30/Julho 2025, Holanda (Globo): “Criança foi mordida perto da Pirâmide de Austerlitz; suspeita é de que o ataque tenha sido cometido pelo lobo “Bram”, um macho marcado para abate porque (com confirmação por testes de ADN) já havia atacado uma mulher em maio deste ano e, no ano anterior, ferido uma menina.”;
27/Agosto/2025, Kosovo (Telegraph): “Menina de 5 anos é atacada por lobo em Brod e arrastada por vários metros do quintal”;
16/Setembro/2025, Grécia (SIC Notícias): “Criança de cinco anos ferida por lobo em estância balnear na Grécia. ONG de intervenção animal Callisto pormenorizou que o lobo responsável pelo ataque é um animal “jovem que desenvolveu uma espécie de “familiaridade” problemática com os humanos, o que não é habitual”.
Vão aumentando os casos de contactos problemáticos entre Lobos e Humanos pelo continente europeu. Os casos acima, noticiados recentemente, e um pouco por toda a Europa, ilustram que este pode vir a tornar-se um problema sério, que se pode revelar um risco para a própria população lupina, se enfiarmos a cabeça na areia e fingirmos que o perigo não existe.
Ao longo da Idade Moderna o Lobo era superabundante numa Europa maioritariamente Rural (possivelmente mais que na anterior Idade Média, mas de qualquer forma mais próximo do contacto com o Homem), e mesmo descontando os terríveis episódios de Raiva, era entendido como um animal perigoso, sobretudo para crianças – daí imensas histórias, contos, lendas, etc., que no fundo (indesejavelmente, porque estas crianças eram braços de trabalho nos campos) alertavam para este perigo.
A Idade Contemporânea trouxe o Êxodo Rural e o declínio dos Lobos, que apenas subsistiram nalguns lugares remotos. Os encontros com o Homem tornaram-se muito escassos, e os poucos Lobos temiam o contacto. A população urbana passa a ver – comunidade científica incluída – na figura antiga do Lobo pouco mais que folclore, trocando-a por bichos fofinhos (também para angariar vozes e recursos para a sua conservação).
Mas novamente a realidade mudou, com os Lobos a aumentarem pelo “velho continente” e a aproximarem-se das Pessoas. E assim, novos desafios se colocam para evitar dissabores.
Há ou não perigo?
Sim, há. Os trabalhos de Linnell et al. (2002 e 2021) compilam milhares de ataques de Lobos a Humanos pelo mundo e tipificam duas situações muito características: os animais raivosos e os ataques a crianças pequenas. Aos olhos do Lobo, atacar uma Menina de 5 anos não é a mesma coisa que avançar para um Homem de 40, tal como atacar um Caniche não é a mesma coisa que se lançar a um Rottweiler.
Não obstante, sendo um animal perigoso, à imagem de outras espécies perigosas como o Tubarão, o risco é, pelo menos por enquanto, muito baixo. O Cão é um animal muito menos perigoso. Todavia o risco de um ataque de Cão é muito maior (em vez de uns milhares, há milhões de cães, e em vez de contactos ocasionais e breves, há contacto permanente).
Então onde e para quem há risco?
A situação pode ser arriscada sobretudo em espaço periurbano em partes da Europa onde o Lobo aumentou muito nas últimas 2/3 décadas e se vem instalando em parques e jardins, sem gado ou caça como no campo, por um lado, mas por outro, onde se alimenta maioritariamente de lixo e de animais de companhia (cães, gatos, etc.), e onde se habitua (deixando de temer) à presença humana – estudos em outros Canídeos mostram que atacam sobretudo nesta situação (Coiotes, Dingos, até Raposas…) de animais “confiantes” e o Lobo não será exceção – e também onde há (porque no meio rural já quase não há ou não há de todo) crianças, e sem a devida supervisão e/ou noção do risco…
O que devemos fazer?
Desde logo avisar preventivamente quanto ao risco, e não apenas como reação aos acontecimentos — como nos casos da Holanda ou Grécia. E depois, uma atuação rápida das autoridades eliminando estes (poucos) animais problemáticos: por exemplo no caso da Holanda o Lobo já havia sido marcado para abate há meses (depois de ter atacado 2 crianças e 1 mulher, ataques confirmados por testes de ADN); também no caso da Grécia era já bem conhecido o comportamento anormal deste lobo após ter enfrentado várias pessoas nos meses anteriores. Dada a inação, estes miúdos felizmente não morreram, mas… por milagre!
Se nos lembrarmos da tinta que correu sobre o Pónei morto da Ursula von der Leyen, imagine-se os danos para os próprios lobos que dois ou três ataques mortais a crianças poderão causar… Basta aliás recordar que o ano passado no Norte de Itália e após um ataque mortal de um Urso que havia sido ali reintroduzido, fez-se um referendo e a maioria votou a favor da erradicação de Ursos e Lobos. Pelo que, em democracias isto pode ter impacto muito negativo sobre o futuro da espécie…
Devemos, portanto, olhar para isto com seriedade e não fingir que não acontece. Estas situações podem e devem ser evitadas, incluindo, novamente, para o bem dos próprios lobos. Lobos que não são bons nem maus, são apenas um predador de respeito, e que devemos respeitar enquanto tal.