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É uma rude frase popular, como costuma ser quase tudo o que sai da voz incómoda do povo, mas bem ilustrativa do atual momento em que vive a política portuguesa. E essa circunstância é a de um governo que protagonizou um modelo político que ruiu por si próprio, praticamente sem ação externa, a ser reconduzido novamente ao poder pela inépcia, incompetência e estupidez política dos que, em vez de prepararem a mudança de ciclo, se entregam, de forma autofágica, à sua própria destruição.

Podemos discutir as razões de fundo que levam os drs. Rio, Rangel, Francisco e Melo a engalfinharem-se nas suas respetivas agremiações partidárias, dando ao País espetáculos constrangedores. Mas, com franqueza, já não interessa muito. Com tempo poderia ter-se pensado nisso e em como evitá-lo, estivessem eles recetivos ao bom senso. Noutras circunstâncias, seria até divertido vê-los assim, porque nos dariam algumas horas de ócio bem passadas. Sucede que nos preparamos para eleições legislativas, nas quais se decidirá o futuro do governo do PS e da frente de esquerda que dirigiu o País nos últimos anos, a sua sobrevivência ou substituição por algo mais tragável. É assunto sério.

Cumpre também lembrar que, desde os governos de Vasco Gonçalves, nunca tínhamos sido governados tão radicalmente à esquerda. Ou, dizendo melhor, com a extrema-esquerda, com o PCP e o Bloco, dois partidos que defendem modelos políticos totalitários e que são profundamente antieuropeístas, sentados na mesa do Orçamento e em tudo o que são cadeiras de poder. Com um Partido Socialista que, para se manter no governo, cedeu a todas – mas mesmo a todas – exigências desses partidos radicais para aprovar orçamentos de Estado e permanecer em funções, como se viu por este último, rejeitado por mero tacticismo partidário. Que, para isso, alinhou em políticas inimigas da iniciativa privada criadora de riqueza e prosperidade, renegando a sua tradição europeísta e democrática. Fê-lo nas escolas, na saúde, na tributação do património, na legislação laboral, na criação de impostos contra as «fortunas», nas mais de 522 alterações fiscais destes seis anos, no aumento desmesurado do funcionalismo público e numa insistente e perniciosa radicalização do discurso contra «os privados» saída do velho marxismo e da luta de classes. De tudo isto resultou um país de novo adiado, sem reformas e já quase irreformável, onde não há crescimento económico, mas estagnação, e que está continuadamente de mão estendida à caridade de Bruxelas (“Já posso ir ao banco?”). Um país cada vez mais pobre, ultrapassado por países europeus que, há uma década, estavam económica e socialmente muito atrás de si.

Este momento de implosão da geringonça era suposto ser o do fim deste ciclo. E, como é próprio em democracia, o tal regime péssimo que só não é pior do que todos os outros, quando um modelo se esgota deve ser substituído por outro evidentemente distinto. Com diferentes ideias e protagonistas novos que corporizem um projeto alternativo ao que esteve no poder. Em países da União Europeia essa alternância costuma oscilar do centro esquerda para o centro direita e do centro direita para o centro esquerda. É isto que é próprio da democracia e que faz prova, ou não, do seu bom estado de saúde. Ao invés do que as viúvas e os órfãos da geringonça nos têm procurado fazer crer nos últimos dias, a democracia vive muito bem com eleições, mesmo que antecipadas. Vive é pessimamente com governos e partidos que se eternizam em funções, onde não há alternância e mudança de ciclo político. Por conseguinte, as eleições legislativas que terão lugar no começo do próximo ano civil seriam uma excelente ocasião para mudar, trazendo a direita, isto é, os partidos à direita do PS e da geringonça, para o poder.

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Sucede que essa direita parece estar fortemente empenhada em manter o Partido Socialista e António Costa em funções, quiçá dar-lhe até o que ele nunca teve, uma maioria absoluta, sozinho ou com dois ou três deputados do PAN. De facto, à vista do prenúncio de poder que a vitória de Carlos Moedas parecia indicar, o que têm feito os responsáveis pelos partidos não socialistas do regime? Entenderam-se num projeto comum a propor ao País? Reuniram-se para se apresentarem decentemente aos eleitores e tornarem credível o seu espaço político? Promoveram alguma conjugação de esforços, de pessoas, de ideias e projetos, cuja utilidade e pertinência fosse por todos inteligível? Qual quê? Pelo PSD e pelo CDS, os drs. Rangel e Melo anunciaram que estavam prontos para assaltar os respetivos diretórios partidários, ao que os drs. Rio e Francisco responderam barricando-se nos seus gabinetes e com espúrias chapeladas, a fim de evitarem eleições internas e congressos. Pretendem, como é evidente, uns e outros, os resistentes e os apressados, ser eles a compor as listas de deputados nas quais, depois deste lamentável espetáculo, nos querem convencer a votar. Pelo CDS, onde as coisas sempre atingem um grau superior de comicidade, supostas vedetas da democracia-cristã lusitana desfilam pela comunicação social com lacrimejantes declarações de desgosto e abandono partidário. Mas quando foi preciso desapear o dr. Ribeiro e Castro das funções de presidente do partido, sensivelmente pelas mesmas razões com que agora procuram fazer o mesmo ao jovem Francisco (os anos passam e pesam, meus caros), não tiveram hesitações e deram às coisas uma outra animação, com reuniões do Conselho Nacional cheias de insultos e impropérios atirados aos então dirigentes do partido democrata-cristão. Tudo muito pouco democrático, tudo muito pouco cristão, mas nada que seja propriamente imprevisível. Já pela IL e pelo Chega, conta-se com a infelicidade alheia para aumentar os respetivos pecúlios eleitorais, como se isso servisse para remover o Partido Socialista do poder, que é o que verdadeiramente interessa. Enfim, vão ter todos um lindo enterro, com mais uma provável legislatura de um PS desgastado, mas disposto a tudo para se conservar no poder. Desgraçadamente, com eles, todos nós o teremos também.

Tudo visto e somado, uma conclusão ressalta evidente: alguém tem de pôr ordem na casa. E, como é da natureza própria das coisas, não poderá ser nenhum dos que a está a incendiar.