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Em nome do Brasil, peço desculpas /premium

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Não, eu não elegi este governo. Mas o meu país o fez. Parte por acreditar na política do ódio, parte por ignorância, parte por ser vítima das tantas fake news produzidas ao longo do processo eleitoral

Não, não posso falar em nome de todos dos brasileiros. Mas acredito que eu possa falar em nome de todos aqueles que não elegeram Jair Bolsonaro como presidente. Que, aliás, é a maior parte do Brasil. O país tem 209 milhões de habitantes, dos quais 147,3 milhões estavam aptos a votar no ano passado. Todavia, 30 milhões não votaram nas eleições de 2018. Ou seja, os 57,8 milhões de votos que o Presidente recebeu, acabam por representar um percentual muito inferior a metade dos brasileiros- votantes ou não.

Enfim. Eu gostaria de pedir desculpas ao mundo. Estou com vergonha, com uma gigantesca vergonha por todos os episódios que o Brasil vem protagonizando. Sim, eu fiz o que estava ao meu alcance para tentar evitar a eleição deste senhor. Sim, eu sabia desde o começo que as coisas seriam assim. Até perdi um emprego por isso. Mas me pergunto se não poderia ter feito mais. Brigado mais, argumentado mais, gritado mais. Não sei. E por isso peço desculpas.

Peço desculpas pelos 239 agrotóxicos liberados pelo governo, que estarão presentes no suco de laranja que seus filhos bebem antes de ir para a escola, nas mangas saborosas que vocês compram no supermercado, nos alimentos que engordam as nossas famosas vacas de carne de “alto nível”. Peço desculpas por não ter conseguido evitar que a saúde do mundo estivesse em risco por causa das más decisões dos brasileiros.

Peço desculpas pelo desmatamento da Floresta Amazônica, pulmão do mundo, que aumentou 88% em junho de 2019, comparado ao mesmo período de 2018. Floresta esta que não é desmatada apenas por brasileiros, mas sobretudo por grandes companhias estrangeiras que passaram a contar com inúmeras perigosas regalias nesse novo e lamentável Brasil.

Peço desculpas por termos um ministro da Justiça, nomeado depois de escancarados favores políticos ao atual governo e que antes disso foi um juiz sabidamente parcial, comandando uma estranhíssima operação de “combate à corrupção” que, para qualquer pessoa lúcida, mais parecia uma caça às bruxas com alvos muito determinados.

Peço desculpas a todas as mulheres, que tiveram que ouvir um Presidente da República dizer que a Amazônia é “a virgem que todo tarado quer”, bem como por ver o Brasil acompanhar o voto dos países islâmicos acerca de saúde da mulher e planejamento familiar. Peço desculpas a todo o mundo por ver o Brasil mudar de comportamento na ONU, descomprometendo-se com toda a comunidade internacional por tratados e pactos há décadas assinados.

Peço desculpas aos norte americanos, já que o Presidente cogita seriamente nomear seu próprio filho como embaixador do Brasil nos EUA, sem que esse nunca tenha pertencido à carreira diplomática, mas já tenha “fritado muito hambúrguer”, segundo a própria família. Eu honestamente não sei expressar o constrangimento que isso nos gera.

Peço desculpas aos filipinos, uma vez que o Brasil se absteve de votar a favor das investigações sobre massacres humanitários ocorridos no país. Peço desculpas a todos os imigrantes que trabalham no Brasil, por verem a iminência de mudanças tão bruscas nas regras de aposentadoria, que ameaçam a todos.

Não, eu não elegi este governo. Mas o meu país o fez. Parte por acreditar na política do ódio, parte por ignorância, parte por ser vítima das tantas fake news produzidas em larga escala ao longo do nosso processo eleitoral. Mas todo dia, vendo o tamanho dessa desgraça para o mundo inteiro, eu me pergunto se não poderia ter feito algo a mais. Talvez pudesse. E por isso, peço desculpas.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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