Em Portugal há uma palavra que resolve quase tudo.
Ou, mais precisamente, que adianta tudo.

Essa palavra é estrutural.

Quando o regresso às aulas corre mal, é estrutural.
Quando as urgências do SNS colapsam, é estrutural.
Quando faltam médicos de família, é estrutural.
Quando o aeroporto não funciona, mas também não se decide, é estrutural.
Quando uma tempestade deixa centenas de milhares de pessoas sem eletricidade, é estrutural.

Não se trata de negar a complexidade dos problemas. Trata-se de perceber quando a palavra deixa de ser diagnóstico e passa a ser substituto da decisão.

Na prática, “estrutural” passou a significar isto:
o problema é antigo,
a solução é difícil,
logo, ninguém decide agora.

Foi exatamente esse o tom dominante após a passagem da tempestade Kristin, que atingiu Portugal entre 27 e 29 de janeiro de 2026, com especial impacto em várias regiões do Norte e do Centro do país. Ventos extremos, comunicações interrompidas, infraestruturas paralisadas, milhares de ocorrências e vítimas mortais. Um fenómeno violento, rapidamente explicado como excecional, imprevisível e, claro, estrutural.

Convém esclarecer: Lisboa não foi o epicentro da tempestade.
Mas Lisboa é o melhor lugar para perceber como este país reage, há séculos, a riscos que se repetem.

Portugal não descobriu o desastre em 2026. Convive com ele há muito mais tempo.

Já em 25 de agosto de 1395, no reinado de D. João I, a Câmara de Lisboa aprovava um registo com força de lei sobre a prevenção e o combate a incêndios. O documento impunha deveres aos moradores e aos ofícios da construção, obrigando-os a acudir aos fogos. Era uma solução rudimentar, mas decisiva: o incêndio deixava de ser fatalidade privada e passava a problema público regulado.

Não havia carreira nem salário, mas havia já uma ideia essencial: o risco urbano exigia organização. Era uma proto-profissionalização, ainda incompleta, mas conceptualmente clara.

Durante séculos, a resposta manteve-se frágil. Quando havia fogo, tocavam os sinos. Os homens largavam o que estavam a fazer e corriam para as chamas. Sem estrutura permanente, sem continuidade, sem exigência real. Dependia da disponibilidade, e a disponibilidade nunca é um sistema.

O verdadeiro salto ocorre em 13 de maio de 1646, quando a Câmara de Lisboa apresenta ao rei D. João IV um plano organizado de combate a incêndios. Pela primeira vez, propõe-se pessoal remunerado, equipamento próprio e disponibilidade permanente. O pagamento não era um detalhe administrativo: era o que permitia exigir presença, impor disciplina e garantir resposta imediata.

Não era ainda um corpo de bombeiros moderno.
Mas era uma mudança estrutural no sentido sério da palavra: quem é pago pode ser exigido; quem é exigido pode ser selecionado; quem é selecionado pode ser preparado.

Mesmo assim, os problemas persistiram. Incêndios graves em 1655, e depois entre 1670 e 1671, mostraram que não bastava ter homens e material: era preciso organização e comando. Em 28 de março de 1678, por despacho de D. Pedro II, criaram-se armazéns centrais, inventários obrigatórios, responsáveis definidos e penalizações para faltosos. Onde antes havia obrigação genérica, começou a haver exigência concreta.

O ponto de viragem maior surgiria em 1 de novembro de 1755. O terramoto, seguido de maremoto e incêndios, destruiu Lisboa. A resposta do Marquês de Pombal não foi resignação: houve comando, decisão e reformas, planeamento urbano, novos regulamentos de construção, prevenção sísmica. O desastre foi tratado como falha que exigia reorganização do Estado.

Nada disto foi rápido.
Nada disto foi fácil.

Mas a lógica é clara: sempre que o risco foi enfrentado com profissionalização, exigência e regras, houve progresso. Sempre que se adiou a decisão, o desastre voltou.

É por isso que o uso atual da palavra estrutural é enganador.

Hoje, estrutural já não significa “vamos reorganizar”.
Significa “isto é assim”.
É uma palavra que encerra o debate, dilui responsabilidades e compra tempo, normalmente até à próxima crise.

A tempestade Kristin, em janeiro de 2026, não foi apenas vento e chuva. Foi um teste à manutenção das redes, à redundância dos sistemas e à coordenação institucional. Quando tudo falha em cadeia, não estamos apenas perante um fenómeno natural. Estamos perante decisões acumuladas ou adiadas.

Chamar a isso estrutural pode ser tecnicamente correto.
Usar isso como desculpa é que não é.

A experiência histórica portuguesa sugere algo simples: os países não se tornam mais seguros quando aceitam o risco como inevitável, mas quando decidem organizar-se contra ele.

Estrutural deveria significar isto:
problema difícil, sim
mas decisão obrigatória.

Quando tudo é estrutural, nada é urgente.
E quando nada é urgente, a próxima catástrofe deixa de ser exceção.

Passa a ser rotina administrativa.

E disso, a História já nos avisou mais do que uma vez.