Olha que, para silly season, não temos estado mal. Tem sido dos verões mais parvos de que tenho memória. Assim, de repente, recordo a declaração do secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, no passado domingo, no Algarve, segundo a qual as fronteiras portuguesas “estão mais seguras” devido à reforma do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Dois dias após uma embarcação ter passado ilegalmente a fronteira, resultando no maior desembarque de imigrantes no Algarve. Quer dizer, só se for isso. Talvez a reforma do SEF de que fala José Luís Carneiro tenha passado pela reposição de areia nas praias, tornando mais prática a chegada de embarcações repletas de imigrantes ilegais.

Ou, espera. Acabei de perceber o alcance da coisa. É possível que seja uma piada interna lá no Largo do Rato: dizer que algo está “seguro”, sempre que o partido dedica o mais absoluto desprezo a alguma coisa; em jeito de referência à forma como o PS trata o seu antigo secretário-geral, António José Seguro — está “Seguro”:

– Ó Zé Luís, como é que está a reforma do SEF relativamente ao controlo de fronteiras?

– Oh pá, está tudo tratado.

– “Tratado”? Como assim, Zé Luís?

– “Seguro”, queria eu dizer! Está tudo “Seguro”. Assim é que é.

– Ah, bom! Queremos isso desprezado à séria, ouviste?! Por instantes, fiquei em pânico, a julgar que não estávamos a criar ainda melhores condições para receber mais carregamentos de indigentes, daqueles mesmo óptimos para compor a nossa base eleitoral com gente bem miserável, totalmente dependente e que ainda caia na esparrela das nossas promessas de esmola. Ufa, que susto, Zé Luís.

A ser este o caso, perde um bocado de pertinência a observação que ia fazer a seguir. Não sendo este o caso, fica a observação. Eu a pensar que o caquético Joe Biden tinha deixado a fasquia das declarações imbecis sobre a segurança de uma fronteira por onde entra qualquer perneta coxo ilegal a um nível, digamos, Bubka (salto à vara? 1984/94? Não?), quando, do nada, surge este José Luís Duplantis (salto à vara? 2020/25? Também não?! Mau…) e estabelece um novo máximo absoluto. Tão mais espectacular quanto não lhe é conhecido qualquer indício de senilidade. Ou seja, é um registo obtido sem recurso a formas duvidosas de piorar a performance.

Aliás, nas fronteiras e no combate aos fogos, a estupenda performance do PS de José Luís Carneiro está aí para ser usufruída. Começando pela concretização do compromisso do governo de António Costa, depois do fogo de Pedrógão Grande, de fazer a maior reforma da floresta portuguesa desde o tempo de D. Dinis. Por acaso, não sei se o PS estará em falta neste ponto. Posso estar a fazer confusão, que sempre me baralhei um bocado com os reis. Já não sei se era a maior reforma florestal desde D. Dinis, se era a maior reforma florestal quando voltasse D. Sebastião. É provável que fosse este último caso.

O que sei é que António Costa vai ter problemas, lá em Bruxelas, à conta dos incêndios. Porque a União Europeia tem, de certeza, leis contra a discriminação de aeronaves. Ah, pois não que não tem. Milhares e milhares de burocratas, cujo trabalho é produzir mais e mais regulamentação, que nos obrigará a pagar mais e mais impostos, para financiar mais e mais burocratas, não se iam lembrar desta, queres ver?

Desde logo, haverá leis contra a discriminação de aeronaves gays, lésbicas e trans, claro. Até porque é conhecido o flagelo que assola as aeronaves trans, que se lançam em voos picados até ao solo a uma taxa superior aos kamikazes na Segunda Guerra Mundial. Mas haverá também — de certeza — leis contra a discriminação de aeronaves com base nas suas preferências ocupacionais. Ora, é aqui que António Costa e os seus governos estarão a contas com a justiça. Como se compreende ter havido 3,5 mil milhões para a TAP, promovendo assim aviões de passageiros, e cerca de 3,5 euros para comprar aviões de combate a incêndios?

Resultado: mandamos vir aviões de Marrocos. Também, já que estamos a mandar vir barcos, por que não aviões? E só não mandamos vir comboios porque não somos capazes de assentar uma linha de caminho de ferro desde que, em 1938, se inaugurou o troço da linha do Tua, Mirandela-Brunheda. A não ser que o atual Governo entre num frenesim legislativo-empreendedor e, nos próximos anos, vá tudo a eito. A parte do “legislativo” é capaz de ser tranquila, pelo menos no que a passar leis pelo crivo do Presidente da República diz respeito: se há coisa que o Governo aprendeu, com o chumbo da Lei de Estrangeiros e a chegada do bote com imigrantes marroquinos ao Algarve, é que a melhor forma de garantir que o Presidente aprova leis será enviá-las via CTT para Marrocos, recebê-las lá e reenviá-las de volta, de barco, para uma praia algarvia. É certo que Marcelo não as manda para trás.