Nos últimos anos, tenho-me deparado com o termo “epidemia de ansiedade” para descrever o impacto nefasto que este mecanismo neurobiológico tem na nossa saúde física e mental. Contudo, considero o termo profundamente equívoco, pois desvia o olhar da verdadeira questão: não é a ansiedade o problema — é a intolerância ao sofrimento.
Enquanto sociedade moldada por ideais de alto desempenho e por modelos médicos centrados no diagnóstico, habituámo-nos a encarar a doença mental como algo que nos define e diminui – uma espécie de erro identitário que, uma vez nomeado, passa a ocupar a totalidade de quem somos. Assim, torna-se quase inevitável que olhemos para a ansiedade, ou para qualquer outra afeção mental, como um intruso que ameaça o ideal de funcionamento pleno. Mas talvez seja aqui que resida uma das principais confusões: a maioria das condições mentais não são doenças, mas perturbações, ou seja, desregulações que expressam um desequilíbrio na forma como nos adaptamos ao meio (e não entidades biológicas fixas ou degenerativas). E quem é que nunca se sentiu “desregulado” em algum momento da sua vida?
A doença, na aceção médica clássica, implica lesão, dano ou alteração estrutural. Já a perturbação implica desorganização, disfunção e um conflito entre os sistemas internos. Com base nisto, podemos olhar novamente para a ansiedade e perceber que não se trata de um corpo estranho no organismo, mas um mecanismo inato (que nasceu connosco) e um dos mais antigos e sofisticados recursos da nossa espécie para sobreviver.
A ansiedade, enquanto processo emocional complexo, surge quando o cérebro deteta uma discrepância, isto é, quando percebe um desfasamento entre o estado atual e o estado desejado, esperado ou seguro. É uma resposta natural à incerteza ou ausência de segurança. O organismo deteta que algo “pode não correr bem”, mesmo que ainda não tenha acontecido nada de objetivamente ameaçador. Parece-lhe familiar?
Com isto, o nosso sistema nervoso, evoluído ao longo de milhões de anos, ativa um mecanismo de luta ou fuga, que mobiliza todo o sistema para eliminar o perigo ou afastar-se dele. Longe de ser um castigo, este mecanismo é simultaneamente um milagre biológico e um dilema psicológico. De facto, quando o perigo é real, podemos dizer que a resposta é adaptativa e ajustada às circunstâncias, como quando estou em plena savana africana e temo o aparecimento de um leão, contudo quando o perigo é apenas interno, feito de pensamentos, memórias ou cenários imaginados, entramos num ciclo de luta contra o próprio desconforto (quem é que já não antecipou uma terrível reunião com o chefe e se sentiu afetado dias antes de tal evento ocorrer?). Isto revela-nos que tentamos eliminar o que sentimos, em vez de compreender o que o sentimento nos quer dizer.
É assim que a ansiedade, um mecanismo concebido para nos proteger, se transforma em algo que nos aprisiona. A nossa mente, permanentemente em modo de alerta, passa a identificar como ameaças os próprios conteúdos internos — as emoções, sensações e pensamentos. E parece que quanto mais tentamos fugir destas experiências, mais se intensificam e nos roubam liberdade. O evitamento do “perigo”, que há milénios nos salvou dos tigres dente-de-sabre, converte-se, no presente, num padrão perpetuador do sofrimento.
Um dos principais gatilhos da ansiedade é precisamente a ausência de segurança, por isso repito, várias vezes, que o seu verdadeiro antídoto não é a ausência de tensão, mas a perceção de que, mesmo sob tensão, podemos estar seguros. O sistema nervoso não procura calma, mas previsibilidade e confiança. Podemos estar fisicamente em repouso e, ainda assim, internamente em alerta; ou enfrentar um desafio intenso e, paradoxalmente, sentir tranquilidade, porque há um sentido de base segura, seja uma relação, um espaço, uma crença ou uma prática interior. Enquanto tentarmos eliminar a ansiedade através da fuga, da distração ou do controlo excessivo, ela persistirá. Só quando o corpo e a mente repousam em segurança — interna e externa — é que o sistema ansioso se desativa.
Neste ponto, é importante recordar as distorções cognitivas típicas da ansiedade e que alimentam o fogo que arde lentamente. Tendemos a sobrevalorizar o negativo, a prever catástrofes, predizer o futuro, tentar ler a mente dos outros e a confundir possibilidade com certeza. A mente ansiosa cria realidades inteiras a partir de hipóteses e o corpo responde como se fossem factos reais. Com o tempo, esta hiperativação constante esgota os sistemas de autorregulação, conduzindo a perturbações secundárias como a depressão, fadiga, insónia, irritabilidade, despersonalização, entre outros.
Recebo inúmeras pessoas que, perante tal desgaste, se sentam à minha frente e dizem sentir-se fracas. Recordá-las que a vulnerabilidade e a fraqueza não são sinónimos é uma das tarefas mais exigentes do trabalho clínico. A solução, portanto, não está em eliminar a ansiedade, mas em transformar a relação que temos com ela — e isso começa pela forma como a interpretamos.
É aqui que as práticas de atenção plena (mindfulness) e autocompaixão assumem relevância clínica e existencial. Ao cultivar a capacidade de observar pensamentos e emoções sem lhes reagir automaticamente, começamos a desenvolver tolerância ao desconforto — uma competência cada vez mais rara, mas essencial e que me foi muito útil no processo pessoal de lidar com a ansiedade (sim, um psiquiatra também sofre).
A autocompaixão, por sua vez, pode oferecer um contraponto emocional que nos move da esfera racional onde a ansiedade prospera, para a esfera da emoção sentida sem julgamentos — em vez de lutar contra o sofrimento, aprendemos a acolhê-lo como parte inevitável da condição humana.
Esta mudança de postura interna tem efeitos que nos transcendem enquanto indivíduos. Uma sociedade que tolera o desconforto é uma sociedade menos impulsiva, menos polarizada e menos dependente de gratificações imediatas. Basta olharmos para as sociedades orientais, assentes em filosofias de atenção plena, respeito pela natureza e aceitação radical do sofrimento, para percebemos o impacto que isto pode ter. Talvez seja exatamente por esse motivo que, ao longo das últimas décadas, estes conceitos seculares têm sido importados para o modelo médico atual com um profundo impacto no bem-estar.
Atrevo-me a afirmar que o verdadeiro desafio do nosso tempo não é erradicar a ansiedade, mas reaprender a “sofrer com sabedoria”, algo que nos exige uma mudança de paradigma: abandonar a ideia de que o bem-estar é a ausência de dor, reconhecendo que a instabilidade, o desconforto e o sofrimento são o par perfeito de uma vida plena.
João Perestrelo é médico psiquiatra, psicoterapeuta e um ser humano ansioso. Co-fundador da Clínica Mind House, é assistente convidado de várias instituições de ensino, nomeadamente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Instituto Português de Psicologia (INSPIC) e Instituto CRIAP. Publicou recentemente o livro Aprender a Andar no Escuro, editado pela Contraponto Editores.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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