Se a celeridade com que os novos desenvolvimentos no Afeganistão têm chegado diariamente aos nossos ecrãs tem sido avassaladora, a volatilidade e rapidez da evolução dos acontecimentos no terreno é certamente pior, num quadro que parece estar a tornar-se rapidamente num jogo de soma negativa a mais níveis do que os já expectáveis.

Foi com alguma surpresa que assisti às declarações do líder americano na passada quarta-feira, anunciando que não iria prorrogar a data anunciada, tendo pedido aos aliados que sigam a mesma linha de actuação e cumpram com o prazo. Muito se especulou se Biden adiaria ou não a data de retirada, agendada para 31 de Agosto, dado os impedimentos logísticos e burocráticos de uma operação apressada e pouco consensual.

Tudo indicava que não haveria outra hipótese senão adiar, dada a impossibilidade prática de retirar toda a gente a tempo e em segurança, principalmente face aos obstáculos crescentes que os pontos de controlo talibã e militares americanos têm vindo a criar no acesso ao próprio aeroporto. De mencionar que o encerramento precoce das bases aéreas de Kandahar e Bagram, estrategicamente vitais para a logística de uma saída mais fluida, apenas veio contribuir para o caos que a cada dia se agrava no aeroporto de Cabul.  Mais uma decisão de gestão danosa de um acontecimento que, como já defendi, terá implicações duradouras a nível regional e internacional.

Na base desta decisão esteve a ameaça do ISIS-K – ou Estado Islâmico de Coraçone, aliado local do grupo-mãe Estado Islâmico ou Daesh –, que, segundo fontes do Pentágono, estaria na iminência de executar um ataque terrorista no aeroporto de Cabul.

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Esta quinta-feira, a teórica ameaça, infelizmente, concretizou-se e pelo menos dois ataques terroristas foram levados a cabo no exterior do aeroporto internacional Hamid Karzai e no Hotel Baron em Cabul. Instalou-se a dúvida sobre a autoria dos ataques por umas horas, entre o ISIS-K, forças de oposição interna ou até outro qualquer grupo descontente com o regresso dos talibãs ao poder. O Pentágono confirmou posteriormente que a autoria coube, de facto, a um bombista suicida e a um carro-bomba a mando do ISIS-K, tendo o Estado Islâmico acabado por reivindicar oficialmente a autoria, vitimando pelo menos 90 pessoas – incluindo 13 soldados americanos e também guardas talibãs – e deixou mais de meia centena de feridos, na sua maioria afegãos.

Face aos acontecimentos recentes, um dos ângulos que agora mais importa analisar é a questão do terrorismo. Afinal, foi esta mesma ameaça que serviu de mote à invasão americana em 2001. Quais serão os possíveis cenários no médio e longo prazos em matéria de contraterrorismo? Voltará o Afeganistão ao pré-11 de Setembro, não só no seu jugo doméstico repressivo – se conseguirem chegar às negociações para uma sólida estrutura de Estado –, mas como centro global do jihadismo? Será tomado de assalto pelo Estado Islâmico, que por sua vez pode vir a despoletar intervenções militares, desta vez russas e até chinesas? Haverá triunfo da Frente Islâmica Unida para a Salvação do Afeganistão – também conhecida por Aliança do Norte –, apoiada pela China, Rússia e Irão, potências tradicionalmente apoiantes do lado xiita da barricada e com os seus próprios interesses económicos e políticos em contribuir para a estabilidade na região? Não esquecendo o Paquistão, porto de abrigo dos talibãs nas últimas duas décadas na região Pashtun, no Noroeste do país, nação à qual o retorno à violência não servirá os seus interesses estratégicos, até porque parece ter intenção de que o Afeganistão sirva de campo de treino de jihadistas ao serviço de ataques na Índia e para a guerra em Kashmir, como já o foi no passado. O futuro é, neste momento, extremamente difícil de prever.

Como recordou o agora reformado General David Petraeus, uma das maiores figuras da Guerra ao Terror, em entrevista à The New Yorker, os extremistas islâmicos irão sempre tirar proveito de espaços sem governo ou espaços governados por quem segue as mesmas linhas doutrinárias no mundo muçulmano. Estes vácuos de poder são muito curtos e requerem uma actuação eficaz por parte de quem os quer preencher. Foi o que vimos no Iraque em 2011, com o nascimento do Estado Islâmico no vácuo de poder criado pela retirada americana, e é o que agora vemos repetido com a tomada do poder pelos talibãs e com os mais recentes ataques terroristas deste braço do Daesh, que aguardou pacientemente nas sombras pela sua oportunidade para agir, seguindo o calendário que Washington foi desenhando nos últimos anos.

