnie “Prince” Billy lançaram há dias: “Blackness Of The Night”. Já ouviste? Jantamos de hoje a oito (ai Jesus, o “recolher obrigatório”)?

Um grande abraço.