Javier Milei entrou de motosserra em punho. Elon Musk despediu metade dos funcionários do Twitter por email, e ainda teve tempo para brincar aos conselheiros presidenciais com Trump, criando o famigerado DOGE, que avançou com cortes e eliminações de organismos públicos em nome de uma eficiência implacável, mas com resultados duvidosos. Ficou célebre, aliás, o seu email aos trabalhadores públicos a perguntar: “O que fizeram vocês pela eficiência esta semana?”
Portugal não é Buenos Aires, nem Palo Alto, nem Washington DC. Mas também por cá temos o nosso Leviatã: um Estado que cresce e se multiplica, não apenas em número de funcionários, mas em organismos, institutos, empresas públicas e investimentos que muitas vezes mais parecem estratégias de sobrevivência política do que planos sustentáveis.
Não tenho dúvidas de que o Estado precisa de emagrecer. A questão fundamental, para mim, é emagrecer onde, quanto e com que visão.
É tentador reduzir esta conversa a números. E sim, temos hoje mais de 754 mil trabalhadores públicos, um aumento de quase 5% desde 2020 e de 3,6% desde 2011. Mas o verdadeiro problema não está apenas nas pessoas. Está sobretudo nas estruturas que continuam a proliferar, nas empresas públicas que consomem recursos colossais e cujo retorno, mesmo quando existe, dificilmente compensa os milhões que o Estado lhes injeta. TAP, RTP, EFACEC… não é difícil ver onde mora a gordura.
E há mais: direções-gerais sobrepostas, institutos com funções duplicadas, fundações públicas que continuam abertas por conveniência política, apesar de já não terem razão de existir. É esta teia institucional, disfarçada de normalidade, que mais pesa no bolso de todos.
Entretanto, o debate repete-se. Surgem os mesmos slogans: “É preciso reformar”, “É preciso cortar”, “É preciso modernizar”. E logo aparecem voluntários prontos a liderar a “transformação”. O que me incomoda não são os slogans, são as candidaturas oportunistas aos cargos de decisão. Vejo partidos a tentar empurrar nomes para posições-chave da Administração Pública que têm tudo… menos experiência real de terreno. Isso, para mim, é um insulto. Aos contribuintes, e a quem trabalha diariamente para manter os serviços públicos a funcionar, muitas vezes em condições difíceis.
A Administração Pública não é um palco para experiências políticas, nem um prémio de consolação para carreiras falhadas. Reformá-la exige muito mais do que uma boa teoria, palavras bonitas ou um currículo vistoso. Exige saber como funciona o Estado por dentro e ter noção do preço de cada decisão.
Falo com conhecimento de causa. São mais de 20 anos ao serviço da causa pública. Vi o melhor e o pior da máquina estatal. Sei que há funcionários públicos a fazer milagres com poucos recursos, mas também sei que há zonas de conforto onde reina a inércia. Por isso, não hesito: o Estado precisa de cortes. Mas cortes inteligentes, cirúrgicos, feitos para melhorar, não apenas para mostrar serviço.
O risco de confundirmos gordura com músculo é real. Cortar médicos ou professores é atacar o músculo vital. Mas manter organismos redundantes, ou empresas públicas que servem mais para alimentar egos políticos do que para prestar serviço útil, ou seja, a verdadeira gordura. E é aí que a faca deve entrar, sem hesitação.
Não podemos esquecer que, em muitas regiões do nosso país, o emprego público é o último reduto de estabilidade social. No interior, o Estado é, muitas vezes, o único empregador que garante dignidade e continuidade. Cortar postos públicos ali, sem criar alternativas reais, não é eficiência: é abandono. E este equilíbrio tem de estar sempre presente.
Por isso, quando penso no perfil ideal para liderar esta transformação, seja ministro, seja secretário de Estado, vejo três qualidades essenciais: experiência prática no terreno, coragem para enfrentar interesses instalados e visão para modernizar sem destruir. Não basta boas intenções ou retórica afinada. É preciso ter vivido a realidade da Administração Pública, ter mostrado resultados e, sobretudo, ter a independência e a coragem de resistir às pressões partidárias que ainda veem o Estado como extensão das suas agendas eleitorais.
Esse líder não será um académico brilhante nem um político profissional que só conhece o Estado por fora. Será alguém com cicatrizes de quem já tentou mexer no sistema, e que sabe que as reformas verdadeiras não se fazem para as câmaras de televisão, mas no silêncio dos gabinetes, dia após dia.
Portugal precisa de um Estado mais ágil, mais justo e mais eficiente. Mas essa transformação não se faz com tweets, nem com powerpoints coloridos, nem com frases sonoras. Faz-se com trabalho sério, com escolhas difíceis e com liderança que entenda que reformar não é só cortar: é saber reconstruir para servir melhor.
Na minha opinião, ou encaramos este desafio com inteligência e determinação, ou continuaremos a alimentar um Leviatã que, mais cedo ou mais tarde, acabará por nos esmagar.
E se dúvidas houvesse, eu sei bem de que lado estou: a favor de uma Administração Pública moderna, eficiente e humana, mas também implacável contra o desperdício e a mediocridade. E, acima de tudo, liderada por quem sabe o que é servir o Estado. Não por quem só quer servi lo… à sua própria medida.