Conceito nascido no seio da academia francesa no início dos anos 2000 — mais precisamente na mente do geógrafo Christophe Guilluy, e pouco tempo depois retomado pelo sociólogo Alain Mergier —, a insegurança cultural procura descrever o sentimento de perda de referências culturais que as populações autóctones de um determinado país experimentam face às transformações sociais provocadas por imigrações massivas de pessoas oriundas de culturas profundamente diferentes. Foi o cientista político Laurent Bouvet quem lhe deu uma definição “científica”, permitindo que o conceito se difundisse rapidamente para o resto do Ocidente.
Segundo Laurent Bouvet, embora exista efectivamente uma insegurança económica associada a este fenómeno — uma vez que muitos migrantes aceitam desempenhar os mesmos trabalhos por salários inferiores —, essa dimensão não entra no âmbito da insegurança cultural propriamente dita. Esta está intimamente ligada ao receio que os autóctones sentem perante a possibilidade de verem a sua religião, o seu modo de vida, os seus valores, as suas tradições, normas sociais, a arquitectura, a gastronomia e os seus usos e costumes desaparecerem, sendo substituídos por culturas estrangeiras. Este tipo de medo manifesta-se em todas as sociedades ocidentais que conheceram uma imigração significativa proveniente de países não ocidentais, bem como em sociedades onde o modelo multiculturalista, muitas vezes imposto de forma coerciva pelas elites, deu origem a “choques” identitários e a tensões sociais.
A insegurança cultural tem vindo a aumentar em vários países europeus, sobretudo com a saída dos europeus autóctones de certos bairros onde existe uma forte concentração de estrangeiros. Se o aumento da criminalidade foi um dos factores que levou muitos autóctones a abandonar determinados bairros das grandes cidades da Europa Ocidental, os factores culturais revelam-se igualmente determinantes. Desde a proliferação de mesquitas que, em alguns casos, passam a realizar o chamamento do muezim, às rezas de rua, aos bares de chicha sem álcool, ou ainda à abertura de talhos halal onde não se vende carne de porco, este conjunto de transformações incute numa parte dos autóctones o receio de que o seu país se transforme e se torne irreconhecível. Muitos nem sequer sofrem directamente as consequências da imigração massiva, mas mostram-se preocupados com o futuro.
O fenómeno da insegurança cultural acaba quase sempre por desencadear um forte ressentimento no seio da população relativamente às elites políticas, culturais, económicas e intelectuais, acusadas de não se preocuparem suficientemente com os receios sentidos por uma parte significativa das populações autóctones. Essas elites vivem muitas vezes em bairros seguros, com forte policiamento e guardas privados à entrada dos edifícios, não sentindo na pele as tensões sociais nem as mudanças nos modos de vida, pois habitam, em larga medida, verdadeiras “torres de marfim”. A isto soma-se um certo desprezo pelas massas e uma forma de egoísmo que Christophe Lasch analisou de forma particularmente lúcida na sua obra A Revolta das Elites. Este afastamento das altas burguesias que dominam o Ocidente desde as Revoluções Liberais dos séculos XVIII e XIX, bem como o ressentimento e a desconfiança que daí resultam, ajuda a explicar o ressurgimento de ideologias ditas populistas, anti-elitistas e “anti-burguesas”, tanto à direita como à esquerda, bem como ao surgimento de demagogos.
Será que existe em Portugal uma “insegurança cultural”? Vários sinais indicam que sim. Que melhor exemplo do que o facto de, no seio da população, se manifestar uma certa inquietação cultural ao ponto de os responsáveis políticos considerarem necessário votar uma nova Lei dos Estrangeiros? O simples facto de um colunista do Observador publicar um texto intitulado “Portugal é o país dos portugueses” diz muito sobre a psique colectiva dos portugueses. Receber tantos estrangeiros no país num espaço de tempo tão curto não deixa de ter consequências. Quanto a pequenas frases como a de uma certa eurodeputada do PS, que afirma que Portugal não tem cultura, em nada ajudam; bem pelo contrário, apenas agravam uma situação já de si cada vez mais tensa entre as massas populares e as ditas “elites” políticas.
