“Nunca tive vida em comum com esta pessoa, nunca coabitei com esta pessoa, nunca tive economia comum com esta pessoa. Creio que isto é suficiente” — respondeu Fernanda Câncio em tribunal ao ser questionada pela juíza sobre o seu relacionamento com José Sócrates.
Não sei o que impressiona mais nesta frase: se a repetição quase ritual, por três vezes, da expressão “esta pessoa”; se o recusar identificar pelo nome próprio alguém com quem manteve uma relação pessoal muito próxima ou se aquela conclusão final — “Creio que isto é suficiente” — a dar conta da mesmíssima sobranceria que durante anos tornou várias outras pessoas do círculo mais próximo de José Sócrates indiferentes às notícias que chegavam sobre o então seu amigo, conhecido, namorado… e primeiro-ministro. O que os caracterizou então e os caracteriza agora está expresso nesta afirmação: “Creio que isto é suficiente”. Não, não é agora tal como não foi no passado. E não estou a referir-me à suficiência ou insuficiência de explicações perante o tribunal mas sim perante a consciência e já agora o bom senso. Desse ponto de vista não, não é suficiente.
Mas por mais tragico-grotesca que seja a anonimização de José Sócrates por parte de alguém que, como aconteceu com Fernanda Câncio, privou com ele, há que reconhecer que Fernanda Câncio se limita a dizer alto aquilo que outros, em silêncio, adoptaram como táctica. Com a substancial diferença que Câncio fala sobre a partilha da sua vida pessoal com José Sócrates, enquanto os silenciosos partilharam com ele o poder. Ou, parafraseando Câncio, tiveram vida política comum com José Sócrates. Esses, quando a justiça tornou em matéria criminal o que era óbvio, público e notório há anos, esses, repito, trataram de se eximir de responsabilidades tornando no seu mantra a explicação de António Costa: “concluo que ele, de facto, aldrabou-nos [ao PS]”. Como quem muda de camisa, os socialistas trocaram o Sócrates menino de ouro do PS pelo Sócrates aldrabão. Passo seguinte, apagá-lo, fazer de conta que ele nunca existiu. Sem que se lhes reconheça qualquer reflexão sobre a forma como o PS exerceu o poder nesses anos.
Mas como escreve escreve João Miguel Tavares na introdução ao seu livro “José Sócrates — Ascensão” onde faz um levantamento impressionante de tudo o que se sabia e procurou ignorar sobre José Sócrates, “Não tivesse Portugal ficado às portas da bancarrota e é possível que Sócrates tivesse permanecido muitos mais anos em São Bento, rodeado de suspeitas e de fiéis” Não só concordo como acrescento: José Sócrates teria passado de São Bento para Belém sob o arrebatamento triunfal do PS que viu nele não apenas o líder que lhes deu a maioria absoluta mas também, e sobretudo, o homem que falava a linguagem de poder que o PS gosta. Os socialistas deixaram cair “Esta pessoa” antigamente conhecida por José Sócrates. Não por aquilo que sabem sobre a forma como exerceu o poder mas sim por o ter perdido.
O PS habituou-se não apenas a ser partido de poder mas também a ter uma relação excepcional com o poder. Com Sócrates o que era um privilégio tornou-se num drama. Mas o PS nunca reflectiu sobre o que aconteceu nesse período. Ora o que está precisamente em causa neste momento para o PS é a sua relação com o poder. O que agora afasta muitos socialistas de José Luís Carneiro ou de António José Seguro não é serem mais à direita ou menos de esquerda (José Sócrates seria tão ou mais à direita que ambos) mas sim a imagem de poder que transmitem. Alguém (quem?) um dia no Largo do Rato vai ter de dizer aos socialistas que o PS é um partido como os outros. Mas resta saber se os socialistas estão preparados para tal.