Rádio Observador

Imprensa

Económico, muito mais do que a morte de um jornal

Autor
1.016

O mal menor do Diário Económico é a mudança do negócio dos jornais. O seu grande problema chama-se Ongoing, um dos grandes símbolos dos negócios de tráfico de influências da década passada.

A edição em papel do Diário Económico saiu esta sexta-feira, provavelmente, a última vez para as bancas. Está suspensa, desconhecendo-se se e quando pode voltar. No “ar” mantêm-se o site e a ETV.

O fim provável de um jornal com a importância do Económico é sempre uma notícia triste.

Serei suspeito para falar porque – e aqui fica a manifestação de interesses – foi ali que comecei a carreira e nos 10 anos que ali passei estão alguns dos melhores da minha vida, fiz amizades eternas e tive o privilégio de trabalhar com alguns dos melhores jornalistas (texto e fotografia), paginadores, infografistas e outros profissionais que temos. Mas esta visão pessoal é a menos importante.

Importante é que o Económico fundou o jornalismo económico moderno em Portugal. Jaime Antunes e a equipa que liderava perceberam que o ritmo a que então se desenvolviam a economia e os negócios – estávamos na viragem da década de 80 para a de 90 – não eram compatíveis com edições semanais ou secções menos aprofundadas de diários generalistas. Tiveram a visão, souberam executá-la e consolidá-la. Fizeram ali aquela que foi a maior e melhor escola de jornalismo económico que tivemos e que contaminou positivamente a generalidade das redacções do país. Hoje é difícil encontrar uma redacção de jornal, revista, web, televisão ou rádio de primeiro plano que não tenha profissionais que por ali passaram a aprenderam.

Depois disso o Económico conheceu várias fórmulas e formatos, várias direcções e vários accionistas, como o grupo espanhol Recoletos e a Media Capital de Pais do Amaral (quando ainda havia “O Independente” e a TVI não fazia parte do grupo), em diferenciados arranjos de capital. Todos, ao longo de quase duas décadas, souberam desenvolver a marca, reforçá-la, aguentar os embates da concorrência, adaptar-se e reagir às profundas mudanças que a imprensa viveu e continua a viver e manter a matriz de jornal de referência num segmento exigente e complexo como é o da economia e negócios.

Sabemos que o negócio dos jornais diários está a acabar tal como ainda o conhecemos. Um pouco por todo o lado vão-se sucedendo os anúncios do encerramento de edições em papel e a concentração de esforços nas plataformas digitais, onde agora quase toda a gente procura informação. E que isso leva, na generalidade dos casos, à redução de estruturas, de custos e de despedimentos, porque as métricas do negócio digital são diferentes.

Mas em relação ao Diário Económico também sabemos outra coisa. Sabemos que esta evolução dos tempos, que exige mudanças que são bem-vindas, são o mal menor do jornal e do grupo, até porque a equipa que o faz minuto a minuto tem sabido adaptar-se. O grande problema do Económico chama-se Ongoing e tem dois rostos: Nuno Vasconcelos e Rafael Mora. Foram eles que há 10 anos quiseram pagar um preço inflacionado para comprar o jornal, contando com um ganho de influência que as contas do negócio, só por si, não justificavam.

Eles são símbolos maiores do regime de negócios e negociatas que vigorou durante grande parte da década passada e que ajudou a levar o país ao fundo. Pense-se no grupo Espírito Santo e eles estavam lá. Pense-se na PT e nas suas relações perversas com alguns accionistas e eles estavam lá. Pense-se no “assalto” ao BCP e eles estavam lá. Pense-se no tráfico de influências entre política e negócios, serviços secretos e negócios, maçonaria e negócios, e eles estavam lá.

Quando somos apanhados numa rusga podemos ter tido o azar de estar no sítio errado à hora errada. Mas se somos apanhados em quase todas as rusgas é porque possivelmente esse é o nosso modo de vida.

Este antigo regime esboroou-se e aqueles que viviam de expedientes de dívida e troca de favores, sem negócios sólidos e sustentáveis, foram com a enxurrada. Foi o que aconteceu à Ongoing. A partir daí, o accionista literalmente abandonou o jornal, como um pai que abandona um filho à sua sorte. Não desenvolveram nem deixaram desenvolver. Não meteram as mãos no problema nem venderam, deixando que outros, capazes, o fizessem. Desertaram.

Sem uma estratégia definida pelos accionistas, que são quem pode e deve traçá-la, e, por outro lado, inviabilizando qualquer solução externa, condenaram o jornal.

O Económico não é mais uma vítima das profundas mudanças tecnológicas que estão em curso. Estas são bem vindas e devem correr o seu curso. Podem ser dolorosas, exigir fortes adaptações, mas são boas. Da mesma forma que acho que plataformas como a Uber devem operar e que os taxistas devem adaptar-se, que os hoteis devem saber viver com a AirBnb e que as livrarias têm que saber concorrer com a Amazon, também acho que os jornais e as redacções têm que perceber os tempos novos e encontrar no mercado e na sociedade o seu espaço.

Este caso é filho, precisamente, da falta de ética e do desvirtuamento das regras de mercado. O Económico teve o azar de ter os accionistas errados, que não merecem de todo a equipa que está a cair de pé e manteve a liderança do mercado até ao último dia. A marca Económico já demonstrou que merece viver. Mas a Ongoing não deixa saudades.

Jornalista, pauloferreira1967@gmail.com

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Orçamento do Estado

Afinal havia outro (orçamento)

Paulo Ferreira
2.412

O governo pretendeu manipular a discussão do OE2017. Para isso, serviu-se da esperteza de ganhar alguns dias sem os números reais, para que pudesse contar a sua história baseada em números falseados

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)