Que conclusão podemos retirar? A minha é que, se as elites políticas da Europa Ocidental não abordarem já esta questão, e se não tentarem simultaneamente inverter os fluxos migratórios e implementar políticas de incentivo à natalidade entre os jovens europeus, a situação poderá tornar-se muito preocupante. A imigração não é, de facto, o único problema que enfrentamos: existem também desafios ecológicos, económicos e sociais, bem como a agressividade da Turquia e da Rússia nas fronteiras europeias. Além disso, a principal problemática da Europa — e, arrisco dizer, do Ocidente — é a baixa natalidade dos europeus nativos. Uma baixa natalidade aliada a uma forte imigração e a uma elevada taxa de natalidade entre os extra-europeus deveria constituir a principal preocupação dos líderes políticos. “A demografia é o destino”, dizia Auguste Comte — uma lição que, ao que parece, não é ensinada nas Jotas dos diversos partidos europeus.
Muitos europeus nativos sentem que a assimilação não funcionou — nem sequer a integração. Durante anos, os culpados eram sempre os europeus: não fazíamos o esforço de os integrar, muito menos de os assimilar; não havia dinheiro suficiente para as políticas de assimilação; a assimilação seria racista, porque obrigaria os estrangeiros a perder a sua identidade — em vez disso, bastaria apenas integrá-los. Nada pareceu funcionar, nem no Reino Unido, nem em França, nem na Alemanha, nem na Suécia, nem em Itália. Nem o modelo francófono de assimilação teve sucesso, nem o modelo anglo-saxónico, tão admirado por certos professores universitários meus, resultou — que o digam os ingleses e, sobretudo, as inglesas vítimas dos grooming gangs.
Quando vemos futebolistas de origem extra-europeia, nascidos em países europeus, cujos países de acolhimento lhes proporcionaram tudo — da saúde à educação, sem esquecer as academias de futebol —, acabarem por afirmar que não se sentem nem franceses, nem alemães, nem ingleses, mas que amam os seus países de origem, muitos europeus ficam chocados. É o caso do antigo futebolista “alemão” Mesut Özil, que denunciava a extrema-direita alemã, mas acabou por apoiar os “Lobos Cinzentos” — uma organização turca de extrema-direita anti-semita, anti-cristã e anti-arménia — afirmando que não se sente alemão, mas sim turco, sendo que até teria vergonha de ter jogado pela Alemanha (fonte e fonte), acabando mesmo por afiliar-se no partido islamista e neo-otomano de Erdogan (fonte).
Quando o filho de Zinedine Zidane decide jogar pela Argélia, por ser o “verdadeiro país dele”, seria cómico se não fosse triste (fonte). Quando milhares de jovens nascidos em França, mas de origem argelina, cantam, após a vitória da equipa da Argélia, “vocês colonizaram-nos, agora estais na merd…” (fonte), não é de estranhar que certos franceses fiquem preocupados. As manifestações pró-palestinianas na Itália, muitas vezes apoiadas e organizadas por associações islamistas e grupos de extrema-esquerda, nas quais jovens muçulmanos — alguns nascidos em Itália — atacaram a polícia, queimaram bandeiras italianas, país que os acolhe, e gritavam slogans islamistas (fonte), ajudam a explicar uma certa insegurança cultural entre os italianos. Em Londres, manifestações semelhantes, protagonizadas por jovens muçulmanos de segunda e terceira geração, incluíram gritos de “Allah Akbar”, “death to the jews”, insultos raciais dirigidos a brancos e apelos à Intifada (fonte), o que não contribui para acalmar o receio de muitos britânicos. Em Paris, manifestações pró-palestinianas durante as quais a polícia foi atacada e a bandeira francesa queimada — numa das quais um islamista, Élias d’Imlizène, fundador de um site islamista (Islam et Info), gritou ao microfone que era preciso levar a Intifada a Paris, perante milhares de jovens muçulmanos, estrangeiros ou não, em transe — dificilmente ajudam a “curar” a insegurança cultural que certos franceses ressentem (fonte).
