O Departamento de Inteligência Nacional (DNI, no original), liderado por Tulsi Gabbard, demitiu dois altos funcionários do Conselho Nacional de Inteligência (NIC). A decisão seguiu-se à divulgação de um memorando, que desclassificado, contradizia as afirmações do Presidente Trump sobre as operações do Tren de Aragua, um gangue venezuelano em solo americano.
Esta foi uma tentativa de eliminar divergências políticas internas e assegurar que as avaliações dos serviços secretos se alinhem com a narrativa da Administração — nomeadamente, a ideia, absurda, de que os Estados Unidos estão a ser “invadidos” sob ordens do regime de Maduro. Esta óbvia falsidade serviu para Trump acionar um decreto de 1798 — a Lei dos Inimigos Estrangeiros — que permite ao Presidente deter ou deportar cidadãos oriundos de países considerados inimigos.
Originalmente criada para travar a espionagem em tempos de guerra, a Lei dos Inimigos Estrangeiros é agora invocada pela Casa Branca como base legal para a deportação sumária de centenas de alegados membros de gangues. Inevitavelmente, com a ânsia de alimentar a máquina propagandística, pessoas sem antecedentes criminais e com proteções legais foram detidas e expulsas — algumas por tatuagens de sensibilização para o autismo ou por serem o símbolo do Real Madrid. Tal não é novo: a politização dos serviços de segurança como justificação para medidas ilegítimas do poder executivo. Foi assim com a Guerra do Vietname. Foi assim antes da invasão do Iraque.
O memorando é claro: o Tren de Aragua não opera sob direção de Caracas, com base em fontes e processos reconhecidos pela comunidade de inteligência e segurança. Descaradamente, as demissões foram justificadas por Gabbard como uma forma de pôr fim a uma percebida “politização” da comunidade de inteligência e segurança. Pior ainda, soube-se depois que os funcionários foram afastados por resistirem à pressão do número dois no DNI para que alterassem as suas conclusões no memorando, para não colocar em questão as decisões da Administração.
Enquanto o DNI molda a inteligência nacional aos caprichos do Presidente, este dá sinais de querer encarnar não um líder eleito, mas um chefe supremo. Coincidindo com o seu 79.º aniversário, Trump decidiu transformar o que seria uma modesta celebração do 250.º aniversário do Exército num desfile militar digno de Moscovo, Pequim ou Pyongyang: 6.500 soldados, 150 veículos, 50 aviões. Como a Avenida Pensilvânia em Washington não suporta tanques, os veículos serão transportados em comboios e camiões do Regimento de Engenharia, enquanto os helicópteros chegarão por via aérea. O custo? Cerca de 45 milhões de dólares — numa altura em que o governo corta fundos à investigação médica, a programas para crianças desfavorecidas e a sistemas sociais essenciais. Mas para Trump, esta demonstração de adulação ao querido líder “não tem preço”.
Esta manipulação dos serviços de segurança e inteligência, assim como a deriva autoritária do Presidente dos Estados Unidos, não são um problema isolado — é algo que deve ser seguido, com alarme, na União Europeia. Num momento em que a Europa enfrenta crescentes desafios à sua segurança, incrivelmente alguns vindos do outro lado do Atlântico, a integridade e a confiança entre serviços de informação é crucial. Se os Estados Unidos, eixo fundamental da estabilidade internacional, se permitem estas derivações autoritárias, a União Europeia não pode vacilar. É preciso reforçar os seus próprios mecanismos de proteção democrática e rejeitar qualquer sinal de autoritarismo que ameace os pilares que sustentam o seu futuro. Se a liderança dos EUA continuar com esta politização do que antes eram instituições apolíticas, a UE precisa reforçar os seus mecanismos de proteção e resistir a qualquer tentação autoritária que ameace o seu funcionamento e posicionamento na ordem mundial
Esse desfile militar não é só uma festa para o ego do Trump — é um sinal de que ele pode estar a preparar o terreno para algo maior, para mostrar os músculos para além das fronteiras dos EUA. Se ele continuar a querer impor a sua vontade no mundo, a União Europeia vai sentir o impacto, porque vai ter de lidar com uma América cada vez mais imprevisível e pronta para intervir onde lhe apetecer.
Quando o vosso cronista era bem mais novo (e denunciando agora a idade que tem), um dos prazeres literários vindos dos Estados Unidos eram comics. Comprados em bancas de Cascais e Oeiras, esperávamos ansiosamente por um novo número dos nossos super-heróis favoritos (o vosso cronista era especialmente fã do Doutor Estranho). Num desses exemplares, no caso do Quarteto Fantástico, o vilão da edição — um pequeno criminoso que desenvolvera um aparelho para alterar a mente dos americanos — conseguira tomar o poder político e militar. Numa das páginas, prestes a assumir a presidência imperial, este decide vestir um uniforme militar. Na bolha de diálogo por cima da sua cabeça, lia-se: “Os americanos estão prontos para ter um ditador.”
Parece que estamos a chegar a esse momento — e os americanos continuam, perigosamente, apáticos à sua chegada.