Especialmente agora, que estão à porta as autárquicas, aterrorizam-me as promessas de desenvolvimento.
A ideologia desenvolvimentista tem sido o alicerce das grandes utopias políticas do regime, da esquerda à direita, de Sócrates a Passos Coelho, e tem inspirado praticamente todos os autarcas indígenas.
Trata-se no fundo de um ideal de prosperidade suburbana (que pode ir do Algueirão à Quinta da Marinha), culminando na ‘vivenda’ (de preferência cúbica, com piscina e vedação de alumínio verde escura), no automóvel germânico, na electrodomesticação integral, em veraneios de catálogo de agência de viagens e na matrícula da prole binária em colégios onde hoje em dia florescem os Santiagos, os Diniz, as Matildes e as Purezas.
O “desenvolvimentismo” é o grande responsável pelos loucos carroceis rodoviários chamados rotundas, os pavilhões desportivos para moscas, os abarracamentos de armazéns baptizados na sinalética como “parques industriais”, as fatais e sempre desertas ciclovias coloridas e outros símbolos do prestígio municipal, como eram outrora os pelourinhos.
O problema é que o “desenvolvimento” não é riqueza nem civilização, mas apenas a sua imitação barata ou mesmo o seu oposto. Nos países decentemente civilizados, a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Suíça ou (vá lá) os Estados Unidos, ninguém fala em desenvolvimento. Mas simplesmente em ir fazendo e melhorando as coisas.
A teologia do Desenvolvimento é muito característica do Terceiro Mundo. Costuma ser um álibi de Estados necessitados de constantes empréstimos externos, raramente pelas melhores razões ou sequer com boas intenções. De facto, o “desenvolvimentismo” é um tique próprio do Egipto ou da Argélia, da Bolívia ou dos Camarões.
E já que chegámos ao marisco, insisto: o “desenvolvimentismo” tem sido, de mãos dadas com a corrupção, a doença crónica das alegadas elites portuguesas, em geral tão inseguras, ávidas e extractivas. E uma causa maior do nosso endividamento e empobrecimento colectivo.