Quando um deputado francês de origem angolana e congolesa, Carlos Bilongo, afirma num programa sobre cultura africana que — falando dos africanos e dos europeus —, e passo a citar, “somos mais inteligentes que eles (que os brancos), fazemos mais filhos que eles, brevemente vamos tomar o poder”, penso que qualquer leitor admitirá que se trata de algo, no mínimo, preocupante (fonte). De forma semelhante, quando o antigo eurodeputado francês de origem argelina, Karim Zeribi, declara na televisão argelina que, cito, “a teoria da grande substituição é na verdade a História da Humanidade, povos que substituem outros povos” ou que “os argelinos, tunisinos, senegaleses e congoleses são suficientemente numerosos em França para decidir quem pode ser presidente ou não” (fonte), torna-se evidente que tais declarações reforçam a uma certa desconfiança entre a população francesa relativamente a deputados de origem estrangeira, bem como a vontade de alguns extra-europeus em dominar o Ocidente e impor a sua cultura. E provavelmente explicam a vitória de André Ventura em França na primeira volta das presidenciais portuguesas (60%).
E que dizer do grande escândalo na Suécia — praticamente ignorado em Portugal — em que a polícia descobriu que várias organizações muçulmanas desviaram centenas de milhões de euros, sendo que uma parte do dinheiro serviu para financiar um partido islamista na Somália, bem como clubes de sexo na Tailândia? O homem acusado do desvio é um político somaliano-sueco. A parte mais caricata desta história é que ele foi deputado na Suécia pelo Partido Moderado, defendendo a tolerância e a “abertura ao outro” no parlamento sueco, enquanto liderava, em paralelo, um partido islamista na Somália que pretende impor a Sharia, partido que defende assim uma lei na qual mulheres são lapidadas, homossexuais são executados e minorias não-muçulmanas vivem numa condição de semi-cidadãos, os dhimmis (fonte). Vale ainda destacar que, nesse escândalo, um dos envolvidos no desvio de recursos empregava ex-terroristas do Estado Islâmico numa escola sueca (fonte).
Mais uma vez, este tipo de situação alimenta entre os europeus a sensação de que somos os “bobos da festa”, e de que certos extra-europeus — nascidos ou não na Europa — utilizam os recursos e benefícios das nossas nações em proveito próprio, sem se considerarem, nem nunca se terem considerado, membros das sociedades europeias. A ideia de que uma parte significativa dos extra-europeus nunca teve qualquer vontade de se assimilar ou integrar, mas antes de usufruir do Ocidente para, mais tarde, impor a sua cultura e religião, é cada vez mais aceite por muitos europeus. Será verdade? O que sei é que 30% dos jovens muçulmanos britânicos consideram a Sharia preferível à lei britânica (fonte) e que, no caso dos jovens muçulmanos franceses entre os 15 e os 24 anos, 81% acreditam que o Corão é superior à ciência para explicar o mundo (fonte), enquanto metade considera que a Sharia deve prevalecer sobre a lei francesa. Pergunto apenas: que futuro para os nossos filhos e filhas?
De facto, uma parte significativa dos imigrantes extra-europeus, ou dos seus filhos, respeita as nossas culturas, a nossa religião, a História das nossas nações, bem como os nossos usos, costumes e modos de vida. Não digo — nem nunca disse — o contrário. Mas é um facto cada vez mais evidente que existe outra parte importante que não quer, nem nunca quis, assimilar-se ou integrar-se; e, pior ainda, que existe uma minoria de extra-europeus extremamente hostil à nossa Civilização e a tudo o que ela representa — uma realidade cada vez mais difícil de ignorar. Provavelmente chegou o momento de decidirmos se queremos continuar com o modelo de Identidade Cívica ou optar por um modelo de Identidade Étnico-Cultural. Remeto para o meu texto “O que faz de nós portugueses” no qual explorei estes temas em maior detalhe. Os nossos modelos de nacionalidade foram pensados noutros tempos, em que havia pouca ou nenhuma imigração para o Ocidente, mas sim uma forte emigração de europeus — em 1900, os europeus representavam 25% da população mundial — para outros continentes. A imigração nos países ocidentais era, na maioria dos casos, intra-ocidental: populações europeias para os EUA — porque, contrariamente a uma ideia muito difundida, os Estados Unidos receberam esmagadoramente europeus até às leis da década de 1960, e não populações oriundas do resto do mundo — e populações europeias de um país europeu para outro. Será, portanto, altura de repensarmos todas as nossas leis de imigração, as leis de nacionalidade e, no caso de Portugal (bem como de outros países), ponderar uma revisão da própria Constituição.
