A crise energética, por estes dias, pôs a nu o que já todos sabíamos: a dependência brutal em combustíveis fósseis. Com efeito, dados do ano passado do Energy Institute mostram que Petróleo, Gás e Carvão representam 87% do consumo energético mundial, ao passo que as energias renováveis não vão além dos 8%.

O caso da União Europeia é particularmente grave, pois enquanto outras zonas do mundo são independentes, exportadores ou quanto muito autossuficientes, o velho continente continua a viver à custa de importações – mais de metade da energia consumida – e quando o mercado é perturbado, a crise instala-se.

Todavia, estamos a falar do farol mundial da descarbonização: o bloco de países que traçou (e obrigou-se a isso por via da Lei Europeia do Clima) ambiciosas metas de neutralidade carbónica (com reduções intercalares, caso da meta de 55% já em 2030) para daqui a pouco mais de duas décadas (2050).

Contudo, o processo não começou ontem. De facto, também já há mais de 20 anos que vimos traçando este caminho, e a “viagem” não tem sido nada barata, incluindo:

– Orientação de investimentos, autorizações e facilidades de licenciamento, discriminação de empresas no acesso a fundos europeus, exigências burocráticas às empresas, etc., etc., o que condiciona o normal funcionamento dos mercados, bem como os custos associados, que acabam por passar para os contribuintes,

– Ajudas, subsidiação, isenções, garantias e preferências, por exemplo para instalação de energias renováveis ou para carros elétricos, e para os restantes – produção, carros – pesados impostos, muitas vezes com tributação em cima do já tributado… No fim, as borlas a uns e os impostos a outros, são todos pagos pelos do costume, os contribuintes,

– E depois o próprio mercado do Carbono, com custos por emissões que, invariavelmente, recaem, ao passarem para o preço final, como um imposto oculto sobre os contribuintes no que respeita a produtos internos, e no caso das importações, como uma tarifa que lhe aumenta o preço, mesmo quando de bens como carros elétricos mais baratos vindos da China, e que por isso contribuiriam para o desígnio final, se trata…

Gostava de ver tudo isto somado nos últimos 20 anos. Só em Portugal serão dezenas de milhares de milhões de euros, o que pagaria vários resgates bancários como tivemos com a Troika, pagaria muitas TAP, ou anos de despesa com o SNS por exemplo. Agora imaginem o valor absurdo no conjunto dos 27.

Com todo esse esforço de 20 anos, conseguimos que energias renováveis e energia nuclear juntas não passem de metade do valor de combustíveis fósseis, na sua maioria importados, pelo que continuamos a importar da Rússia ou dos EUA e a tremer quando algo acontece no Estreito de Ormuz ou no Canal do Suez.

Para muitos, a emergência climática tudo justifica. E como o importante é agir custe o que custar, o quanto custa é ignorado. Ora isto é um caminho cada vez mais perigoso. O que ganhámos face ao que gastámos tem que ser avaliado. Ou numa União Europeia com uma economia estagnada e cada vez menos relevante a nível mundial, vamos gastar mais uma enormidade nos próximos 20 anos em cima do muito já gasto nestes 20 passados, mesmo que daí resulte fraco proveito, e se assim for gastamos ainda mais?

Não pode ser. Há um ano os EUA elegeram Trump e este logo rasgou os acordos. Porque nos EUA a coisa (aqui como no resto) se resume a tudo ou nada. Um dia podemos – porque vivemos em democracias e as pessoas têm muito mais com que se preocupar – eleger quem em vez de tudo promete nada – quem diz no clima diz na imigração, mas esse também controverso tema, deixo para outros…

Isto não significa que as Alterações Climáticas não nos tragam desafios ou que a descarbonização não traga vantagens ou que não deva ser estimulada. Antes que o caminho trilhado, em muitos aspetos, não dá mostras de estar a correr bem, o que pode ser pensado e corrigido – porque em democracia há sempre alternativas – mas para isso tem que ser escrutinado, avaliado e as opções debatidas. Se não o soubermos fazer? Podemos acabar a dar razão a Trump.