Nem tudo é mau. Por estes dias, em Portugal, respira-se de alívio. Por um lado, parece ter amainado o comboio de tempestades que afectou grande parte do país, deixando um rasto de destruição, desalojados, feridos e prejuízos incalculáveis. Depois, a enchente de politiquice que ao longo do último ano encharcou o espaço público e publicado português chegou também ao fim com a eleição de António José Seguro para Presidente da República. Finalmente, um novo presidente eleito significa que se aproxima a passos largos — à hora a que escrevo faltam 619 horas e 14 minutos — o momento em que o país se verá finalmente livre de Marcelo Rebelo de Sousa. Tudo junto e, como dizia, respira-se de alívio, ansiando-se esperançosamente por algum módico de normalidade.
Nos entretantos, uma vez que saímos agora de um longo período eleitoral, o alívio reverte para o momento político e toda a gente canta vitória, assim fazendo render o seu peixe, que é como quem diz “capital político”. E por toda a gente quero mesmo dizer praticamente toda a gente, desde o vencedor das eleições e novel presidente, passando pelo derrotado da segunda volta, incluindo todos os derrotados da primeira volta e, claro está, até aqueles que nem sequer participaram nas eleições. Em política, área pródiga em actividade paranormal ou sobrenatural, quando não de inspiração divina, assistimos com frequência ao milagre da multiplicação das vitórias — e ele aí está, em pleno fulgor, desde que se acabaram de contar os primeiros votos da eleição presidencial.
Seguro, naturalmente, é o primeiro vitorioso, até porque se dá o caso de ter sido efectivamente aquele que ganhou as eleições. Vai daí e, claro está, fazendo juras de amor a Portugal, ao povo português, que é óptimo, sábio e esclarecido, bem como ao triunfo da democracia, do Bem e da Virtude, discursou de forma entusiasmada e arrebatadora sobre a forma como revolucionará o país rumo à redenção económica, política e social. Calma! Estou, obviamente, a brincar. Seguro é incapaz de arrebatamentos ou entusiasmos, pelo que, apesar de choramingar uns agradecimentos sentidos a quem o ajudou na campanha, bem como ao povo que o elegeu e o qual ora se aposta a representar, tirando isso, os seus ensejos são os de, com mais ou menos aparição pública, exercer o seu insofismável sentido de estado e, em nome dos mais elevadíssimos princípios morais e políticos, não fazer grande coisa, passando despercebido, deixando o regular funcionamento das instituições largamente nas mãos invisíveis da providência democrática e, mais importante, na convicção que depois de 10 anos de Marcelo e uma catadupa de eleições nacionais — só nos últimos 2 anos foram quatro actos eleitorais —, aquilo que o povo quer politicamente é mesmo sopas e descanso.
Sinceramente, acho bem. E o povo parece concordar, daí que nele tenha votado em número recorde. Aliás, se alguma coisa se confirmou neste último domingo eleitoral foi o quão fartou Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal, os portugueses, por entre tempestades, raios e coriscos, a pé pela lama, de bicicleta, de barco ou jangada, acorreram a votar em volume inédito no político menos entusiasmante do planeta só porque sentiram nele a mais importante das certezas políticas dos últimos anos: Seguro representa o oposto de Marcelo. Com ele é garantido que não se entreterá a despir-se de forma compulsiva e reiterada à frente das câmaras de TV para trocar de cuecas enquanto se escova com uma toalha, bem como não há selfies, gelados, abraços suados, apertos de mão frenéticos ou baba caída das beiças do Presidente da República enquanto se maravilha com a imponência do ditador chinês. Tudo isso acabou. E, quanto mais não seja por esta singela razão, todo o país partilha merecidíssimas razões para celebrar.
Alívio, pois claro. Daí que se deve relembrar que, apesar de todos os prognósticos eleitorais, no final, o mais correcto foi a análise psico-analítica que indicava a absoluta exaustão do país para com o Prof. Marcelo: de facto, não apenas ganhou o candidato mais anti-Marcelo possível, como aqueloutro candidato favorito à sucessão — Marques Mendes — conhecido por seguir as pisadas de Marcelo e, já desde os tempos do Contra-Informação, viver bem como seu delfim, ao apostar as fichas todas em emular o bem-sucedido caminho daquele comentando na TV e sugerindo livros em catadupa, acabou conseguindo ser o único a não encontrar forma de cantar vitória. Nem vitória, nem meia-derrota, nada, para Marques Mendes não sobra nada, Marcelo estafou, gastou, esbanjou tudo, desde o capital político que tinha até a qualquer vislumbre de boa-vontade para com qualquer um que se parecesse remotamente com um sucessor. Daí que Mendes seja o único que inequivocamente se viu forçado a aceitar o naufrágio e a condenação ao opróbrio político.