Dou assim por concluída a série de textos que me propus escrever em Junho do ano passado. A imigração é um tema complexo. Existem milhares de estudos sobre a matéria, desde a relação entre imigração e criminalidade, passando pelo custo ou benefício económico da imigração, pela islamização, pelo terrorismo e pela sua eventual ligação à imigração, até à insegurança cultural que esta pode provocar. Os números apresentados variam frequentemente. As conclusões divergem, por vezes de forma significativa. Em muitos casos, nem todos os factos são expostos, por vezes de forma deliberada. Após uma breve introdução ao tema, analisei os números relativos às entradas e à população estrangeira. Num terceiro texto, debrucei-me sobre o custo económico da imigração. No quarto, examinei a relação entre imigração e aumento da criminalidade. A propósito deste último tema — e como resposta a uma notícia publicada pela Lusa, segundo a qual a forte presença de imigrantes numa determinada zona reduziria a criminalidade — aconselho os leitores francófonos a consultarem um artigo do Le Figaro que contradiz esse estudo, intitulado “Não, a ciência não demonstrou que não há ligação de causalidade entre imigração e delinquência”. Encerro esta série com o presente texto dedicado à insegurança cultural.
Devemos manter-nos positivos e acreditar que conseguiremos resolver esta problemática — que, de facto, hoje já é encarada como uma problemática e não apenas como um desafio, como ainda o era há poucos anos — de forma pacífica e democrática. Como costuma dizer um amigo meu, “pessimista sim, derrotista nunca”. Muitos falam numa libanização das nações europeias e nas consequentes guerras civis… Gostava de acreditar que existem outras soluções. Mas, como sucede sempre perante problemas graves como os que enfrentamos, apenas soluções firmes e “viris” — no sentido clássico do termo vir: homens fortes, corajosos, heróicos, imbuídos de virtude — poderão resolver não só esta problemática, mas também outras que assolam a Europa. Contudo, quando olho para os nossos responsáveis políticos, tanto em Portugal como no resto da Europa, ou mesmo nos Estados Unidos, fico deprimido… entre oportunistas, taberneiros, carreiristas e fracos, estamos mal.
Não é a primeira vez que algo deste género acontece na História da Europa. O Império Romano colapsou na sequência das invasões germânicas. Em 376 d.C., os Godos Tervinges foram ameaçados pelos Hunos, um povo asiático que já havia submetido pela violência outros germanos. Cristãos arianos, tal como o imperador Valente, os Tervinges pediram autorização para atravessar o rio Danúbio e refugiar-se no Império. Explica-nos o historiador Jean-François Chemain que Roma decidiu aceitar dezenas de milhares de refugiados, em parte por piedade cristã, em parte por interesse, pois “estes guerreiros e agricultores tornar-se-ão bem úteis, enquanto federados (…)”, uma vez que permitiriam a Roma obter soldados baratos, agricultores baratos e o povoamento de zonas despovoadas nas fronteiras do Império. Tudo isto numa fase em que cada vez menos romanos queriam cumprir o serviço militar e em que o Império já sofria de graves problemas económicos e de baixa natalidade.
Mas, como tantas vezes acontece na História, os deuses revelam-se irónicos: apenas dois anos depois, os germanos revoltam-se, descontentes com as escassas ajudas enviadas por Roma — teriam sido desviadas por senadores corruptos? Os Godos tervíngios insurgem-se e, numa tentativa de os reprimir, o imperador romano Valente — aquele que os havia acolhido — acaba derrotado e morto na Batalha de Adrianópolis, em 378 d.C., diante dos mesmos Tervíngios — bem como de Greutungos, Vândalos e Hunos — que acolhera. De refugiados a vencedores de Roma — que ironia sublime. Povos germânicos que, contudo, não procuravam destruir a cidade eterna: partilhavam a mesma origem indo-europeia (Yamnaya), os seus deuses, a sua mitologia, a sua sociedade e a sua língua (como bem explicara o excelente Georges Dumézil). Admiravam Roma e aspiravam, antes, a imitá-la à sua maneira. Séculos mais tarde, seriam líderes germânicos como Carlos Magno (um franco) a salvaguardar essa civilização brilhante, mantendo viva a herança de um império que eles próprios ajudaram a transformar. É um facto importante: os germânicos não odiavam Roma, não ansiavam submetê-la para impor uma cultura germânica; antes, procuravam copiá-la e fundir a cultura greco-romana com a sua própria tradição germânica, o que acabariam por fazer, dando origem à Europa Medieval.
