Sempre que fenómenos climáticos extremos provocam falhas no fornecimento de eletricidade, o debate público regressa ao mesmo ponto: enterrar as linhas elétricas.

A ideia é intuitiva, apelativa e politicamente simples. Como em muitas situações, trata-se de uma resposta imediata a um problema estrutural complexo, que ignora a realidade do sistema elétrico português — e os custos associados.

Um enterramento generalizado da rede facilmente significaria um investimento da ordem de vários pontos percentuais do PIB, potencialmente acima de 5%. Mesmo admitindo que vamos ter fenómenos climáticos extremos com mais frequência, a ordem de grandeza é suficiente para exigir prudência antes de transformar uma reação emocional numa política pública dificilmente sustentável.

Para compreender o problema e escolher a melhor solução, importa analisar três dimensões essenciais: porque temos uma rede maioritariamente aérea, quais os trade-offs técnicos e económicos entre soluções e o que faz sentido fazer no futuro.

A predominância de rede aérea em Portugal não resulta de atraso tecnológico. Resulta de um conjunto muito concreto de variáveis históricas, geográficas, económicas e regulatórias. Portugal tem um povoamento extremamente disperso, sem paralelo na Europa, e uma baixa concentração industrial, com elevada incerteza sobre os usos futuros do território. A eletrificação foi tardia e feita com soluções rápidas e de menor custo inicial. Acresce a herança de redes municipais e um crescimento incremental da infraestrutura ao longo de décadas.

O resultado é uma rede com muitos quilómetros por ponto de consumo e um baixo consumo médio por ligação. Esta combinação penaliza estruturalmente qualquer solução intensiva em capital, porque o retorno social do investimento é necessariamente limitado

A este contexto soma-se o enquadramento regulatório. A remuneração das redes assenta no capital investido, o que historicamente favorece uma regulação que prefira soluções de menor investimento inicial, sobretudo fora dos centros urbanos. Não por ideologia, mas por racional económico num país com baixo consumo por ponto de entrega.

Do ponto de vista técnico, a diferença entre rede aérea e rede enterrada não se resume a “mais ou menos resistente”. A rede aérea exige menos CAPEX, é mais rápida de construir e menos intensiva em mão de obra na fase de instalação. Em contrapartida, é mais exigente em manutenção e mais exposta a tempestades, incêndios e outros eventos climáticos extremos. Isto é, o menor investimento inicial implica custos de operação mais altos. A rede enterrada apresenta exatamente o perfil inverso: investimento inicial muito mais elevado, maior complexidade de execução, mas menos avarias e maior resiliência operacional.

Quanto maiores forem os custos de mão de obra, os riscos climáticos, a criticidade da infraestrutura servida e a densidade de consumo, maior é o racional para enterrar a rede. É por isso que o enterramento faz sentido em zonas urbanas densas, infraestruturas críticas ou corredores estratégicos. Não é por acaso que é aí que ele já existe.

Ainda assim, mesmo considerando menores custos de operação e manutenção ao longo da vida útil, o custo total de uma rede enterrada permanece, em média, superior ao de uma rede aérea. Ignorar este facto é desinformar o debate.

O caminho para reforçar a resiliência do sistema elétrico não passa por soluções absolutas, mas por escolhas equilibradas. Isto é, em vez de uma solução de enterramento de todas as linhas ou das novas linhas, fazer um enterramento seletivo de troços críticos, procurando também inovar para reduzir custos de instalação. Ao mesmo tempo, reforçar e modernizar a rede aérea onde continuará estrutural. Com estas duas linhas de actuação, procurar então uma articulação rigorosa entre resiliência, custos, financiamento e capacidade humana de execução.

Atente-se a este último ponto: capacidade humana de execução, porque o desafio não é apenas financeiro. O enterramento da rede exige parcimónia também por razões de simples execução: exige muito mais recursos especializados, num contexto em que já existe escassez de mão de obra qualificada para responder simultaneamente às necessidades da transição energética, da expansão das redes e da modernização do sistema.

No seminário da Associação Portuguesa da Energia sobre as lições do apagão, uma conclusão foi clara: os consumidores valorizam a resiliência, mas têm hoje baixa disponibilidade para pagar por ela. Esse é um dado político, económico e social que não pode ser ignorado.

O verdadeiro debate não é então entre rede aérea ou rede enterrada. É sobre como equilibrar risco, resiliência e custo num país com restrições orçamentais, limitações de capital humano e uma transição energética exigente pela frente. Simplificar este debate pode ser confortável. Resolver o problema exige muito mais.