Muitos celebraram a derrota de Orban nas eleições húngaras, e eu incluo-me nesse grupo. O que poucos notaram foi a enorme vitória das direitas e a incapacidade das esquerdas de elegerem um único deputado. O partido do futuro PM, Tisza, elegeu 136 deputados. O partido de Orban, Fidesz, elegeu 56 deputados. Finalmente, um pequeno partido nacionalista radical, Mi Hazank, elegeu 6 deputados. O vencedor será o partido menos à direita, mas ninguém tenha dúvidas, é um partido conservador. É, aliás, uma dissidência do partido de Orban.

Esta vitória absoluta das direitas mostra, em primeiro lugar, que Orban foi durante muitos anos um PM popular, com o apoio da maioria da população húngara. A tendência actual de diabolização política impede que se veja a realidade. Orban não usurpou o poder. Foi um líder com legitimidade democrática. Acabou mal, mas o fim não pode esconder a realidade.

Em segundo lugar, nos países que viveram sob ditaduras comunistas, as esquerdas não têm grande expressão política. Foi uma vacina política que ainda produz efeitos cerca de 35 anos depois da queda do comunismo na Europa.

A famosa observação de Lord Acton, “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”, descreve o que aconteceu com Orban na Hungria. 16 anos de poder criaram um sistema de corrupção que beneficiava Orban e os seus amigos e próximos. Ao mesmo tempo, a economia piorou e a dívida pública aumentou. Orban também abusou na sua estratégia anti-União Europeia. A maioria dos húngaros quer viver num país soberano, mas não deseja um conflito permanente com Bruxelas. Os húngaros são cépticos em relação ao apoio militar à Ucrânia, mas não querem um governo a espiar para Moscovo. O fim de um governo corrupto e inteiramente alinhado com Putin é uma boa notícia para a Europa.

Mas ninguém deve esperar que o novo PM não defenda os interesses húngaros e não se oponha a Bruxelas sempre que assim o entender. Já afirmou que não quer uma adesão rápida da Ucrânia à União Europeia e que organizará um referendo sobre a entrada de Kiev.

Finalmente, muitos não acreditavam que Orban cedesse o poder de um modo pacífico. Foi o que Orban fez. Reconheceu a derrota logo na noite das eleições e não há notícias de fraude eleitoral. Tal como não houve quando Orban venceu. Muitas vezes, a realidade é mais simples do que as emoções. Orban ganhou quando a maioria dos húngaros o considerava um bom PM. Perdeu quando abusou do poder e deixou de ter a confiança dos húngaros. Muito simplesmente, a democracia funcionou na Hungria.