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“É tudo a poder de lágrimas e ais”, foi esta a definição de dor de uma simples doente que António Lobo Antunes, o médico/escritor citou, em aula de Neurologia1. Neste tempo de sofrimento que vivemos, muitíssimos nomes, números, dados assustadores existem na nossa doença coletiva do medo. Nas horas escuras, o número de óbitos, de falecidos, de mortos, conforme se escolha dizer, aumentam o vazio, a calar as vozes dos tantos que amamos. As notícias de instabilidade, incerteza, angústia, crise, preocupação têm sido o sabor amargo dos dias. A fragilidade, a finitude ou as perguntas sem resposta sobre mundo que há de vir, faz-me pensar que também para muita gente perto de nós, é tudo a poder de lágrimas e ais.

Tomo a sábia frase de Clarice Lispector, em A Hora da Estrela.”Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta, continuarei a escrever.” Tomo a sábia frase de Clarice Lispector em A Hora da Estrela para me atrever à escrita primeira pessoa do singular, para um quase balanço de vida. E modo de testemunho, porque o milagre é a vida e o mistério é a morte. Entretanto, haja um pequeno clarear de esperança.

Assim escrevi uma carta em abril de 2014 e agora, por acaso, nas voltas de textos passados, veio este ter comigo, a ser relido, repensado, retomado. A história começou em outubro de 2013, eu achando que em uma ou duas operações me faziam um corte, puxavam, raspavam, cosiam, curavam. E pronto, tiravam o cancro e até ao fim do verão estava o caso resolvido.

Mais de sete anos passaram, eu no IPO, tantas vezes e horas ora na consulta ora na urgência chamada atendimento não programado, ora nas salas de quimioterapia onde há cadeirões e camas, lá no chamado Hospital de Dia de Hemato Oncologia, onde tenho e mantenho caras conhecidas e enfermeiras várias martas, mafaldas, filipas, muitos nomes são estes os mesmos delas, as auxiliares são mais variadas, não sei por qual mistério. Enfermeiros, três: ricardo, paulo, robert.

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A cada segundo que passa, movem-se, põem luva, picam, olham, observam, avaliam, desinfetam, usam a seringa, abrem compressa, tiram, ajeitam, torcem, apuram, confirmam… e apesar de o hospital não ser privado nem rico, sendo os nossos hospitais públicos um milagre de salvação de vidas, de competências, de atualização científica, e apesar de o Serviço Nacional de Saúde estar pobre de recursos, há um chá de tília, um pãozinho com queijo, um açúcar, um copo de papel, um guardanapo de papel, um tabuleirinho de plástico. Ou uma sopa e um prato e uma maçã assada muito má ou uma gelatina, se o tratamento for de hora em almoço.

A carta sentimental que escrevi já nessa altura, sete meses depois de saber do cancro, é esta que aqui vai:

Uma palavra para vos agradecer a ternura, a presença, as mensagens, a disponibilidade. Para vos dizer que a oração dos crentes e o pensamento dos não crentes estão perto de mim nestas horas em que faço revisão de vida e me sinto gratificada e protegida de todos os males. E foi muitas vezes ténue a fronteira entre os males e a sobrevivência, a que chamo ressurreição, neste tempo de Páscoa. Tenho operação ao cólon e fígado marcada para 4ª feira, acredito que vou chegar ao fim, e estou segura desta minha condição de mulher objeto, porque o corpo tem agora o poder e me manda obedecer, quieta e calada, ás ordens, aos procedimentos e manipulações dos médicos. Isto, no plano temporal. No outro plano, do espírito, estou certa de que Deus está comigo nesta etapa do percurso, como sempre esteve ao longo da minha vida. Aconteça o que acontecer, vai ser bom.

Com o carinho e outra vez a gratidão da

LeonorX

Segunda feira, 14 de Abril 2014

A carta atual tem a mesma substância, mas acrescenta um pouco o que fiz no livro Passageiro Clandestino.

Agora sou veterana. Continuo a crer em Deus e a acreditar nos queridos sábios médicos. Sei que Nosso Senhor sabe de mim. E que os médicos e eu andamos juntos para saber. Obedeço a tudo que mandam. Faço tudo. Pergunto: Acha que sim? E a dra Isália Miguel, minha médica depois do dr. João Freire, que em março passado morreu, diz: Sim. Já passou por muito, disse o dr. João Freire. Falava tão pouco. Sabia tudo. Não previa certezas. Dava segurança. Não tinha que explicar.