A al-Qaeda, grupo historicamente aliado dos talibãs, não verá nesta situação um cenário positivo para o seu crescimento tático e operacional. Isto porque é altamente indesejável para os talibãs que novos ataques terroristas internacionais tenham origem no território afegão, abrindo as alas a mais intervencionismo como o que resultou do 11 de Setembro e, por conseguinte, um interregno de 20 anos no seu projecto fundamentalista.

Já o Estado Islâmico, sendo o Afeganistão um território de enorme importância geoestratégica na Ásia Central, com fronteiras porosas, geografia acidentada e muito armamento disponível a quem o agarrar primeiro, o interesse é elevadíssimo. Principalmente quando é um grupo que vê nos talibãs um inimigo consagrado, a sua maior oposição, um grupo que, aos seus olhos e em linha com a Al-Qaeda, abdicou da “verdadeira causa” em prol do nacionalismo afegão, escolhendo não perseguir o sonho do regresso ao califado nos moldes pré-1924.

Com os Americanos e restantes forças aliadas fora da fotografia e tendo o seu braço ISIS-K presente em força no terreno e com grande capacidade operacional, dado contarem já com vários dissidentes talibãs nas suas fileiras, o Estado Islâmico goza de uma situação privilegiada neste vácuo de poder ainda não preenchido por uma liderança talibã, francamente desorganizada, que falhou no planeamento estratégico do seu retorno apesar do tempo de que dispôs para o fazer. O que é certo é que estes dois atentados foram apenas os primeiros de uma onda de violência que não terminará tão cedo.

Na eventualidade de os talibãs conseguirem conter os avanços do ISIS-K, por um lado, e da Aliança do Norte, por outro, chegando finalmente à mesa de negociações de um futuro governo afegão sob a sua alçada, deverá ser prioridade dos Estados Unidos, União Europeia e restantes aliados da NATO coordenar e manter uma estratégia de contraterrorismo sólida e pressionar continuamente os governos da região para que façam o seu papel para prevenir que o Afeganistão se volte a tornar no centro global do movimento jihadista. Seja qual for o desfecho, os cenários não são animadores para os afegãos. 

Toda esta situação fez-me pensar na questão lançada por Tony Blair, num artigo de opinião publicado no seu Institute for Global Change: a ameaça do terrorismo islâmico deve passar a ser vista pelo Ocidente como um desafio estratégico concertado e focado no longo prazo ou deve cada ameaça ser encarada como um problema em separado? Diria que é uma dicotomia que deve coexistir em equilíbrio.

Joe Biden parece ter optado pela segunda opção, a julgar pelo tom e os termos ameaçadores com que colocou a actuação americana na retaliação aos ataques terroristas desta quinta-feira. O presidente referiu que os Americanos não perdoarão, não esquecerão e não se deixarão intimidar pelos actos do ISIS-K, e que o contra-ataque será preciso, num local, data e da maneira que eles considerem como adequados. Novamente, uma demonstração de Realpolitik americana que cada vez menos se alinha com aquele que é um problema de segurança global.

Esta coexistência não se prende apenas com o aspecto global desta ameaça à paz e segurança – e que, por isso, carece de uma estratégica consistente e alinhada –, mas também com o facto de que as estratégias para enfrentar, regional ou localmente, a Al-Qaeda, o Estado Islâmico, o Boko Haram, o Al-Shabab ou qualquer outro grupo terrorista organizado têm que obedecer ao contexto e às realidades políticas, culturais e militares em que se inserem. De maior importância no futuro será o foco na melhoria da interacção e comunicação entre as vertentes política, militar e de intelligence na execução destas mesmas estratégias, algo que actualmente ainda apresenta lacunas graves. 

Há momentos na História que são precursores de profundas mudanças de paradigma e que alteram o que será a realidade para as gerações vindouras. Momentos que, dado o volume de informação que temos, já não podem ser varridos para debaixo do tapete ou escondidos em quartos escuros em caves dos serviços secretos. Momentos em que os fait divers de glórias hegemónicas passadas ou narrativas humanistas pela liberdade e democracia já não merecem palco perante o rasto de destruição e de sofrimento que estas decisões deixam no seu caminho. Momentos que apelam desesperadamente ao regresso pelos compromissos com os valores democráticos e de respeito pela condição humana como definidores das políticas, e não o inverso.

Este é um desses momentos. Que saibamos estar à altura dos desafios que virão, cumprir com as nossas obrigações e receber de braços abertos todos aqueles que há tanto procuram a paz.