1 Já quase tudo terá sido dito sobre as eleições parlamentares do passado dia 18 do corrente mês de Maio. Mas vale seguramente a pena recordar um aspecto fundamental: foram eleições livres e pacíficas. [Com a subtil excepção de uma agressão a um socialista, Miguel Coelho, Presidente da freguesia lisboeta de Santa Maria Maior, por parte de um membro do Chega – que não foi, no entanto, endossada pelo chefe deste partido].
Eleições livres e pacíficas felizmente distinguem os últimos 50 anos da vida política portuguesa – ao contrário, aliás, do que apregoam os cartazes do partido Chega, que saloiamente definem os 50 anos de democracia como compadrio e corrupção.
2 O corolário de eleições livres e pacíficas é que os seus resultados são legítimos e devem ser respeitados – gostemos ou não deles.
Esta é a grande lição que tem sido incansavelmente repetida por todos os grandes teóricos da democracia liberal – desde, pelo menos a “Gloriosa Revolução” inglesa de 1688-89 (“conservadora e liberal”, segundo o distinto historiador G. M. Trevelyan) e a Revolução americana de 1776 (“moderada”, segundo Lord Quinton), mas diferentemente da Revolução francesa de 1789 (“despótica”, ainda segundo Lord Quinton, retomando o argumento do Whig Edmund Burke).
3 Curiosamente, uma das heranças perenes e pouco questionadas da Revolução francesa de 1789 foi a distinção crucial entre “Direita” e “Esquerda” – à qual foi atribuída uma dimensão “moral”. Para cada um dos lados, o outro era “imoral”, ou “oligárquico”.
Daqui nasceu a “infeliz dicotomia entre Antigo Regime e Revolução, entre a servidão e o abuso”, segundo o ilustre aristocrata (talvez simultaneamente liberal e conservador) Alexis de Tocqueville, grande admirador das Revoluções inglesa e americana.
Com efeito, as Revoluções inglesa e americana nunca introduziram uma distinção moral entre “Direita” vs. “Esquerda”. Pelo contrário, sublinharam desde o início a importância crucial da pacífica concorrência entre (pelo menos) dois partidos rivais, igualmente legítimos em termos morais e igualmente comprometidos com as regras do jogo democrático-parlamentar.
“Centro Vital” foi a expressão daí emergente, com particular inspiração na Revolução inglesa de 1688-89, onde moderados conservadores (“Tories”) e moderados liberais (“Whigs”) se aliaram (sem nunca se fundirem) para derrotar os extremismos rivais de ambos os lados.
4 Curiosamente também, mas não surpreendentemente, a dicotomia moral francófona entre direita e esquerda foi adoptada entre nós pela ditadura do Estado Novo (contra a “esquerda”) e retomada por sectores radicais após o 25 de Abril (contra a “direita”), designadamente pelo PCP.
Esta infeliz dicotomia francófona foi enfaticamente rejeitada entre nós por inesquecíveis líderes moderados – como Mário Soares e Maria Barroso, Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Diogo Freitas do Amaral, António Ramalho Eanes, Jaime Gama, Aníbal Cavaco Silva e José Manuel Durão Barroso, para citar apenas os mais destacados.
5 Curiosamente também – e talvez também não surpreendentemente – a dicotomia moral francófona entre “direita” e “esquerda” está agora a ser retomada por sectores radicais da chamada “woke right”, copiando os sectores radicais da chamada “woke left”.
Esta terminologia foi recentemente recordada por Jemima Kelly na sua crónica da passada segunda-feira, 19 de Maio, no Financial Times de Londres (p. 16). Diz ela que “não se trata de (a “woke right” e a “woke left”) terem as mesmas políticas, mas de terem a mesma maneira de olhar para o mundo, e de usarem os mesmos métodos para atingirem os seus fins”.
E prossegue: “Para a ‘woke right’, os marginalizados constituem obviamente grupos diferentes, mas o olhar é o mesmo, com a consciência étnica no cerne e a ideia de que o ‘sistema’ está estruturalmente manipulado contra eles. (…) E enquanto a esquerda estava apostada em ‘defund the police’, Trump está agora a ‘defund the academy’, retirando milhões de dólares a Harvard”.
Já agora, convém recordar que, depois da publicação da crónica de Jemima Kelly, Trump mandou expulsar os cerca de 7 mil estudantes estrangeiros de Harvard – o que foi imediatamente suspenso por um parecer dos Tribunais. Como se não bastasse, Trump anunciou na sexta-feira passada a intenção de impor tarifas de 50% às exportações da União Europeia – ameaçando mais uma vez a Aliança Euro-Atlântica que Winston Churchill definira como crucial para a defesa do Mundo Livre.