Mais de 400 meninas casarão no tempo que demorará a ler este artigo. Mas não desista já, pois elas casarão de qualquer modo.

Casarão em cerimónias mais ou menos públicas, dependendo do estado da legislação do país em causa. Mas, mesmo nos países onde o casamento precoce, infantil, forçado é proibido, ele não deixa de acontecer, sob a capa do silêncio de familiares, de membros da comunidade, de agentes da autoridade. São pais que vendem filhas para poder alimentar as outras crianças, que as dão em troca de um favor, em pagamento de uma dívida ou mesmo acreditando que, casando-as, as estão a proteger de uma vida miserável ou de violência.

Casarão com idades tão precoces como os 5 anos, abandonarão a escola, não terão acesso a serviços de saúde, iniciarão a sua vida sexual de uma forma abrupta, sem qualquer possibilidade para poder dizer não ou para se proteger de infeções, como o VIH, ou de evitar uma gravidez indesejada e que não conseguem carregar, física e psicologicamente.

Como não frequentarão a escola e dificilmente adquirirão uma competência, desaparecerão do espaço público, perderão qualquer voz na tomada de decisões que afetam as suas vidas, as vidas das suas comunidades e até dos seus filhos e filhas… pura e simplesmente deixarão de contar.

Mas vamos nós contar: 39.000 crianças casam todos os dias; são 14 milhões todos os anos.

E vamos falar delas. Vamos falar de Rajani, 5 anos, levada muito depois da meia-noite, ao colo do tio para o seu casamento. Vamos falar da menina de olhos tristes que acaba de perder o direito à infância e que apenas imagina o que a espera, num país onde o casamento infantil é ilegal e, por isso, se realiza pela calada da noite, embora seja um segredo que toda a aldeia conhece.

Vamos falar de Jamila, 15 anos, esfaqueada várias vezes pelo marido e pai das suas duas filhas, por lhe ter desobedecido. Vamos falar de Mejgon, 16 anos, que foi vendida pelo pai quando tinha apenas 11 anos, a um homem de 60 anos, em troca de duas caixas de heroína.

Mas também podem ir vê-las. Podem ir ver Rajani, Jamila e Mejgon. Vão vê-las na exposição fotográfica ‘Novas Demais para casar,’ do Fundo das Nações Unidas para a População com a Agência VII, trazido para Portugal pela Campanha da sociedade civil ‘Continuamos à Espera’, com o apoio do Instituto Camões. Pode ser visitada até dia 15 na sede da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa.

E, quando lá estiverem, chorem as lágrimas de Sarita, 15 anos, antes de ser levada para a sua nova casa no dia a seguir ao seu casamento; vejam Asia, 14 anos, a lavar o seu bebé recém-nascido, sangrando ainda do parto, enquanto a sua filha de 2 anos brinca ao seu lado; enterneçam-se com Niruta, 14 anos, que grávida de nove meses, colhe relva para os animais da sua família, sorrindo a um futuro que desconhece e teme. Mas vejam também as mensagens de esperança no rosto de Nujood, 12 anos, 2 anos depois de se divorciar do marido 20 anos mais velho; dos membros do Fistula Girls Club que desencorajam os casamentos precoces através da arte; ou o caso do Projeto de Reabilitação que recebe meninas de rua, três quartos das quais fugiram de casamentos precoces.

Vejam todas as fotos, leiam as legendas, consultem a infografia, e compreendam o que é esta realidade do casamento infantil: uma violação grosseira dos direitos humanos de milhões de pessoas, que as impede de atingir o seu potencial humano, de ter uma vida digna e realizada, de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.

Ninguém fica igual depois de ver esta exposição. No mínimo, vai querer ajudar à criação de uma consciência global para esta epidemia e para sua dimensão, vai querer resgatar aquelas vidas adiadas, e lutar para garantir a erradicação desta prática.

Em Portugal damos passos firmes para a criação do crime de casamento forçado, em sintonia com a Convenção de Istambul e da qual Portugal foi o primeiro país da União Europeia a ratificar, pugnando pela inclusão do fim dos casamentos precoces na agenda de cooperação global para o pós-2015. Globalmente, é necessário reconhecer que esta violência, esta prática tradicional nefasta, condena milhares de crianças todos os dias a uma vida sem opções, lhes nega os direitos fundamentais de qualquer ser humano. E entre eles está escolher quem e quando se ama.

Vice-presidente do grupo parlamentar do PSD; Coordenadora do Grupo Parlamentar Português sobre População e Desenvolvimento; Membro do Comité Executivo do Fórum Europeu de Parlamentares sobre População e Desenvolvimento