A História não se repete necessariamente da mesma maneira. Embora a situação experimentada pelos romanos do século IV e V seja distinta da nossa, é, ao mesmo tempo, surpreendentemente semelhante em certos aspectos. Terá razão Ortega y Gasset: as estruturas históricas são recorrentes, mas vividas por actores diferentes? Ou será Heidegger quem tinha razão com o seu conceito de Wiederholung: possibilidades do passado não totalmente realizadas são reinscritas numa situação histórica presente diferente? Não é verdade que, no passado, povos não europeus tentaram subjugar a Europa? Hunos, árabes, bérberes, persas, mongóis, turcos — todos falharam em raptar a deusa Europa. Os europeus, mesmo no tempo de Roma, souberam sempre aliar-se nos momentos mais críticos: a Batalha dos Campos Catalaúnicos, em que germanos e romanos se uniram contra os hunos e outros germanos; a Reconquista, quando cavaleiros de toda a Europa vieram libertar a Península Ibérica; a Batalha de Lepanto, em que os europeus esmagaram os turcos. Mais uma vez, os tempos são diferentes. Não estamos a ser invadidos militarmente. Mas a islamização crescente de bairros inteiros, a constituição de enclaves estrangeiros nas nossas nações — as famosas no-go zones — e as crescentes ameaças do neo-otomano Erdogan (que pretende roubar ilhas aos gregos) e do novo czar Putin não auguram nada de bom.
Como forma de concluir esta série, apresento-vos um texto de Amiano Marcelino, líder militar e historiador romano contemporâneo dos acontecimentos, que procurou alertar para os perigos de acolher os povos germânicos, não sendo ouvido. Deixo aos leitores a tarefa de tirarem as suas próprias conclusões das palavras deste romano — e de reflectirem sobre o eco desta História nos nossos dias:
(…) O rumor, contudo, não deixava de ganhar crédito e recebeu em breve plena confirmação com a chegada da embaixada bárbara, que vinha instar, em nome dos povos expulsos, pela sua admissão aquém do rio. A primeira impressão causada por esta proposta foi antes de satisfação do que de alarme. Os cortesãos empregaram todas as formas de adulação para exaltar a felicidade do príncipe, a quem a fortuna trazia de improviso reforços vindos das extremidades da terra. A incorporação destes estrangeiros no nosso exército torná-lo-ia invencível; e, convertido em dinheiro, o tributo que as províncias deviam em soldados viria acrescer indefinidamente os recursos do Tesouro. Mandaram-se pois, sem demora, numerosos agentes, encarregados de providenciar meios de transporte para todos estes hóspedes temíveis. Velou-se cuidadosamente para que nenhum dos futuros destruidores do império, ainda que atingido por doença mortal, ficasse na outra margem. Dia e noite, em virtude da permissão imperial, os Godos, amontoados em barcas, jangadas e troncos de árvores escavados, eram transportados para além do Danúbio (…) E todo este empenho, todo este labor, para desembocar na ruína do mundo romano! (…) As nossas barreiras tinham-se aberto diante desta emigração armada. O solo bárbaro vomitara, como a lava do Etna, os seus filhos sobre o nosso território. Uma crise tão ameaçadora exigia, pelo menos, que a força militar do país fosse confiada às mãos reconhecidamente mais firmes e mais experimentadas; e, contudo, como se alguma divindade inimiga tivesse ditado as escolhas, não se encontravam então à sua cabeça senão os nomes mais mal afamados.
(Amiano Marcelino, Res Gestea Livro 31, citado por Jean-François Chemain na revista Revue d’Histoire Européenne)