A verdade é que a memória da gente é tão porreira, que nos dá o esquecimento. Então, perdi a conta das picadas, dos tubos, dos fios, das anestesias, das costuras, das diarreias, dos vómitos, das insónias, das sondas, das agulhas, das vertigens, dos pés frios no chão, das camas, dos barulhos da noite, das agonias, dos suspiros, dos ais dos hospitais ou dos ai ai ai da noite escura em casa, das alavancas, das luzes de presença, dos fios, das mantas, das fraldas, das cortisonas, daqueles líquidos amarelos, dos chuveiros, dos peixes assados, das sopas de couve escaldada. Mas lembro o dr. Hugo Pinto Marques, que também vinha aos fins de semana e para me ver se debruçava à beira da minha cama. E lembro os olhos dos futuros doutores liderados em grupo por ele, com atenção ao que dizia de mim. E eu a debitar também umas graças que os faziam rir, de vez em quando.

O importante, queridas amigas e amigos, são as revelações existenciais destes mais de sete anos. Desordenadamente:

  • Deus é, não está, mas está sempre. Antinomia? Em todas as horas, está nas horas de vida e morte.
  • As minhas quatro palavras de r: resignação, renúncia, resistência, reflexão. (agora que fiquei rouca, por exemplo, resigno-me por não falar, sendo eu faladora de mais, já não posso interromper falas de alguém, nem posso exercer a maledicência, percebi que esta é uma esplêndida penitência para as maldades de mim, como dizia a mãe, muito à moda antiga: “seja por mal dos seus pecados”.)
  • A maravilha de ter tido três filhos. Diferentes. Diversos jeitos, feitios, temperamentos. Complementares. Honrados. Inteligentes. Íntegros. Cidadãos. Quatro netos. Todos com jeito de escrever, todos são das criatividades, ninguém das ciências exatas. Porque será? Como me sabem cada um amar, nas suas maneiras e nos seus modos.
  • A consciência de que ser velha é ser velha e não estar velha.
  • A diferença entre a toca que é refúgio e a gaiola que é prisão, quando estar a tempo inteiro em estado isolado de recolhimento.
  • A descoberta da casa por fora, cheia de milhões de minúsculos objetos, papéis, cartas, frases, fotos, livros, catálogos, prospetos, recortes infinitos, roupas, colares, agasalhos, t-shirts, minúsculos bikinis de grande marca carioca, agrafadores, colas , etiquetas, clips
  • E sobretudo a descoberta da casa por dentro. Então, viajo por dentro, como o Xavier de Maistre naquele livro Voyage Autour de Ma Chambre. Claro, sem falar das televisões, netflixes, hbos, facebooks com moderação, para saber estados de alma alheios, whatsapps, instragram para ver poses de pessoas.
  • A ausente presença dos meus mortos.
  • A geografia nítida de cada canto de cada espaço, de cada parede das casas todas onde vivi.
  • As sensações de vida inteira, em horas sem fim de Fundação Gulbenkian.
  • Certos momentos de amor vivido. Experimentado. Extravagâncias.
  • Muitos momentos prazerosos de escrita ou a sensação de orgasmo, nas palavras bem sucedidas, no líquido do texto. Na mensagem. Na confidência.
  • O saber de coisas do campo por causa de ter sido pequena em férias no campo e o campo que agora é meu. As plantas. Os bichos. Os ruídos e os silêncios. Os ciclos da Natureza.
  • A fraternidade. Os vizinhos. As mulheres que me servem dentro de casa. Os que me servem. Os que me ajudam. Os que me ensinam. Aqueles a quem encomendo coisas, ou a quem compro coisas, ou que me consertam coisas. Ou os amigos que são vizinhos, etimologicamente moradores em mim. Os seus sinais de presença, que podem ser sonoros mas quase invisíveis como um bicho na selva, que sabemos estar ao lado, ali.
  • Uma palavra, um telefone, um adeus, uma visita, uma carta, uma boleia, uma flor, um postal, uma sobremesa, um recado, um bolo, um café, um queres? vens? podes? estás? Vou? Vou! Um grupo por whatasapp, as amigas de há mais de 20 anos a toda a hora a falarmos. As amigas de infância, de falar a cada dia. A chamada que vem do Rio de Janeiro, os de outros lugares que resguardo.
  • Os irmãos de sangue. A família de sangue, longe mas perto. Na família de sangue, as cumplicidades. As falas de família. “Era assim”. “Sabe?”
  • Ou os padres/amigos que rezam por mim e eu por eles. A minha querida Maria de Jesus Barroso, que chegava ao meu ouvido e dizia: leonorzinha leonorzinha do meu coração todo o dia na minha oração.

Li que as velhas com projetos se safam com mais uns tempos de vida. E melhorzinhas, como diria o meu querido Mário Quartin Graça.

Espero que Assim Seja.

Amen, como a escritora brasileira Nelida Piñon sempre remata as nossas muitas conversas entre o Rio e Lisboa ou vice-versa.

(1) Ipsilon, Público, 7 de novembro de 2004