A verdadeira divisão não é entre conservadores e revolucionários, mas entre autoritários e libertários.
George Orwell

A estupidez humana é a única coisa que dá uma ideia  do infinito. Graças aos mídia, temos a prova todos os dias!!
Ernest Renan

Venho agradecer publicamente ao Senhor Professor Francisco Bettencourt a generosidade de ter trazido a esta terra nos confins do atraso uns raios de luz do mundo exterior em que tem o privilégio de viver (Programa “É ou Não É?” conduzido por Carlos Daniel na RTP 1, que só esta semana vi).

Já ouvi duas vezes a sua lição, farei disso o ritual de uma missa semanal.  Talvez assim o racista que descobriu em mim se redima.

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O que ensinou, agastado e douto, marcou-me muito. Desde logo, saber que somos um país de racistas (lera o contrário em todos os estudos e inquéritos que julgava sérios a que tive acesso). E foi inspirador, exaltante mesmo, ver o meu amigo António Araújo, que tinha por uma alma pura, aceitar alegremente essa sua sentença sem recurso, com que também a ele, claro, envolveu. E quanto me tocou a sua reiterada exortação a que procuremos a civilização que anunciou e chegará, salvadora, do exterior. Terá sido para isso que também veio, sacrificialmente, o Senhor Mamadou Ba! Tenho sido um ingrato.

Apreciei particularmente o fulgor discreto que lhe passou pelo olhar douto, a fazer-me sentir o grau da minha  inferioridade, compreensivelmente agastado pelo auditório de indígenas, baço de tanta sabedoria, leve cor a animar uma pele de cinza de tantas noites de estudo, perante o imprevisto discípulo que aqui encontrou, quando o Senhor Mamadou Ba, em perfeita sintonia, revelou a milhares de  Portugueses que escravatura foi só aqui, só nós. Na África e no Médio Oriente, não. Isso que ali até prossegue, nalguns Estados nunca abolida, como a ONU vem denunciando e se sabe, não, não foi e não é escravatura. Os massacres que dizimaram etnias, a estigmatização dos “inferiores”, a escravidão ignóbil da mulher, esses crimes de lesa-humanidade, a devastarem cada vez mais a metade do Continente ocupado pelo islamismo, isso é outra coisa, que MB não soube explicar, mas o Senhor Professor, em missa próxima, nos virá revelar.

E concordou com mais, ainda mais surpreendente para o selvagem que me revelou haver em mim, perante o silêncio confirmativo temeroso – que tão ignorante não o imagino – de António  Araújo. Ensinou-nos o Senhor MB – missionário que terá vindo, repito, para nos salvar de nós (de uma maneira ou de outra, porque não me esqueço da metáfora que lhe encomendaram) – que o tráfico, originário, único, foi o atlântico, que não existiram os sete séculos árabes e africanos de caça ao homem e de mercado. Caça primeiro na Europa, sobretudo eslavos (vem daí a palavra “escravo”, no inglês, “slave”, como o Senhor Professor sabe, que sabe tudo ), e quando essa matéria-prima faltou, caçaram no próprio Continente, dizimando impérios inteiros fluorescentes.

E eu também estava enganado por ter aprendido como facto histórico que o tráfico atlântico que se seguiu só foi possível com o fornecimento de escravos africanos pelos caçadores de homens e negreiros africanos e árabes (escravizando os próprios “irmãos de raça“,  diria eu, indignado, se fosse MB ou Fernando Rosas). E mais, pensava eu que a escravatura pelos árabes foi genocídio, pois castravam os sobreviventes de que não precisavam ao contrário dos europeus e por isso, porque a crueldade era a mesma, embora mitigada por uma religião que se lhe opunha. Genocídio, pensava eu ser a razão da estranha ausência de negros nos países do Médio Oriente árabe. Mas cá e nas Américas, milhões.*

Quero confessar-lhe um pecado, acto que como é meu timbre logo assumi num artigo de jornal, talvez isso atenue a minha culpa. Assinei a tal petição. Impulso de que logo me arrependi numa fracção de segundo, indignação que o sismógrafo temível da internet num ápice registou irrecuperavelmemte – a falta que faz o tempo de mediação da tinta e do papel!

Assinei-a por eu ser racista, revelou-me o Senhor Professor agora, embora eu pensasse ter sido sempre, em actos, anti-racista.  Assinei-a, sabendo –  claro! –  que ela não retiraria a nacionalidade a MB.  A minha intenção foi transmitir o meu sentimento de homem livre e cidadão que considera dever fazer sentir ao Senhor MB não merecer a Pátria que pediu e lhe oferecemos. E porque me arrependi? Não foi por ter logo consciência do efeito perverso que implicaria. Foi porque nem me imagino, se o pudesse fazer, a expulsar um ser humano, mesmo sendo para o devolver ao paraíso de que quis fugir.

E digo, juro, que quando vi no programa de Carlos Daniel, pela primeira vez ao “vivo”, o Senhor Mamadou Ba,  senti uma tristeza enorme. E uma revolta que noutro impulso, mas ainda mais fundo, me levaria a assinar outra petição qualquer contra os que estão a usar miseravelmente o ser humano que ele é. Mesmo que com isso tenha o gozo de um protagonismo efémero e obtenha os recursos materiais para a vida confortável que leva.

Com tanto saber e tal fulgor do Mestre, esquecia-me do beato Rui Tavares. A santidade desculpa-o de tudo, dessa pregada crença fanática que embrulha em fala mansa de uma esquerda cândida, paraíso, na verdade fantasma ignóbil do que nunca existiu.

Psiquiatria, disse a resistente Helena Matos. Eu digo totalitarismo. É essa a divisão que separa, como escreveu Orwell que tão bem o identificou. Que me distingue e des-mistura do Senhor Professor, dos seus demónios de novo a assombrarem o mundo.

O rei vai escabrosamente nu, não é, João Gil Barbosa? Defenda-se, defenda o futuro!

A bibliografia é cada vez mais extensa e documentada, embora silenciada. Africana, hoje, a maior… como se compreende. Sugiro ao Senhor MB, se quiser saber, que leia O Genocídio Ocultado, agora em 4ª edição, da Gradiva. Mas poderá ler apenas Tintim, Carvão no Porão. O carvão são os peregrinos negros muçulmanos apanhados na viagem para Meca, que nem esses escapavam, apesar do Profeta proibir a escravidão dos conversos.