1 Se não fosse a amenidade do fim de semana, três longos dias campestres embalados pelo anúncio da primavera e teria ficado submersa sob a minha nova condição de (aparentemente, não é?) europeia mal olhada. Berço, história, geografia, pertença, tudo sob suspeita ou quase. Europa descartável? Europeus não requisitados? Maus alunos fora da aula? Sim, mas. O “mas” é um modo de dizer que podendo não parecer, ainda depende da capacidade da União Europeia, dos seus líderes, de quem a pensa e de quem a interpreta. Não foi um corte e também ainda não é o fim do FIM da aliança transatlântica embora a estranheza tenha ficado em relevo: indignação, fúria, insultos, arrogância, irresponsabilidade, dos americanos. Subentendido muito entendido: quem são “eles” para “nos” castigar, mas a questão é antes saber se alguma coisa – muita coisa – não tem sido tão dramaticamente mal semeada no solo da União Europeia que os frutos sejam agora os que são. Se a previsibilidade era alta na catalogação da irrelevância “desta” Europa, a probabilidade – não é o mesmo que previsibilidade – de se ouvir o que se ouviu aos enviados de Trump a Munique (enguicei logo com o lugar, mal soube que fora nele uma reunião deste calibre e nesta nova era), também não era modesta. Foram lá para isso.

2 Mas há quanto tempo não se previa “isto” ou não se “antecipava” que um dia… “isto” aconteceria, dizia-me alguém com uma razão mais competente que a minha. É verdade: há quanto tempo não se criticava audivelmente, em diversos fóruns e sedes, a insustentável preguiça sonolenta em que tinham ancorado 27 (desunidos) países? Não estava a oficialização da irrelevância europeia há muito escrita nos astros?

A tentação de relativizar a anemia da UE (disparando sobre Trump & seus temíveis colaboradores, por exemplo), pode servir o ressentimento pós-Munique, mas não serve mais nada. E menos ainda serve uma abrupta mudança de cenário e um “hoje” submerso na incerteza – que futuro sinaliza este novo presente? Seja como for, se o vexame foi – e permanece – estrondoso, convinha que o desnorteio ou o estado de negação dos europeus não fossem ainda maiores.

3 Vance falou de democracia e “das” democracias europeias. Do que já foram e do que são, da qualidade intrínseca que já conheceram, dos valores que já praticaram. Não por acaso, Trump mandou o seu vice à Europa lembrar-lhe isto. A guerra é ideológica ou não será. Não sei se alguém fez caso ou irá fazer, mas a reunião convocada num ápice por Macron há três dias em Paris só com parte da UE – os países que ele acha que “contam” – pode não ter sido a melhor ideia.

Com uma administração americana a repensar tudo – como está a fazer –, meia dúzia de líderes europeus aconchegadamente sorridentes sentados a uma mesa a olhar para uma câmara de televisão, repensaram o quê? Foi para mostrar velocidade de acção e capacidade de resposta (a Vance?); a necessidade de haver uma foto para memória futura? O que não parece ter sido foi manifestação de uma intenção, uma reflexão, uma análise, uma mudança de cabo. Uma reação. A verdade é que a reunião dos “filhos” – os enteados estavam em casa a ver pela televisão – convocada tão instantaneamente nunca poderia produzir comunicados com substância. Nem muito menos resultados com consistência.

4 E Portugal, neste momento onde se trata da guerra e da paz? Portugal está a fazer o quê e a pensar como? A Defesa passou a prioridade indiscutível ou o país vai engonhar?

E como bem lembrou anteontem Miguel Monjardino na SIC, estão os candidatos presidenciais atentos e vigilantes? É que só vai haver um tema: este.

PS: Porque é que António Costa era o único sem casaco em Paris?