Quanto ao resto, tudo ficou feliz. O PCP, de vitória em vitória lá vai dançando alegre e contente ao som dos altifalantes dos carros de campanha — um clássico do qual se recusam a abdicar — até à derrota final. A candidata do BE, com 2%, entusiasmou a sala onde discursou porque a sua candidatura “quebrou tabus”, voltando satisfeita e com sensação de dever cumprido para o remanso do Parlamento Europeu e as duas dezenas de milhar mensais. Aliás, tal é a bambocha generalizada que até o rapaz do Livre, um desgraçado com menos votos que Manuel João Vieira, se parabenizou por “ter trazidos temas para a campanha” — convenhamos, se este se congratula a si próprio, não há um perdedor em Portugal (exceptuando Marques Mendes, coitado). Eis, pois, o Portugal após o furacão Marcelo: aliviado, satisfeito, desabafado.
Aliás, a alegria é tanta que embebeda o mais sóbrio dos políticos. Veja-se, por exemplo, o caso do Almirante Gouveia, mestre em logística distribuidora de injecções, personagem sisuda e conhecida pelo seu porte militar austero e que configura o mais extraordinário caso de estudo onde alguém — único, já agora, em Portugal —conseguiu, em cerca de 3 ou 4 meses, desbaratar uma vantagem de 20% e transformar uma eleição presidencial quase garantida e aceite por todos como inevitável numa clamorosa, estonteante e avassaladora derrota política. Veja-se que até esse alienado cantou vitória, imagine-se, falando da importância dos seus 12% e de como espera poder vir a capitalizá-los no futuro, gemendo umas coisas sobre movimentos civis e representação política. É este o nível da celebração em Portugal! Até um certificado cadáver político adia o inevitável, falando e mexendo-se, opinando sobre o seu futuro político, aparecendo com autoridade e gravitas comentando a política nacional. Dá para tudo, de facto.
Depois, claro, há aqueles que têm razões para efectivamente celebrar. À cabeça, Cotrim, a estrela fulgurante que surpreendeu na primeira volta. Este, eventualmente ele próprio espantado com a sua prestação, não sabendo o que fazer com o resultado, primeiro atirou-se a um movimento político que decretou a irrelevância do seu próprio partido, a IL. Depois, mais sereno, resolveu converter o “capital” conquistado tomando para si o lugar vagado por Marques Mendes a comentar, opinar e alvitrar sobre “a actualidade política”, esperando, imagina-se, que com o desaparecimento de Marcelo o truque já passe mais despercebido aos eleitores portugueses e, daqui por uns anos, depois de convenientemente garantida a merecida reforma do Parlamento Europeu, quem sabe ainda intentar mais uma vez a presidência. Agora, abdicar de Bruxelas, isso é que não, pelo que entre o saindo e não saindo, com um pé na Place du Luxembourg e o outro em Carnaxide, o partido que o inventou que se lixe que os 19% são mesmo dele, por ele e para ele.
Depois, temos o grande agitador da política nacional, André Ventura. Ora, Ventura, que em pouco mais de 7 anos conseguiu criar um partido, transformá-lo no segundo mais representado no parlamento e, apenas com apoio desse partido, obter aos 43 anos mais de 30% dos votos numas eleições presidenciais, em boa verdade, nunca poderia perder. Mais, quem também conseguiu tornar-se o enfoque da política nacional (com as linhas vermelhas que lhe enfiaram à volta), a personagem principal da praça mediática (é o único que vende sempre, quer seja por ser amado, quer seja por ser odiado) e o tema principal de todo o discurso político (seja a favor, seja contra), a verdade é que não pode deixar de ser um vencedor — não apenas da noite, mas da semana, do mês, do ano, da década.
