No passado dia 5 de janeiro foi publicado aqui no Observador, um artigo da minha autoria, onde defendi que a desinformação e o populismo estão a degradar o debate público ao substituírem factos por emoção e por uma lógica de divisão permanente, colocando em risco a liberdade individual e a convivência democrática. Essa reflexão torna-se hoje particularmente atual.
A importância dos factos deve sempre prevalecer sobre a interpretação interessada de palavras ou meias-palavras. Mais do que isso, a análise de qualquer declaração pública deve ser feita à luz do percurso, da coerência e das ideias que cada pessoa tem defendido ao longo do tempo. Ignorar esse contexto é abrir caminho à distorção deliberada.
João Cotrim de Figueiredo afirmou esta segunda-feira, no Fundão, que não excluía votar em qualquer candidato numa eventual segunda volta, incluindo André Ventura, acrescentando que o Ventura “dos últimos quatro dias” lhe parecia diferente e com um discurso mais moderado. Estas palavras desencadearam uma vaga de indignação, múltiplas leituras abusivas e vários soundbites. Perante isso, Cotrim de Figueiredo sentiu a necessidade de esclarecer de forma inequívoca: “É óbvio que não quero André Ventura como Presidente”. Uma clarificação simples, objetiva e coerente com o conteúdo real da sua posição.
Para se compreenderem as verdadeiras intenções destas declarações, é indispensável recuar no tempo e analisar a postura consistente de João Cotrim de Figueiredo em relação ao Chega e ao seu líder. Só assim é possível perceber a coerência entre afirmar que não votaria em André Ventura e, simultaneamente, assumir que, não estando ele numa segunda volta, faria uma reflexão profunda sobre os candidatos em presença, como a responsabilidade do voto democrático exige.
João Cotrim de Figueiredo e a Iniciativa Liberal sempre foram claros quanto à existência de linhas vermelhas em relação ao Chega. Questionados repetidamente, seja Cotrim, Rui Rocha ou Mariana Leitão, a resposta foi sempre a mesma: não há acordos com o Chega, nem sequer perante a necessidade de formação de Governo. Durante as últimas legislativas em que Cotrim esteve na linha da frente, recusou por diversas vezes alimentar o debate em torno do Chega, precisamente por entender que cada menção lhe conferia palco, algo que conscientemente evitou.
No Parlamento Europeu, João Cotrim de Figueiredo tem mantido uma linha clara e coerente na defesa dos valores democráticos, do Estado de Direito e do debate político assente em factos e responsabilidade. Enquanto vice-presidente do grupo liberal Renew Europe, assumiu posições firmes contra o populismo e a demagogia, alertando para os riscos que os discursos simplistas, identitários e de confronto permanente representam para a democracia europeia. A sua intervenção tem sido marcada pela recusa da política do medo e pela afirmação de uma visão liberal que coloca a liberdade individual, o pluralismo e as instituições democráticas no centro da ação política.
É fácil atirar a primeira pedra. Mais difícil é manter coerência de pensamento e responsabilidade política. E isso é algo que não pode ser negado a João Cotrim de Figueiredo. A sua campanha tem sido um exercício de resiliência democrática e de clareza intelectual. Uma vez mais, o seu estofo político, a capacidade de argumentação e a liderança serena, apoiados por uma equipa coesa e profundamente empenhada, permitiram conquistar a confiança necessária para domigo chegar a uma segunda volta. Num tempo de ruído e simplificação, essa coerência continua a ser um ativo raro e essencial.