E se eles invadirem os Açores?, perguntam agora a uma pessoa, ainda mal acabada de se espreguiçar para o Ano Novo. A realidade tem o costume de se impor, mas este ano abusou: os desejos de paz esfumaram-se ao fim de 48 horas mal contadas. 2026 é um carro que se acabou de tirar do stand e bateu à primeira curva.

Bom, dizemos, como se não nos tivéssemos preparado para outra coisa desde crianças, verdade que a ilha Terceira é um pouco mais pequena do que a Gronelândia (5415 vezes mais pequena, para ser exacto – praticamente só especialistas em geografia dariam pela diferença), mas temos mais ou menos a mesma população. Notem a vantagem: muito menos metros quadrados para proteger por cabeça e sotaques às vezes mais difíceis de entender que o próprio esquimó – um trunfo sem preço na hora de trocar tácticas de guerra em linguagem de código. Mas, convenhamos, a mera tentativa não nos vem a calhar. Fizemos outros planos para o Ano Novo e é coisa para assustar as vacas (ainda me põem as bichas a dar leite esquisito, sem lactose. De espelta ou assim).

Todavia, é curioso que se tenha de pôr as coisas nestes termos para que alguém perceba o que acaba de acontecer, tão mal vão as nossas noções de certo e errado. Tão baixo caíram as nossas expectativas. Tão órfãos de referências andamos. É preciso colocar os problemas do mesmo modo como os apresentaríamos a uma criança: “Gostavas que te fizessem o mesmo? Ah. Então, quietinho.”

Donald Trump derrubou um ditador porque calhou, acidentalmente, estar um no caminho. Podia ter sido um democrata, uma velhinha simpática, o Papa, uma cria de guaxinim. Não é porque lhe incomodem os ditadores – pelo contrário; nem ele esconde quanto aprecia “homens fortes”. Calhou que este ditador estava lá e, por qualquer razão, não alinhou no plano (“Ele fez asneira e deu-se mal”, disse mais ou menos nestes termos Peter Hegseth, ex-apresentador de televisão que é hoje o ministro da Defesa norte-americano). Até a estas magras horas de dia 8 do Janeiro mais longo de que nos lembramos, continuava lá tudo o mais: o mesmo regime, o mesmo governo, a mesma vice, com o aviso de que vai sofrer consequências se não fizer o que lhe mandarem – e a oposição alegadamente eleita pelo povo a não contar rigorosamente nada para o baralho.

Não temos o menor indício de que Trump não aprecie ditadores. O problema deste é que estava preso por fios, puxados por um mestre-marionetista ausente, ocupado com a sua própria guerra na Ucrânia. Não era ditador que se prezasse; apenas uma reles imitação, um espantalho. Não impressionava Trump, que é o mesmo que dizer: não lhe metia medo. A vítima perfeita para dizer: o próximo leva igual – boa maneira de ganhar guerras sem sequer ter de as travar porque, afinal, sempre há alguém naquela administração que tenha lido um livro ou dois. À parte isso, estão tão preocupados com a liberdade do povo venezuelano como com a do povo saudita ou do russo. Ou do açoriano – que, ao menos desse ponto de vista, não tem razão de queixa.

Então, procuramos contexto histórico para nos guiar nestes tempos novos. A doutrina Monroe, de 1823. Para 200 anos, está óptima! Verdade que, no tempo dela, ainda havia impérios coloniais europeus na América, tinha o Brasil acabado de ser nosso, os Estados Unidos ainda não eram sequer bem metade dos 50 estados que são hoje – será que serve? Ou Noriega, extraído quase à mesma maneira de dentista ainda agora em 1989. Com a diferença de que, a seguir, não se disse: Colômbia, México, Gronelândia: a seguir, são vocês.

Em princípio, estou descansado quanto à ilha Terceira e aos Açores em geral. Temos uma base aérea em que os americanos foram desinvestindo até a tornar apenas aquilo a que chamam base-nenúfar – só um sítio onde pousar e seguir, a meio de uma longa viagem transatlântica. Não temos petróleo nem traficamos drogas (a menos que Marco Rubio tenha visto e levado demasiado a sério “Rabo de Peixe”). Não nos faltam riquezas naturais, mas suspeito que não do tipo mais apreciado por Trump, além de que o clima, lamentavelmente, não compete com o da Florida. Se mesmo assim decidirem vir, atiçamos-lhes os touros, como fizemos aos espanhóis. Mas, se também isso correr mal, fica aqui dito que sempre gostámos das Levi’s baratas e de Three Musketeers.

“É melhor ser temido do que amado”, dizia Maquiavel, mesmo reconhecendo que bom, bom, era o príncipe suscitar as duas. A questão, aqui, é que os Estados Unidos não se estão a tornar temidos, que sempre foram, é estarem a tornar-se odiados, mais do que alguma vez antes e mesmo entre quem os amava. A Europa, a América Latina, muitas partes de África e da Ásia vão sofrer nos próximos anos, mas, no longo prazo, ninguém pagará um preço mais caro do que os próprios americanos.