Que Ventura é incontornável, isso é uma evidência que apenas os mais Acácio dos Acácios se pode recusar a aceitar. Agora, mesmo com pleno direito a cantar vitória, a verdade é que, parafraseando António Costa, não deixa de ser uma vitória poucochinha. As razões para tal são simples, bem como pouco polémicas. Numa luta a dois onde do outro lado estava António José Seguro, o empadão político mais insonso do menu autóctone, um socialista ainda por cima, os cerca de 1,800,000 votos que conseguiu alcançar, apesar de um feito, revela também que nem contra a candidatura menos interessante para o centro-direita que se poderia imaginar em Portugal Ventura consegue entrar pelo eleitorado AD dentro como tem passado os últimos anos a ameaçar fazer.
Pode o Chega dizer que afinal não há direita em Portugal e que a que há é a deles — um debate bem emulado da esquerda portuguesa sobre quem é a mais pura esquerda, se aquela ou aqueloutra, um pormenor que diz muito pouco às pessoas — mas, a verdade, aquela nua e crua, é que Ventura até 2031 não volta a ter condições tão favoráveis para conquistar esse eleitorado. E a conclusão é que em condições ideais não o conseguiu fazer. Aliás, neste momento, não fosse preferir Bruxelas, a futura pensão e a TV, a grande ameaça ao eleitorado da AD, aquele que roubou de facto os votos ao candidato AD, foi Cotrim — e é esse o espaço que, eventualmente, a seu tempo, com líder e projecto adequado, poderá tirar o tapete a uma AD refém do imobilismo de Montenegro.
Sobra, portanto, uma opereta bastante ridícula sobre quem é que é o presidente da junta, perdão, sobre quem é que é o líder da direita. Como deveria ser evidente para todos, esse líder nunca poderá ser Cotrim, que não sabe o que fazer com os seus 19%, quanto mais com a direita toda; também não pode ser Seguro, que é socialista; nem será certamente Ventura, que com campo aberto apenas consegue 33% dos votos quando a direita, goste-se ou não dela, em Portugal, representa mais de 50% do eleitorado e dos mandatos na Assembleia da República. Depois, fora destas eleições, apesar de ser Primeiro-Ministro, Montenegro, porque se decidiu a abdicar de reformar o país, a apresentar um rumo definido a longo prazo e insiste em apostar num caminho governativo dependente de Bruxelas, assente no imobilismo e apenas em meia dúzia de feitos de alguns ministros do seu governo, por tudo isso também Montenegro não consegue afirmar-se como o líder da direita — pelo contrário, apenas governa porque o PS, à deriva e sem soluções, assim o permite.
No final, quer Ventura quer Montenegro têm ainda os pés muito pequeninos para calçar tão grandes e pesados sapatos. Líder da direita, em Portugal, desde há muito tempo, só há um: Passos Coelho e mais nenhum. E assim é, desde logo, porque apenas Passos conseguiria derrotar Seguro nestas eleições presidenciais. Aliás, só tivemos uma segunda volta e uma multitude candidatos da área da direita na primeira, precisamente, porque Passos não se candidatou — tivesse ele apresentado candidatura e, como a maioria admitiu, nem Cotrim, nem Mendes, nem Ventura, ou sequer Gouveia, teriam sido candidatos. A verdade, aquela simples, singela, tão pura e tranquila que passa ao lado da maioria do obtuso comentariado histérico nacional, é que a salgalhada presidencial a que todos assistimos durante o último ano só ocorreu porque Passos, o candidato óbvio, não ocupou o seu espaço natural. E Passos estava nessa posição precisamente porque ele é que é o líder natural da direita portuguesa.
Infelizmente, do mesmo modo que na ausência de Passos Coelho a eleição presidencial se transformou na ópera bufa, ridícula, medíocre, à qual todos assistimos, também a política partidária assim seguirá os mesmos passos: entre um Primeiro-Ministro, Montenegro, de pés pequeninos, que se recusa a governar, e desse modo a afirmar-se como líder, até um seu concorrente, Ventura, esse ainda sem pergaminhos, de pés descalços, ainda muito tendo que correr até se poder alçar a essa posição, pelo meio vivemos o vazio, órfão, tristonho, destino de quem, no fundo, no fundo, bem sabe que aquilo que Portugal mais precisaria seria que os sapatos do líder da direita — enormes, imensos, de outra safra e outro nível — fossem finalmente calçados por aquele que lhes criou as medidas. Até lá, para mal dos nossos pecados, Portugal lá vai vivendo como já está habituado — de chinelos.