“Bom era que a gente tivesse duas vidas como no teatro, uma para ensaiar, outra para viver,” disse uma vez o escritor João Ubaldo Ribeiro ao seu compadre Jorge Amado. Conversas existenciais assim, cheias de imagens, cenários e suposições, muito agradam aos criativos brasileiros. Quando divagam sobre estes mistérios, uma coisa e outra de pensamento vão soltando, de improviso, sem limite na sinceridade. Na frase de João Ubaldo, vejo duas entre muitas outras entoações possíveis, amargas ou doces podem elas ser. Em ambas, percebo alguma melancolia, na suposição de podermos experimentar duas vidas. Talvez uma de arrependimento e consciência dos erros passados, e outra, certa e corrigida, a viver. Mas neste momento, creio que o sabor frase é amargo e dá agonia.

O que tem a frase a ver o Brasil? Tem a ver com as notícias, entre as piores que nos vão chegando, através dos meios de comunicação mais ou menos imediatos, constantes. Tem a ver e é aplicável a uma atualidade brasileira, a “consumação da vilania,” assim resumida nas palavras indignadas da minha amiga Halina Grynberg, psicanalista no Rio de Janeiro.

Imagino que melhor teria sido haver o ensaio, para vivermos a memória que irá ficar na história contemporânea. Porque muitos ensaios poderiam ter sido feitos, a preparar o espetáculo. A desgostosa tragédia política e social a que vamos assistindo, neste palco do mundo, talvez não tivesse acontecido.

Mas as campanhas eleitorais podem ser enganosas. Os imensamente ricos e as classes médias entregaram o seu voto ao vencedor, por raiva ao PT e terror de bandidos, assaltos, tiroteios. A imensidão dos espaços e distâncias, a ignorância e a pobreza cativaram parte dos 57,7 milhões de brasileiros que elegeram este presidente. São alguns destes que todas as semanas se manifestam e se agitam em Brasília, e gritam palavras de ordem, sem entenderem que, em frente do Palácio do Planalto, estão a apoiar a razão da sua própria desgraça.

A vida não tem ensaios, sempre ouvi dizer. Esperemos o desenrolar do espetáculo, ou os próximos capítulos da novela que é tragédia feita comédia.

Por educação, para falar de velhos, dizia-se “uma pessoa de idade.” Nos jornais, era normal a pequena nota sobre o “sexagenário” atropelado ou enganado ou explorado ou desaparecido. Quando cheguei aos 60 anos, critiquei. Entretanto, quem chegasse à “terceira idade,” passou à categoria de “senior.” Ganhou direito a descontos em circunstâncias enunciadas e preferência de lugares sentados nos transportes públicos, se tivesse um aleijão, uma deficiência e usasse bengala, a demonstrar a falta de mobilidade. “Idoso” foi a última palavra usada no expediente, a mais odiosa, triste, repugnante. E agora, os idosos passaram a chamar-se “velhos”, outra vez. São tema de moda e atualidade porque moram, adoecem, infetam-se nos lares. São “utentes” e morrem nos lares. Os seus corpos são deliciosa instalação para o vírus. Até lá, podem agora receber uma visita por semana, com o rigor da obediência às determinações da Direção Geral de Saúde.

Agora, que a sociedade está separada por escalões, temos os jovens de um lado e os velhos do outro, intercalados pela faixa dos casais com filhos pequenos. Sem falar da possível inconsciência dos jovens, das aflições dos casais, das doenças dos velhos, lembro a diversidade imensa de gente que faz as multidões, os anónimos, os invisíveis, os aflitos que não têm nome nem fazem número. Os velhos parecem distinguir-se, uns e outros, conforme classe, acesso, condição. Rústicos ou urbanos, norte ou sul. Mas os números são frios, a respeito destes cidadãos que a sociedade resolveu arrumar na gaveta das verdades até hoje ignoradas, disfarçadas, escondidas. Por causarem incómodo, chatice, despesa, essas verdades  não constavam da ordem do dia, nas prioridades formais de cuidado e assistência.

Para esconjurar a tristeza, transcrevo o desabafo do amigo brasileiro, que pelo whatsapp, com fluência e algum humor comenta o prenúncio da morte, na instalação do medo que abala a maioria: “A velharada é o fim da linha, as velhas ficam trancadas em casa para não pegar a doença, os filhos levam elas para cima e para baixo, para cá e para lá. Nós estamos no lucro, ainda…”

Mas a realidade não tem nenhum humor. Há menos de uma semana, um terço dos mortos em Portugal vinham de lares, talvez por demorarem a chegar aos hospitais depois dos primeiros sinais de infeção. “Quem quer ir para o hospital? Só na última das últimas,” foi explicação que outra amiga tentou achar. As proporções impressionam, quando se fala em curva de mortalidade. Entre os 60 e 69 anos, os mortos eram  3 por cento do total de mortos no nosso país. Entre os 70 e 79, a percentagem triplicou, foi de 9,3 por cento. Depois dos 80 anos, foi então de 18,6 a percentagem apurada. Dois em cada dez mortos eram as tais pessoas de idade, que por idade ou quadro anterior de doença foram arrebanhadas pelo vírus que veio para matar.

Por todas as razões “na pandemia de Covid-19, os idosos estão em perigo em toda a Europa. O número dramático de mortes nos lares dos idosos é arrepiante,” afirma a Comunidade Sant’Egídio, desde sempre empenhada na defesa dos direitos humanos. Em aviso e apelo aos sistemas públicos e às boas práticas de saúde, é agora divulgado o documento subscrito por personalidades de países diversos. Neste documento, é evocada a “cultura do descarte,” na definição do Papa Francisco, para dizer a situação dos velhos escolhidos para morrer, massacrados em sacrifício para salvar as vidas de outros. “A tese de que uma expectativa de vida mais curta leve a uma diminuição ‘legal’ do seu valor é, por um ponto de vista jurídico, uma barbárie,” diz ainda o documento. Que exige o direito universal aos cuidados médicos e a igualdade dos tratamentos, para todos.

Os velhos não podem perder a identidade, reduzidos a nada, como se fossem objetos e não pessoas a quem devemos respeito e dignidade.