Existe a tradição da troca de cartões quando conhecemos alguém com quem desejamos continuar em contacto. Esta tradição está no processo de morte lenta, progressivamente abandonada em prol de ferramentas digitais. Agora usam-se QR codes com os smartphones, e programas são capazes de nos dar acesso a toda a pegada digital que o recém conhecido tem online. O vosso cronista não resistiu também aos ares de mudança, e com o início de uma maior participação em eventos políticos europeus, quando me era perguntado qual a melhor forma de estar em contacto, sem hesitação, a resposta era, “Quer-me seguir no Twitter? Assim também podemos trocar mensagens diretas”. Quando, por vezes, o interlocutor fazia um franzir do sobrolho de estranheza, a resposta era imediata “Sabe…é que eu vivo no Twitter”.
Por muito deprimente que a frase possa soar não era muito longe da verdade. Fosse com a versão mobile ou no computador pessoal, com o tempo, o Twitter transformou-se num local privilegiado para acompanhar os cronistas e jornalistas favoritos, os políticos mais interessantes, as organizações a que se dá mais valor, e as pessoas de que gostamos de saber a opinião. Igualmente, servia como praça pública para troca de impressões, opiniões e ideias. Com as suas insuficiências, verdade, mas com a possibilidade de fazer parte, ou de participar, numa comunidade mais alargada com ideias políticas similares e com objetivos semelhantes. E isso durante muitas horas por dia, sete dias por semana.
Quando no verão de 2022 se começou a tornar inevitável a aquisição da empresa por Elon Musk, e à medida que, com a sua liderança, a plataforma começou a perder qualidade e a ser um ninho de racistas, supremacistas e misóginos, tornava-se cada vez mais difícil justificar a presença no Twitter (o vosso cronista não usa a infantil designação de X). Por vezes, o argumento ainda era de “ficarei aqui até ao amargo final, para não ceder espaço aos iliberais e antidemocratas que por aqui escrevem”, mas isso era procurar uma desculpa para continuar na plataforma e aproveitar o cada vez menos pouco de bom que oferecia. E era fácil observar que as nuvens negras de mudança estavam no horizonte. À medida que avançávamos por 2024, e com a campanha eleitoral para a Presidência dos Estados Unidos, Musk tornou-se mais ostensivo ao usar o Twitter para espalhar informação pró-Trump e desinformação anti-Democratas. A juntar a isso, descobriram-se alterações de algoritmos, supressão de links externos e supressão de contas.
No entanto, para o vosso cronista, a gota final seria a ameaça, nada velada, do então candidato a vice-presidente JD Vance para a União Europeia (UE) que esta teria de abandonar regulações da plataforma de Musk, ou então “os Estados Unidos poderão não suportar a NATO”, ajudando assim a defender a Europa. Nesse momento, tornou-se impossível estar a gerar tráfego, e conteúdos, para a plataforma, mantendo assim a sua importância. No post de despedida pode ler-se “Vance acha que pode fazer chantagem com os europeus? O raio é que vai. Vamos esvaziar este sítio!”.
Esse foi o primeiro ato do que será uma guerra aberta dos oligarcas digitais americanos à União Europeia (UE), e à Comissão Europeia. Mark Zuckerberg ameaça não respeitar o Ato dos Serviços Digitais (DSA) da UE, justificando tal com o “aumento de leis que institucionalizam a censura”, o que é uma falsidade descarada e mal-intencionada. O que Musk e Zuckerberg querem é que não haja, na Europa, um controlo sobre conteúdos com discurso de ódio e de dano, sobre algoritmos que amplificam essas mensagens, ou os direitos dos utilizadores como definidos pelo DSA, permitindo assim os inimigos das democracias liberais de injetar o máximo possível de veneno na corrente sanguínea das democracias europeias. As motivações para tal podem ser por questões de económicas, por identificação ideológica, ou para evitar ser criticado por conservadores e líderes de extrema-direita.
Como autor de uma tese de mestrado em relações internacionais com o nome “Liberdade de expressão política na era digital: ameaças e soluções”, e com trabalho realizado nesta área no âmbito do Parlamento Europeu, o vosso cronista deseja que a Comissão Europeia se mantenha firme na exigência que as nossas regras digitais tenham de ser respeitadas no caso de as plataformas de fora do continente quererem operar no nosso mercado único, seja a Meta, Twitter ou TikTok. Temos bons exemplos dessa intervenção com os gigantes digitais e é importante que assim continue. E, acrescentando mais um ponto à wishlist, seria interessante ver investimentos, diretos via União Europeia e/ou em conjunto com empresas do bloco, para a criação de plataformas digitais que sirvam o mesmo propósito, mas que sejam mais salutares, mais construtivas, e mais europeias.