Donald Trump mudou o mundo. Disso não há qualquer dúvida. O problema é ter mudado o mundo para pior. O mundo ocidental, e não só, entrou num período em que as relações entre Estados são reguladas pela desconfiança, insegurança, para além das capacidades militares. Trump originou uma corrida ao rearmamento. E esta foi a pior consequência por ser expectável que a corrida não se cingisse ao armamento convencional.
Há uma semana escrevi (Linkedln, Facebook e Substack) que o tempo tinha dado razão a Charles de Gaulle e à sua insistência na necessidade de a França ter as suas próprias armas atómicas porque os EUA acabariam por ter relutância em utilizar as suas armas nucleares para defender os países europeus contra a União Soviética ou agora contra a Rússia de Putin. Acrescentei que era muito provável que a Polónia considerasse a possibilidade de adquirir armas nucleares e que a Alemanha seria confrontada com a eventualidade de fazer o mesmo. Ontem, (7 de março), Donald Tusk, confirmou que a Polónia quer ter armamento nuclear. A Rússia já se manifestou contra estas possibilidades.
Não é que Trump não tenha razão quanto aos orçamentos de defesa dos membros Europeus da NATO (já várias vezes defendi o reforço do investimento na defesa e segurança). O problema é que Trump não percebeu que a protecção americana também evitava a proliferação nuclear. Assim, quem arrisca uma terceira guerra mundial é Trump.
Infelizmente, as declarações de Trump e de Vance sobre a NATO e sobre os aliados europeus, tiveram o efeito de descredibilizar definitivamente a Aliança. Ao minarem a confiança afectaram irremediavelmente a relação transatlântica. Doravante serão os interesses de conveniência que regularão as relações entre a Europa e os EUA. Se, eventualmente, uma próxima administração norte-americana tiver posições mais próximas dos europeus, estes vão presumir que essa aproximação é conjuntural, dependente de próximo ocupante da Casa Branca.
Não é difícil chegar a esta conclusão. Quando a confiança é afectada, dificilmente é restaurada. Como tal, a relação transatlântica em vez de ser regulada pela confiança passará a sê-lo pela desconfiança.
Para além disso, reparem no seguinte. Sob a iniciativa e liderança dos EUA, os membros da NATO formaram uma comunidade de valores comprometida com os princípios da liberdade individual, da democracia, dos direitos humanos e do Estado de direito. Trump e Vance questionam a NATO e Elon Musk é um dos que defende que os EUA devem abandonar a Aliança. Porquê?
Todavia, a aproximação e o alinhamento com a Rússia, evidenciado pela repetição da propaganda do Kremlin que o próprio Donald Trump faz, teve mais efeitos para além do afastamento dos tradicionais aliados dos EUA e na reversão de décadas de política externa norte-americana. Também aumentou a dúvida e a desconfiança de que Trump age sob as ordens de Putin. E essa percepção já não se cinge aos europeus. Como resultado, não são apenas os países ocidentais que receiam partilhar informações com os EUA. Também outros países aliados, incluindo Israel e a Arábia Saudita, consideram limitar a partilha com medo de que a mesma vá parar a Moscovo. Trump conseguiu isolar os EUA.
Um dos meus melhores amigos é o José António Rodrigues do Carmo. Ambos pensamos pela nossa cabeça sem preocupações de agradar a ninguém. Nem sempre estamos de acordo, mas partilhamos os mesmos valores. Também partilhamos a estupefação de, primeiro, ver pessoas que diziam que Ronald Reagan tinha sido o melhor presidente dos EUA, apoiar cega e acriticamente Donald Trump que representa a antítese e a negação de tudo o que Reagan defendeu. Segundo, tal como o Rodrigues do Carmo também já expressei em vários escritos o meu pasmo pela incapacidade relativamente à compreensão das coisas simples:
- Se a Rússia parar de lutar, acaba a guerra.
- Se a Ucrânia parar de lutar, acaba a Ucrânia.
Não é possível confiar em Donald Trump. Esta é a realidade com que temos de viver. Quanto mais cedo o aceitarmos, melhor!
Agora que começam a perceber que não perdem nada em investir em defesa e segurança, no que respeita à compra de armamento, os Europeus só devem recorrer ao EUA em último caso. Caso contrário, tal como aconteceu à Ucrânia, arriscam a ficar indefesos.
Vários países europeus, como por exemplo, Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Suécia, produzem armamento e tecnologia de ponta (aviões, tanques, mísseis, cibersegurança, etc.). A tecnologia que a Ucrânia está a desenvolver com os drones também é de aproveitar. E no caso de aviões de combate de 6ª geração, o Japão, que está a desenvolver um avião em parceria com a Itália e o Reino Unido é uma opção.
Se vamos gastar dinheiro na compras de armas, devemos investir na produção e no desenvolvimento da indústria europeia.